terça-feira, 5 de agosto de 2008

DANIELA - O Passado Que Me Fez Sorrir

- Alô, Cássio?
- Sim.
- Sou eu, o Leandro. Tudo bom?
- Melhor agora. O que mandas?
- Bombas. Estou desempregado faz dois anos e minha esposa me deixou há uma semana.
- A Renata lhe deixou? Mas por que?
- Uma coisa leva a outra, Cássio.
- Desculpe, mas você lembra o que falei sobre a Renata quando ainda estavam namorando?
- Sim, Cássio. Que seus sentimentos não eram lá muito confiáveis...
- Pois é. A Renata sempre esteve do lado da grana, Cássio.
- Hoje enxergo. Mas estou te ligando para saber se posso passar na sua casa hoje para conversarmos, lembrarmos dos velhos tempos em que fazíamos um som.
- Claro. Passa aí.
- OK.

Cássio é o meu melhor amigo. Aprontamos poucas e boas na nossa juventude. Tínhamos uma banda de rock na década de 80. Naquela época eram poucos os meninos que se aventuravam a tocar algum instrumento, até porque era um hobby relativamente caro para os padrões vividos. Com aquela coisa toda de Rock in Rio, em 1985, foi que a molecada começou a se interessar mais pela coisa. Na rua onde morávamos, por exemplo, só se tinha notícia do nosso som.

Minha amizade com o Cássio continua até os dias de hoje. E num momento difícil como aquele, sem emprego e com o casamento arruinado, não haveria pessoa mais certa a se procurar. Naquele momento eu só queria me desprender do presente e recuperar a alegria que eu tinha no passado. Reviver aqueles bons anos em que as únicas coisas a se pensar eram tocar a minha guitarra e trocar uns beijinhos com as garotas, inclusive a Renata.

Cássio me atendia à porta.
- Entre aí, Leandro. Não repare a bagunça, por favor.
- Lado a lado com minha atual situação sua casa me parece um brinco, Cássio.
- Deixe de ser bobo. Isso é apenas uma fase, cara. Você vai dar a volta por cima. Tenho certeza.
- Espero.
- Trouxe a guitarra? Minha bateria ainda continua montada lá na garagem.
- E eu não sei? Claro que trouxe. Vamos fazer um som. Trouxe umas cervejas também.
- Ótimo! Mas antes, queria lhe mostrar uma coisa.
- Mostre.
- Lembra daquele show que fizemos no Clube dos Líderes?
- Nossa, se lembro. Aquele salão lotado.
- Pois é. Sabe o que achei aqui em casa?
- Diga.
- Uma fita VHS com a gravação daquele show.
- Jura? Eu nem lembrava que aquele show havia sido gravado.
- Pois é. Sente-se aí, abra uma latinha e se prepare para rir aos montes.

Cássio ainda possuía um antigo video cassete herdado de seu pai. Lembro que foi o primeiro de quatro cabeças que eu tinha visto na época. Sua família sempre esteve à frente em termos de tecnologia.

- A gravação não está lá essas coisas e além do mais a fita já sofreu demais com o tempo e umidade presente nessa casa.
- Tudo bem, Cássio, mas coloque logo essa fita. Não vejo a hora de rever tudo aquilo.
Cássio manuseava o aparelho com o cuidado de sempre. Eu analisava cada movimento de Cássio e já começava a deduzir o quão mais feliz do que eu aquele cara deveria ser. 45 anos, solteiro, cercado de quantidades enormes de Lps, Vhss, Cds, Dvds, livros etc. As preocupações de Cássio continuavam as mesmas de duas décadas atrás, manter o toca-disco sempre com uma agulha nova, para ouvir aquelas raridades, e conferir diariamente os lançamentos fonográficos. Era uma boa vida.

Enfim, Cássio colocava aquela filmagem para rodar diante de meus olhos. O filme já começava com a gente vinte anos mais novos, sem barriga ou rugas, tocando com uma energia invejável. Eu já demonstrava então em minhas lágrimas minha vontade de voltar no tempo e de talvez fazer tudo diferente. Não cursar Administração, não levar Renata tão a sério, não almejar um carro 0km...
- Mas estás chorando, Leandro?
- Pois é.
- Pensei que iríamos rir.
- Desculpe-me.
- Tudo bem.
De fato também me pegava várias vezes soltando gargalhadas por conta de nossas roupas. A moda nos anos 80 havia sido cruel, mas somente hoje reconhecemos isso.

Em um determinado momento da filmagem, já no final do show, aparecíamos todos felizes com um bando de amigas ao nosso redor, no camarim do clube. A câmera passava frente a nossos rostos bêbados e cada um dizia uma besteira. Renata, que ainda não estava em meus braços, também estava presente e dizia “Esses meninos vão ficar ricos”. Isso devia ser um aviso sobre sua ambição. Cássio dizia “Vamos tocar juntos até ficarmos velhinhos como os Rolling Stones”. Eu dizia “Tira essa câmera do meu rosto, merda”. Eu voltava a fita umas cinco ou seis vezes para conseguir entender o que eu tinha dito. Quando finalmente entendia minha frase sem graça, deixava então a filmagem rolar.

Logo depois de mim, aparecia de forma enorme naquela tela a Daniela. Loiríssima, de olhos verdes e dona de um semblante que de tão belo fez a filmagem parecer a mais tratada imagem de todos os tempos. Ela dizia “Eu amo o Leandro. Ele não é um gato?”.
- Você lembra da Dani, Leandro?
- Nossa. Volta isso aí.
- Você vai estragar meu video desse jeito.
- Volte, por favor.
Eu insistia e Cássio Voltava.
- Não se lembra?
- Agora me lembro. Dani. Meu Deus! Ela estava comigo nesse show?
- Sim. Como não se lembra dessa gata, Leandro. Pelo visto a Renata fez uma mandinga das boas.
- Só pode. Que fim levou a Dani?
- Olha, coincidentemente eu a encontrei faz uns três dias no centro da cidade.
- E como ela está?
- Olha, continua a mesma gracinha de sempre.
- Ora, Cássio. Estamos caminhando para os 50 anos. Não venha me dizer que ela...
- Leandro. Nesse video ela devia ter seus 17 ou 18 anos. O tempo passou, meu caro, mas parece ter sido um pouco mais generoso com Daniela. Palavra.
- Sabe onde ela mora?
- Ela me disse em qual rua. Lembra do estúdio onde ensaiávamos?
- Lembro, claro.
- Uma rua depois. Sabendo qual é a rua não fica difícil achá-la. Agora você pode, por favor, tirar o pause e deixar a fita rolar, Leandro?
Eu nem me tocava que a filmagem permanecia paralisada com o lindo rosto de Daniela.
- Sim, sim, claro.
- Leandro. Não vai me dizer que vai procurá-la.
- O que tenho a perder? Acha que ela ainda lembra de mim?
- Sim. Claro que se lembra. Ela perguntou por você quando a encontrei.
- Não brinca.
- Palavra.

Findada a sessão de vídeos antigos, íamos para a garagem e relembrávamos antigos sucessos radiofônicos da época. Ríamos muito e bebíamos também. Havia sido uma tarde inesquecível. Mas nada tirava o rosto de Daniela de meu pensamento. Eu só pensava em ir até a casa dela nem que fosse apenas para vê-la. Aos poucos eu ia me lembrando dos gestos bacanas que ela, um ou dois anos mais nova que eu, fazia quando estávamos juntos. Ela era um doce de menina.

Eu saía da casa de Cássio e seguia então direto à rua onde, segundo Daniela, ela residia. Era uma rua sem saída e de poucas casas onde eu avistava algumas meninas conversando no portão de uma delas.
- Boa noite meninas.
- Boa noite.
Respondiam em uníssono.
- Vocês conhecem alguma senhora chamada Daniela?
- Sim.
Respondia uma menina.
- Onde ela mora?
- Aqui. É minha mãe.
Já era de se esperar mesmo.
- Você pode chamá-la? Diga que é o Leandro, um antigo amigo dela.
- Está bem.

Eu estacionava o carro enquanto a menina chamava sua mãe. Ao fechar a porta, minha imagem refletia sobre o vidro do carro e me mostrava um Leandro barrigudo e de aspecto bastante cansado. Pensava por breves segundos se seria uma boa idéia se apresentar daquela forma à Daniela, mas já não dava mais tempo de desistir.
- LEANDRO!
Eu virava e me deparava com uma mulher linda. Daniela estava conforme Cássio havia dito. Linda como sempre.
- Lembra de mim?
- CLARO QUE LEMBRO!
- Que bom. Estou muito feliz em revê-la.
- Eu também. Mas como me achou?
- O Cássio.
- Sabia! Eu o encontrei esses dias.
- Pois é.

Ela me convidava para entrar e eu, muito sem jeito, aceitava.
- Você está casada?
- Viúva.
- Sinto muito.
- Faz muito tempo. Gabriela tinha uns dois anos.
Ela me apresentava sua filha já adolescente.

Conversávamos muito naquela noite. Ríamos muito também e o inevitável acabava acontecendo.
- Hoje, abandonado, sinto saudade do que vivemos.
Eu jogava.
- Ora, Leandro, isso faz tanto tempo. Éramos umas crianças.
- Pois é. Mas é que aquela imagem no video do Cássio me fez voltar ao passado completamente.
- Olha, Leandro. Ninguém precisa do passado para ser feliz. Precisamos é do presente.
- Você está feliz com seu presente?
Eu perguntava.
- Sim. Tenho uma filha linda, com saúde...
- Refiro-me no amor.
- Eu amo minha filha...
- Não é sobre esse amor que falo.
- Se você quer saber se estou namorando, eu lhe digo. Não. Não estou namorando.
- Então...
- Leandro. Você me aparece depois de quase 20 anos e o quer que eu me jogue nos seus braços assim? Eu te esperei por um bom tempo ainda, mas passou.
- Desculpe-me.
- Não há o que se desculpar. É a vida.
- Eu vou embora. Está tarde.
- Sim, mas você volta?
- Só se você quiser.
- Eu quero.
- Isso é uma chance?
Eu perguntava.
- Interprete.
- Sempre fui ruim nisso.
- Não será ruim dessa vez.
- Eu espero.
Eu me despedia e seguia para casa.

Em casa, a secretária eletrônica me trazia novas. Uma entrevista de emprego agendada para o dia seguinte. A primeira em dois anos. E um recado da Renata pedindo para voltar para casa. Eu não posso negar que me sentia muito feliz com ambos os recados. Um dia de encontro com o passado parecia ter sido fundamental para que o meu presente parecesse um pouco menos nebuloso, mesmo presenciando pela segunda vez a Renata me afastando de Daniela. Eu era um imbecil completamente apaixonado. Daniela esperaria mais um pouco.

***
Arte usada na capa: "Loira" de Rono Figueiredo.

2 comentários:

Fabiana disse...

ahhh...
mas a daniela não vai esperar não..
aposto!

rs.

Anônimo disse...

Ahhh que raiva desse contooo!
ela não vai esperar MESMO!
rsrsrs

beijos

Nathalia - UCAM