segunda-feira, 8 de junho de 2009

MÓVEL pt.final

André passou então a perambular pela cidade à procura de alimentos ou soluções para seus desejos agora já tão fora de controle. Temeroso de encontrar pessoas móveis como ele, seus olhos mexiam rapidamente e sem parar.

Por várias vezes, André subia ao topo do prédio mais alto daquela cidade. Lá, passava horas a olhar aquele misto de paralisação e mobilidade mórbida em que se encontrava o Centro. Muitos incêndios e uma desordem que transformava tudo aquilo num grande mosaico de destruição.

Os dias foram passando e André notava que os corpos paralisados passavam agora a cheirar mal.

- Mortos... – disse André a si mesmo.

E acertou! Os órgãos daquelas pessoas também haviam paralisado, por que não?

- Eu transei com gente morta! Merda!

André corria pela rua e gritava como se todos pudessem ouvi-lo.

- MORTOS! MORTOS!

Numa dessas corridas, André reencontra Yolanda, já desfigurada de tanto perambular atrás de soluções, porém com um semblante menos preocupado.

- Mas você? De novo? – perguntava André!
- Seu louco! Acha que não escuto seus berros por aí?
- Não sou louco!
- Ah, não? Olhe para você, André! Não sabe mais o que fazer! Somente agora sua mente egoísta pode notar que todos estão mortos!
- Não me faça lembrar disso, sua velha! Acha que é fácil saber que transei com gente morta?
- Para gente como você, André? Isso deve ser apenas um detalhe. Mas...
- Ora, sua...

André avançava em Yolanda como um animal feroz. Agarrado no pescoço da senhora, ele tentava estrangula-la.

- MORRA! MORRA! – gritava ele.
- Seu.... Seu.... Animal!

Com muita dificuldade, Yolanda acerta uma joelhada entre as pernas de André. Na mesma hora, ela pega um caco de vidro do chão e ataca o rapaz!

- MORRA VOCÊ, SEU LOUCO!

Yolanda tenta cravar o cortante na garganta de André, mas é acertada por um chute na altura dos seios, que a faz gritar e chorar de forma terrível.

- AAAAAAI, SEU MISERÁVEL!

André se levanta e, já sem controle de si, decide:

- EU VOU TE MATAR, SUA VELHA DESGRAÇADA!

Quando André levantava sua perna direita a fim de pisar de forma violenta sobre a cabeça de Yolanda, ele ouve uma voz:

- PARE!
- Ah? – assusta-se André.
- Aqui!
- Onde?

Eis que surge do alto de um ônibus um homem. Ele era alto, usava uma jaqueta de couro, uma calça jeans e sandálias.

- Quem é você? – pergunta André.
- Alguém como você! Móvel! Temos muito trabalho pela frente, rapaz. Não gaste suas forças matando essa mulher.
- Do que você está falando?
- Estou falando da vida!

O homem chegava mais próximo de André.

- Seu nome é André.
- Como sabe?
- Não quer saber o meu nome?
- Qual é?
- Jesus!
- O quê? Jesus? Jesus Cristo?
- Está assustado, André?
- Não me venha com essa!
- Ora, não vê? Tudo isso que está acontecendo! Acha ser obra de quem? Foi meu Pai quem ordenou tudo isso!
- Era só o que me faltava. Um homem se passando pelo Salvador! Onde está a barba? E aquelas roupas que deveria usar?
- Não seja ingênuo, André! Estamos no século XXI, não?

Outras seis pessoas apareciam por trás do mesmo ônibus de onde saiu aquele homem. Duas mulheres, uma menina de apenas três anos, e três homens.

- Não pode estar falando sério – dizia André – Meu Deus, o que está acontecendo? – perguntava-se.
- Siga-me e saberá. Peçam desculpas um ao outro e venham os dois.
- Sim, Senhor! – dizia Yolanda.
- Se é realmente Jesus Cristo, o Salvador, acredito que este seja o fim do mundo e nós, os móveis, os salvos, não é? – perguntava André.
- Sim. Exatamente – respondia Jesus.
- E por que eu fui salvo, se nem à igreja eu ia?
- Não precisa me dizer sobre seus atos, André. Meu Pai sabe de tudo, inclusive das besteiras que você andou fazendo nos últimos dias.
- Então? E mesmo assim sou um dos salvos?
- Acreditas que podes ser um deles?
- Eu...
- Acreditas?
- Sim.
- Já é um bom começo. Siga-me e entenderá que durante anos e anos interpretaram muito erroneamente as palavras de meu Pai. Inclusive sobre o próprio fim e a minha vinda.
- E quantos mais estão salvos, Jesus?
- Não faço ideia. Mas eles nos encontrarão. Agora, livres de tudo o que vocês mesmos criaram, poderemos começar de novo. E da maneira certa dessa vez.

André ajudava a levantar Yolanda. Todos de pé, seguiam, Jesus à frente e o restante atrás.

[Fim]

* * *
Foto da Capa:
Renato Tavares.

6 comentários:

Alex Viana (OFF por um tempo) disse...

haushaushaushuahs e quem aparece no final?? Quem? Quem? JESUS!! O final mais diferente, em se tratando dos contos do Luciano. rsrsrs!

Fabiana disse...

o.O
realmente... eu imaginei qualquer final... menos o que eu acabei de ler!

o mais diferente de todos! haha

Ruy disse...

Acho que para o André ter sido salvo, só faltou o pedido de perdão ao Senhor Jesus! Mas foi um belo final, mostrando que não importa o que fazemos estaremos sempre ao alcance dos olhos do Pai. Devemos repensar em atitudes que tomamos, mesmo que para nós sejam bobas. Um simples bom dia, simples mesmo, tem poder, um poder de alegrar uma pessoa com dificuldade e necessitando de carinho.

Nathalia disse...

nossa!
não esperava!
o porquê da escolha feita por Jesus em relação a essas pessoas é omaisnovo mistreio... hehe

parabens!!!!

e eu crente e era um sonho...rsrs

jαnα ¦D disse...

Tô boquiaberta até agora. Como disse o pessoal ai em cima: eu imaginava diversos finais, mas nada nem perto disso! Olha...simplesmente adorei esse conto. Dava para fazer um filme ** Muito bom mesmo...e esse final...quando ele disse " Jesus!" meu queixo só faltou abrir um buraco no teclado do computador :D

Abraços;
='-'=

Vanessa Sagossi disse...

Esperava tudo, menos isso!