quinta-feira, 4 de junho de 2009

MÓVEL pt.4

André saía das Casas Bahia com fome. As lanchonetes seriam uma boa opção para o rapaz, se quase tudo que estivesse sob aqueles balcões não estivesse estragado ou “borrachudo”. Avistou uma mulher paralisada a mexer em sua carteira. A mulher pegava em notas de cem e de cinquenta reais. A princípio, André pensou em se apossar de tal quantia, porém, lembrou-se que diante daquela situação, aquilo não passava de um monte de papel.

Foi quando André escutou, vinda do meio da rua principal, uma voz que o chamava:

- Senhor! Ei, você!

Depois de muitas horas sem ouvir som de um ser semelhante a ti, André estranha.

- Eu ouvi alguém me chamar? – perguntava-se André.

Em meio a tantas “estátuas”, André não teve muita dificuldade em avistar aquele corpo móvel a atravessar a rua.

- Aqui! Sou eu!

Era uma senhora, aparentando seus cinquenta e poucos anos. Ela corria na direção de André.

- Nossa! Ela também se move!

Chegando bem perto dele:

- O que está acontecendo? – perguntava aquela senhora.
- Eu não sei, senhora! Desde o meio-dia de ontem, se não me engano, que tudo parou. Ou melhor: nem tudo. Achei que somente eu estivesse móvel, mas vejo que você também teve sorte.
- Sorte? Você chama isso de sorte? Não temos transporte, prédios estão pegando fogo, as ruas estão cheias de carros batidos e de pessoas atropeladas! Presenciar isso tudo é sorte para você?
- Bem, eu...
- O que você fez de ontem para hoje?
- Bem, eu...
- Eu não consegui sair do Centro, senhor. Estou a quase vinte e quatro horas andando sem parar à procura de alguém móvel!
- Acalme-se, senhora! Deve haver mais pessoas móveis por aqui.
- Mas o que isso adiantaria, meu Deus?
- Então por que procurava?
- Pensei que pudesse me explicar o porquê disso tudo!
- Eu? Ora, eu sou apenas um montador de móveis das Casas Bahia. Como saberia explicar essa loucura?
- Não sei...
- Espere, senhora. Você pode me dizer se, antes da paralisação ocorrer, você sentiu algo estranho.
- Lembro de uma tonteira, apenas. Por quê?
- Foi o mesmo que eu senti.
- Estranho.

André a tratou bem, mas, por dentro, lamentava-se profundamente ao saber que não estava completamente sozinho por ali. Já pensava em abrir uma daquelas geladeiras horizontais do bar do Dedo Torto e beber todas as cervejas ali estocadas. Mas aquela senhora parecia muito mais preocupada com aquela situação, o que o deixava sem graça de tomar tal atitude tão supérflua.

- Qual o seu nome, senhor?
- André. E o da senhora?
- Yolanda.
- OK. E então? O que você vai fazer?
- Juntar-me a ti, ora? Podemos nos virar melhor estando juntos.
- Eu não acho, D. Yolanda.
- Por que não?
- Preciso fazer umas coisas, sabe? Por exemplo, eu já fui à prefeitura e dei um soco na cara do prefeito.
- Ah?!
- Sim! E outra: grampeei a mão de meu chefe, ou melhor: ex-chefe, no seu próprio pênis.
- Cristo!
- Não é o máximo? É a hora de nos vingarmos de todos esses canalhas...
- Mas você não tinha coisa mais interessante para fazer, seu louco?
- Ter eu tinha, mas eu já havia feito pela madrugada! Levei duas mulheres para casa e...
- Chega! Você é um maluco, rapaz! Acho que não é mesmo uma boa ideia ficar próximo a você, sabe?
- Eu também acho! Eu preciso confessar que as móveis ainda são mais divertidas, se é que você me entende!
- Louco!

A senhora ia embora, sem rumo.

- Consegui! – dizia André a si mesmo.

A ideia de estar solitário num lugar onde tudo era “permitido” tomara a cabeça de André. Onde, naquela situação já tão assustadora, André sentiria falta de uma pessoa móvel como ele?

Um medo se instalara em André: se D. Yolanda estava móvel, mais pessoas deveriam estar também. Não sabia o porquê, mas a frase “dominar o mundo” não saía de sua mente desde a noite anterior. Mas naquele momento, diante da constatação da mobilidade de D. Yolanda, a frase parecia ter mais sentido. Ou melhor: menos.

Com sua imagem refletida na vitrine das Casas Bahia, André pôde notar uma cor diferente em seu olhar. Embora André ainda não percebesse por completo, ele não era mais o mesmo. Desprendia-se do pouco de sua educação, ética e moral. Era um animal à procura de presas. Usaria o pouco que lhe restara de sua racionalidade apenas para decidir onde seria, no meio daquele caos, os locais exatos para saciar suas necessidades. O mundo dava, de maneira esquisita, uma pausa na produção de soluções. Agora, muito contrário a antes, sua mobilidade é o seu principal problema.

[Continua]

* * *
Foto da Capa: Fabiana Romeo.

5 comentários:

Alex Viana (OFF por um tempo) disse...

Boa, Luciano. Agora o André começa uma luta consigo mesmo. A liberdade ilimitada (a redundância foi proposital) já não é mais tão vasta assim. O ser humano tem essa tendência de se limitar quando está rodeado de semelhantes. Mas na primeira oportunidade de expurgar todos os seu desejos, ele não pensa duas vezes, ultrapassa todos os parâmetros psico-sociais... é mto interessante observar o constrangimento do André ao encontrar a senhora móvel, fez as lembranças das coisas banais que ele havia feito até aquele momento conflitarem com a moral...vamos ver como vai terminar esse conto que tá bombando! Abraços, Lu!!

Ruy disse...

Belo comentário do Alex. O conflito da moral com o seu individualismo. Isso me faz refletir sobre as pessoas que tudo compram com dinheiro, onde se o seu negócio não é o melhor,fazem questão de comprar aquilo que prospera para não dar chance de cairem do lugar mais alto e perderem seu status.

Fabiana disse...

ihhh

Nathalia disse...

eu ia matar jian por terfalado da velhina, mas o conto surpreendeu, então, acho que um soco bem dado basta, né? rsrs

adorei!

Vanessa Sagossi disse...

Pensandoo...