quinta-feira, 25 de junho de 2009

1983 pt. final: Mês Doze

O meu namoro com Viviane corria às mil maravilhas. Já estávamos em dezembro e as aulas já haviam terminado. Encontrávamos-nos quase que todos os dias – era sinal de que o Sr. Daniel estava “entrando na minha”.

Certo dia, na praia com Viviane e a minha turma de sempre, sentado sob um guarda-sol, fiquei observando as ondas daquele imenso mar à minha frente. Comecei a pensar que, assim como elas, aqueles bons momentos de 1983 vinham, mas teriam o seu momento de ir. É como se eu tivesse a certeza de que as alegrias daquele ano não me acompanhariam em 84. Fiquei ali observando por horas.

- Bruno! – chamava-me Viviane.
- O que houve? Está tão compenetrado!
- É bom de vez em quando, não?
- Sim, mas você olha para o mar como se estivesse hipnotizado.
- E estava.
- Bobo.
- Viviane, você acredita nisso tudo?
- Nisso tudo o quê?
- Que a gente está vivendo. Você está feliz?
- Mais do que um dia imaginei estar, Bruno. E você?
- Também estou! Muito! Mas você acredita que não terá fim?
- Tudo tem um fim, Bruno, mas não precisamos pensar nele, não é?
- Você tem razão.
- Por que está se preocupando com isso, amor?
- Porque é forte, é gostoso, é bom demais ter você comigo. Não quero que acabe!
- Não pense nisso, Bruno. Vivamos o que temos em mãos! Apenas vivamos!
- Tem razão!

Eu beijava-a sempre como se fosse o nosso último beijo. As outras meninas chegavam a comentar que nossos beijos as causavam certa inveja. Os lábios molhados de Viviane por diversas vezes corria o meu pescoço. Eu não aguentava. Aquilo fazia de mim um ser fraco diante de meus desejos. A imagem do Sr. Daniel me ameaçando me vinha à mente sempre que Viviane me beijava daquela forma.

- Eu não sei se vou me controlar mais, Viviane – eu brincava.
- Como assim?
- Quando me beija o pescoço tenho vontade de...
- De?
- Esquece!
- Eu já sei o que ia dizer.
- Sabe nada!
- Sei! Fala de sexo! Não é?
- Não!
- Pode me falar, Bruno!
- Está bem! É isso! Sinto enorme tesão!
- Eu também sinto! – dizia-me sorrindo.

Essa frase, assim como seu semblante, nunca me saiu da cabeça. Acho que me lembro mais dessa frase que de meu primeiro beijo – que não foi com ela. Quando disse “eu também sinto”, ela brincava com uma mecha de seus longos cabelos. Sua boca, naquele momento, correu levemente para o lado, dando àquela fala todo o charme que ela precisava para quase me tirar o controle.

- Também sente? Eu devo estar sonhando!

Eu caía sorrindo de costas na areia.

- Gostou de saber, não é? – dizia-me Viviane também caindo ao meu lado.

Virei o rosto para o lado dela e notei que a parte superior de seu biquíni me prendia o olhar. Embora Viviane ainda não estivesse no auge de seu desenvolvimento corporal, aquele seu desenho me fascinava.

- Está olhando o quê, Bruno?
- Você!
- Mas o quê?
- Quer mesmo que eu diga?
- Se pergunto, sim! Diga!
- Seus olhos!
- Mentiroso! – Viviane sorria.
- É sério!

Naquele dia, nossa intimidade deu os seus primeiros passos.

* * *
No ônibus, voltando para nossas casas, Viviane e eu não entendíamos nada do que o restante da turma dizia. Soava tudo como uma conversa sem pé nem cabeça; uma bagunça. Não entendíamos porque estávamos ocupadíssimos em mais um de nossos beijos demorados. Viviane vinha no assento da janela e eu no do corredor. Àquela altura, eu a imprensava contra o vidro e, sem que percebêssemos, estávamos entrelaçados um no outro. Por diversas vezes minhas mãos tentaram correr por Viviane cintura acima, mas era reprimido por sua mão e um sorriso – que ela dava sem descolar sua boca da minha.

Em meio àquela situação efervescente, ouvi um barulho que rasgou o clima em pedaços. Era uma freada brusca de um automóvel. É tudo o que me lembro.

Quando acordei:

- Meu filho! Graças a Deus! Você acordou! – dizia minha mãe.
- O que foi que houve?
- Você estava em coma, meu filho! Mas já está tudo bem! Ô meu Deus!
- Mãe! Eu...
- Você sofreu um acidente, Bruno. Nem queira se lembrar, por favor!

Na mesma hora eu lembrava, estranhamente, não do rosto de Viviane, mas da boca.

- E Viviane?
- Ô meu filho...
- E Viviane, mãe? Responda!
- Depois, Bruno...
- Depois não! Agora!
- Acalme-se! Escute! Nem ela nem seus amigos sobreviveram, meu filho. Foi horrível...
- Mas...

Um caminhão enorme atingira nosso ônibus. Daquela tragédia somente eu saí vivo.

Eu começava a chorar.

- Onde está meu pai?
- Seu pai, Bruno, não aguentou o seu estado de coma e...
- Não!
- Ele sofria do coração, você sabe... – com água nos olhos – Ele faleceu um dia depois do acidente. Pensei que perderia vocês dois, meu filho...

Duas notícias ruins de uma só vez. Mas ainda havia uma terceira:

- Que dia é hoje, mãe?
- Hoje são sete de janeiro.
- 1984, então.
- Sim, meu filho.

Aquele ano de 1983 acabara-se sem que ao menos eu me despedisse Uma tragédia levara-me os meus melhores momentos. E pior: levara também os responsáveis por todas aquelas minhas alegrias. Foi como se aquele ano não quisesse mesmo que tudo aquilo pertencesse ao próximo que viria; tratou de encerrar tudo em meados de seu décimo segundo mês. Lembrei daquelas ondas do mar.

Papai, Viviane, Diogo, Vagner, Hélio, Guto, Gabriela, Daniel, Júlia, Ana Lúcia e Duda. Todos mortos e, já diante de minha ciência dos fatos, enterrados. O ano de 1983 não me dera nem a tristeza de ver o estado deplorável em que ficaram os corpos de meus amigos. Deixou a parte pior para 84, que foi saber disso tudo. Por isso, repito: 1983 fora, ainda assim, o melhor ano de minha vida. Nele eu percorri os extremos. Conheci o amor, a vida e a morte.

De lá para cá, vivo. Sem esperar pelo fim, sem me prender aos momentos. Como Viviane um dia me recomendou, apenas vivo.

[Fim]

* * *
Nota do Autor: A composição deste último capítulo se mostrou, além de inédita, muito esquisita. É que, esta noite, eu sonhei – bem, eu acho que foi um sonho – com a personagem Viviane tal como a descrevi. Ela sentou-se à beira de minha cama e me contou, com riqueza de detalhes, todo esse último capítulo.

Vale aqui ressaltar a certeza quase mórbida de alguns leitores ao comentar “ela morre”, na parte 2 desse conto. Notei que alguns esperavam alguma tragédia... Por mais previsível que possa ter parecido o fato de Viviane morrer ao final deste conto, espero que entendam que diante de um “sonho” dessa espécie...

Espero eu não ter escrito, mesmo que sem querer, uma história real.

Acho que preciso de férias...

10 comentários:

Fabiana disse...

nossa!

Ingrid Normando disse...

Luciano, eu já havia comentado que achava que a Viviane morria, mas não precisava ser tão rapido!
Adoro todos os seus texto, mas acho que antes desta final poderia ter mais uma ou duas partes! ahhh de certa forma fiquei triste, não por ela ter morrido, mas pq foi muito rapido!
Até o proximo!! (já estou esperando)
=D

Mike disse...

Vou pagar de insensível aqui Freitas, mas tenho q dizer isso:

O Bruno deu muito mole.. 12 meses e NADA????!! Em 83 as coisas não eram mais assim não... :P

Sucesso, sempre.

PS: Esse ônibus podia ser um 393. Humpf.

Livia Queiroz disse...

Pow cara, não sei pq qndo k]li seu conto imaginei q algo iria acontecer.
Ainda brinquei contigo quando falei: POR FAVOR NÃO MATE NINGUÉM rsrs
Lembra?

Pow...
Mesmo assim adorei e confesso que li c um aperto no peito.
Mas escrever é isso: despertar sensações...


Bjoks

Clube da Luluzinha com post novo:
http://liu-loren008.blogspot.com/

Nathalia disse...

AI, arrepiei!
caramba, que...estranho, não?

precisa de ferias nada, pode parando!rs

beijos e parabéns

Dayanna Louback; disse...

ja estava assustada com o final da historia, mas juro que fiquei mais assustada ainda com a "nota do autor"
na moraal.. BIZARRO!
nem sei o que falar,


;*

Rafael Garça disse...

Confesso que preferia um finalzinho água com açucar, com todos felizes e sem tragédias. Mas não seria completo se não fosse dessa maneira.

Abcs!

jαnα ¦D disse...

Eu esperava uma tragédia, confesso. Mas, mesmo assim, esses finais sempre me espantam :o
Adoreei o/
Acho que sou uma pessoa um tanto mórbida 'aoisoa

Abraços
='-'=

Aninha disse...

cara, esse conto foi incrível!
foi uma linda história, e que final.
realmente muito triste, e bizarro também.
Parabéns!

Vanessa Sagossi disse...

Que triste!