segunda-feira, 1 de junho de 2009

MÓVEL pt.3

André acordava pela manhã e logo tomava um susto. Estranhava a presença daquelas duas estátuas em sua cama. Beatriz, com quem ele transara durante a madrugada, em posição de sentada, estava de lado. A outra mulher, a qual ele se quer tocara, também em posição de sentada, permanecia ao chão – caíra durante as ações covardes de André madrugada adentro.

André se vestia enquanto questionava-se quanto ao cheiro de fumaça que lhe tomava as narinas.

- Lembrei. Merda de incêndio!

Foi então até o lado de fora a fim de situar-se em meio àquela loucura que já atravessava o dia. Constatou que a casa que pegava fogo na noite anterior encontrava-se agora completamente destruída. Mais à frente, outra casa vizinha ainda estava em chamas.

Entrou novamente e, por hábito, ligou a TV. A âncora do telejornal permanecia na mesma posição de quando tudo aquilo começou. Trocou os canais e chegou a dar uma risada ao concluir que todas as emissoras paralisaram. Algumas delas, como a do telejornal, exibiam cena monótona de seus âncoras ou repórteres. Porém, outras conseguiam ser mais “cômicas” para André, como a que transmitia, no momento, um chefe de cozinha a preparar uma receita. No instante em que a câmera focalizava-o abrindo o forno – a fim de verificar o prato – a paralisação os atingia. André ria do rosto do chefe que, diante do calor do forno aberto por muito tempo, assara.

Depois de correr pelos canais televisivos e soltar algumas mórbidas gargalhadas, André resolvia ir até o Centro da cidade. Mais precisamente à loja onde trabalhava. Seguia a pé, já que de automóvel seria praticamente impossível.

Pelo caminho, avistou operários que pintavam a fachada de um enorme edifício. Eles – ou o que restou deles – estavam agora sobre a rua, calçada e alguns carros. Era carne para todos os lados. Paralisados, provavelmente perderam o equilíbrio. Um hidrante, que fora atingido por um ônibus, jorrava água para o alto. A ideia de uma chuva artificial fez com que André se molhasse por alguns instantes. Enquanto as gotas tocavam seu rosto, dizia:

- Liberdade! Liberdade! Eu posso tudo! Eu posso ter e fazer tudo o que quiser!

A partir daquele instante, André dava início a uma sucessão de ações que há muito lhe tomavam o peito.

Primeiramente, dirigiu-se até a prefeitura de sua cidade. Subiu as escadas até o último andar – o gabinete do prefeito. Por sorte, o encontrou por lá. Sentado em sua mesa, recebia sorridente um café de sua secretária.

- Você está aí, não é? – dizia André à “estátua” do prefeito.

André chegou até a secretária e:

- Até que você é bonitinha! Deixe-me ver uma coisa.

André sobe-lhe a saia, mas não gosta do que vê.

- Quanta celulite! Só o prefeito mesmo!

Empurrava então a secretária, que caía ao chão abrindo um rasgo em sua testa por conta da bandeja do café.

- Saia daqui, sua vagabunda. O papo aqui é entre eu e o prefeito!

O sangue da secretária tomava lentamente o carpete do gabinete.

- Querido prefeito, eu queria lhe dizer umas coisinhas! – André acertava um soco no queixo do prefeito, que sangrava na hora – Você tem noção que como anda a nossa cidade? Não! Claro que não! Está aí feito uma estátua sorridente a olhar para essa bunda horrorosa que a sua secretária tem, não é mesmo? Pois bem, sei que não é o único culpado por eu ter que trabalhar durante dez horas diárias e ganhar o correspondente à minha fome! Fome de comida, sim, mas fome de prazeres! Eu não tenho prazer algum, prefeito! O prazer inocente que eu tinha de ver feliz a cara dos que, por mim, tinham seus móveis montados se foi faz tempo! Eu odeio esta merda de vida a qual sou condicionado a viver! Acho que me enganei, prefeito! Eu disse vida? Não! Eu não tenho vida! Olha para isso aqui, prefeito! – André ia até o armário do gabinete, onde se encontravam diversas garrafas de whisky e vinho – Com o dinheiro de quem, hein? Diga! Diga! Você é a minha vergonha, prefeito! Você, sua secretária e todos que aqui trabalham! Deus me deu esse dia, prefeito! Eu já entendi tudo! Esse dia é meu! É o dia que tenho para fazer tudo o que eu queria fazer! Sem todas essas merdas de olhares tortos que, por conta de meu macacão, insistem em me mirar! Agora eu vou indo! Preciso achar o outro culpado!

André descia as escadas da prefeitura e ia direto ao seu destino anteriormente pensado: as Casas Bahia.

Chegando lá, primeiramente foi até o depósito, onde seus amigos ainda se encontravam na mesma posição do almoço. A diferença era que a comida em suas mãos agora exalava um terrível odor de azedo.

André seguia então até a sala do gerente geral da loja. Precisou arrombar a porta. Encontrava-o com o telefone ao ouvido, porém, ao invés de um semblante preocupado de um gerente atarefado, uma cara de gozo profundo. Com o pênis à mão, aquele profissional exemplar – tantas vezes citado como molde das Casas Bahia – masturbava-se como um tarado ao som da voz de alguém.

- Eu não posso acreditar! Mas que tremendo filho da puta! Enquanto nós montamos móveis como escravos, ele fica se... Que deprimente!

André alcançou um enorme grampeador, que estava numa das estantes da sala, e dirigiu-se até o órgão sexual daquele gerente.

- Vai ficar preso a ele, gerente! Você não gosta tanto?

André grampeava-lhe a pele da mão à do pênis. Um sangue começou a escorrer sobre as calças. André ria.

[Continua]

* * *
Foto da Capa: Renato Tavares.

6 comentários:

Ruy Machado disse...

Depois de ler as 3 partes, posso verificar um grau elevado do individualismo onde o homem está mergulhado. Nós não procuramos soluções para resolver as situações que estão a nossa volta, e sim, situações que resolvam nosso problema.

Fabiana disse...

não gostei do andré não...

Nathalia disse...

perturbado ele, não?

bjs

Alex Viana (OFF por um tempo) disse...

Luciano, os seus contos estão surpreendentes a cada dia, muito bom! Essa foi(está sendo) para mim, sem dúvida, a melhor história.
Parabéns!

jαnα ¦D disse...

Nossa...esse André é muito perturbado. Mas, ao mesmo tempo em que ele fica deixando claro que sua sanidade é seriamente prejudicada, ele também mostra alguns podres das pessoas ao seu redor. Esse conto é brilhante :D

Abraços
='-'=

Vanessa Sagossi disse...

Que isso! Que desumano!
Ele ainda acha que tem o direito de reclamar do prefeito depois de tudo que fez e anda fazendo?