quinta-feira, 7 de agosto de 2008

DANIELA III - O Futuro Que Me Fez Chorar (Final)

Eu era firme. No dia seguinte, sem retornar a ligação à Renata, seguia feliz para meu o novo emprego. A idéia de encontrar Daniela me dando ordens me amedrontava um pouco, mas mesmo que eu não estivesse contente eu não tinha escolha. Na minha idade, somente um milagre me faria trabalhar novamente no mesmo cargo. Daniela era um milagre. Melhor, a fita empoeirada de Cássio era um milagre.

Renata, a essa altura, devia estar pensando que seu perdão não havia sido aceito. E de fato não. Eu me sentia péssimo com isso, mas na verdade eu estava sendo calculista a ponto de esperar o rumo que cada um dos caminhos poderia me levar. Um caso com Daniela no fundo não estava descartado, mas o meu amor por Renata travava minhas conclusões. Renata era o motivo de talvez tudo aquilo estar acontecendo. Ora, devia eu ter de agradecer a Renata por ter me abandonado? Afinal, sem o abandono talvez eu não teria aquela crise de saudosismo, não procuraria o Cássio, que por sua vez não me mostraria aquele VHS etc. Não. Aí já seria demais.

Chegando à sala de Daniela.
- Bom dia.
- Bom dia, senhor.
- A Daniela está? Eu sou o novo funcionário.
- Sim. Lembro-me do senhor. Vou avisá-la.
- OK.
Enquanto a secretária ligava para o ramal de Daniela, eu observava o luxo daquele recinto. A recepção poderia muito bem se chamar sala de cristal. Tudo brilhava por ali. Tudo era muito organizado por ali. No som ambiente, o óbvio; a famosa “música de elevador”. É interessante como esse tipo de música é chata, mas em determinadas situações, como aquela, por exemplo, nos traz um certo conforto. Era uma música da Sade.
- Pode entrar, senhor.
- Muito obrigado.

- Bom dia, Leandro. Pronto?
Recebia-me Daniela.
- Bom dia. Mais pronto do que nunca, Daniela.
- Que ótimo.
Daniela pegava o telefone e falava com sua secretária.
- Não estou para ninguém, OK?
Ela seguia até a porta e girava o trinco. Num movimento rápido, girava também um botão ao lado do interruptor da luz fazendo a mesma escurecer parcialmente a sala.
- Já pode entender do que se trata, Leandro?
- Como?
- Como do verbo comer?
- Não. Como de “como assim” mesmo.
Eu tentava manter a seriedade, mas eu já entendia tudo. Daniela se despia lentamente.
- Vamos com calma Daniela. Não tem medo de seus superiores.
- Superiores? Não. Não tenho medo deles. Vem.
Eu não tive como negar aquele corpo. Fizemos então algumas sacanagens, mas não fomos até os finalmente. Para o meu azar, o grande sofá da sala de Daniela não me cabia junto a ela. A mesa seria uma boa solução, mas estava lotada de coisas e a bagunça seria enorme. Não tínhamos tanto tempo. Eu envergonhava-me. Íamos um pouco além das preliminares e era tudo.
- Esperava mais de mim, não?
Eu perguntava enquanto me vestia.
- Não. Aqui não é o melhor dos lugares também. O depósito é bem melhor.
- No depósito? Quer me dizer que já transou no depósito da empresa?
- Leandro? Que horror. Foi só um comentário, ora.
Ela e emendava.
- Vamos. Preciso que você conheça sua sala e algumas pessoas.
- OK.

Saíamos da sala e eu sentia uma certa cumplicidade por parte da secretária.
- Ana Lúcia.
- Sim, doutora.
- Estou levando o Sr. Leandro para o seu local de trabalho. Não demoro.
- Tudo bem.
Respondia a secretária com um sorriso mal disfarçado.

Nos corredores da empresa, pescoços se quebravam para observar a bunda rígida de Daniela. Um verdadeiro coral de cumprimentos ecoava de todas as salas. Eu ia atrás com postura ereta. Na minha cabeça só se passava uma coisa; “Vocês podem olhar à vontade, mas essa bunda é minha”. Naquela caminhava eu fazia minha escolha. “Dane-se a Renata, aquela mercenária”. Estava disposto a ter uma vida com Daniela. Com apenas alguns minutos naquela sala à meia luz, Dani me enlouquecera. Fizera-me sentir jovem novamente.

Daniela me apresentava os funcionários que eu mais me relacionaria. Era nítido o tesão que cada um daqueles rapazes sentia por Daniela e a cada constatação desse tipo mais inflado eu me sentia, pois era a mim que ela havia escolhido. A seriedade com a qual ela falava com eles me deixava seguro, livre de qualquer ciúme.

- Leandro. É isso. Pode começar. Qualquer dúvida, o meu ramal é 2876. OK?
- OK. Agora, me diga uma coisa.
- Sim.
- O que devo pensar sobre o que aconteceu mais cedo?
- Não pense nada. Apenas aja.
- Como assim?
- Aja! Até logo e tenha um bom dia.
A maneira moderna com a qual Daniela encarava o sexo me fazia agora me sentir trinta anos mais velho que ela.

Numa pequena folga depois do horário do almoço, resolvia ligar para Renata.
- Renata?
- Oi meu amor!
- Não. Não tem essa de amor. OK?
- Mas...
- É isso mesmo. Não me ligue mais. Não deixe mais recado em minha secretária eletrônica. Enfim, esqueça que eu existo.
- Leandro. Você não pode fazer isso comigo. Onde você está?
- Estou trabalhando.
- Conseguiu um emprego?
- Não. Estou traficando entorpecente. Lógico que consegui um emprego.
- Então, Leandro. Vamos nos reconciliar. Levar nossa vida de sempre. Felizes.
- Não, Renata. Você me abandonou quando eu mais precisava de alguém e agora vem com essa conversa. Tenha dó.
- Mas eu te amo. E você também me ama. Eu sei disso.
- Olha. Já estou em outra, entendeu? Em outra! E essa outra foi quem me arrumou esse emprego. Você a conhece.
- DE QUEM VOCÊ ESTÁ FALANDO?
- Lembra da Dani? Dos tempos em que eu tocava com o Cássio.
- NÃO POSSO ACREDITAR. EU VOU MATAR ESSA PIRANHA.
- Renata. Passar bem!
Eu desligava o telefone na cara de Renata.

- Leandro. Chegue aqui, rapaz.
Um dos funcionários me chamava a uma roda de papo. O nome dele era Alberto. Na roda tinha o Ulisses e mais um que não me lembrava o nome.
- Pois não.
- Diga-nos, o que achou da Daniela?
Perguntava-me Alberto.
- Como?
- O que achou daquele rabo?
Eu ficava furioso, mas não podia dar bandeira.
- Olha, achei a Daniela gente boa.
- Boa. Isso ela é mesmo.
Gozava, Alberto. Os outros riam.
- Por que estão rindo dessa forma? A Daniela é muito profissional. Acha que daria mole para algum de nós aqui?
Eu perguntava sério.
- Fala para ele, Ulisses.
Colocava lenha, Alberto.
- Ora Leandro, sua hora vai chegar. A vez de todo mundo aqui já chegou um dia. Mas parece que ela anda dando atenção à molecada do depósito.
- Vocês estão me dizendo que todo mundo aqui já...
- Pois é. Bem, vamos voltar ao trabalho.
- A roda se desfazia e eu me via plantado feito um idiota. Um completo idiota.

Eu ligava para o ramal de Daniela.
- Ana Lúcia falando.
- Ana, gostaria de falar com a Daniela.
- Ela não está na sala dela.
- OK.
Eu pegava meu paletó com raiva e seguia até o depósito, que se encontrava completamente vazio. Adentrava-me naquele local imundo a procura de uma viva alma. Até que ouvia vozes vindo lá do fundo. Avistava mercadorias largadas no chão como se algo tivesse interrompido o trabalho daquela gente. Frente a uma porta, um rapaz enorme vestido num macacão azul permanecia feito um cão de guarda.
- O que está fazendo aí plantado?
Eu nem me intimidava com aquela cara feia.
- E quem você pensa que é para vir desse jeito?
- O cara que calcula seus benefícios no fim do mês. O que está escondendo atrás dessa porta.
Ao citar minha função eu notava um certo receio por parte do gigante.
- Vai abrir essa porta ou não?
- É uma reunião.
- Com quem?
- Com a Dra. Daniela. Ela está em reunião com os funcionários daqui do depósito. Ela pediu que não deixasse ninguém entrar.
- Mas a mim você vai deixar.
Acertava-lhe um soco certeiro no nariz. Ele caía aos prantos. Abria a porta e me deparava com a cena mais decepcionante de minha vida. Daniela cercada por cerca de quinze homens despidos. Aquilo não era sexo, não era tesão. Aquilo só podia se tratar de um distúrbio. Eu perdia a fala. Batia a porta e seguia direto para minha sala. Pelos gemidos que eu continuava ouvindo ao caminhar, Daniela não tinha se importado muito com o flagrante.

Sentado frente ao PC, eu refletia. Eu acabava de me passar um atestado de idiota completo. Imbecil, canalha e burro. Achar que Daniela substituiria o sentimento que sentia por Renata. Eu passava do ponto com Renata ao telefone e nem parava para pensar que seu pedido de perdão era realmente verdadeiro, já que o mesmo veio ainda antes da oportunidade que Daniela me cedia. Tudo indicava que eu poderia continuar me aproveitando do sexo bom de Daniela, aquela maníaca, mas não era isso que eu queria com ela.

O sentimento de ter cometido os piores dos erros me fez abandonar a empresa. Eu não conseguiria mais olhar no rosto de Daniela e muito menos aturar as piadas que todos, sem exceção, contavam sobre seu estranho comportamento. Eu tinha princípios. O duro era perceber que em apenas dois dias, eu me deixava levar por um passado lindo, mudava meu presente de forma tola e por isso chorava por um futuro de horizonte vazio. Era chegada então a minha vez de esperar.

***
Arte usada na capa: "Loira" de Rono Figueiredo.

3 comentários:

Fabiana disse...

Leandro: me ferrei no dominó.









rs.

Anônimo disse...

caraaaaaaaaca!
que contooo!
que imaginação hein...
PARABÉNS mais uma vez..
odeia a daniela e a renata tb!

Nathalia- UCAM

aninha disse...

por um lado fico com pena do Leandro mas por outro bem que ele mereceu, fez td mundo esperar, agora é a vez dele.

ótimo conto!
beijos, lu ;)