segunda-feira, 29 de junho de 2009

O SOL DE ABAJUR III - Os Olhos de Bianca


Certo dia, eu estava assistindo TV com a minha mais nova companheira: a cadeira de rodas. Exatamente como naqueles últimos meses depois que saí do hospital, eu passava de canal em canal à procura de algo que me fizesse esquecer daquelas rodas; esquecer a ideia de que era agora metade homem metade rodas.

Cada ida ao banheiro ou à cozinha era um longo e dolorido trajeto – apesar dos meses, eu não conseguia me adaptar àquele novo jeito de me locomover –, porém, pelo caminho, eu tinha a oportunidade de passar o olho sobre o livro de minha amiga escritora, a Bianca Tavares, que ficava sobre a mesa da sala, abaixo do abajur. O simples ato de ler o nome daquela mulher me fazia sentir nos braços uma força enorme de continuar a luta; de continuar vivendo.

Bianca Tavares. Bianca. Esteve ao meu lado naquele momento difícil que foi saber de minha paralisia e, pelo menos uma vez por semana, visitava-me a fim de me animar.

A empresa de softwares na qual eu trabalhava me deu todo o apoio que precisei. Lógico que não mais pude cobrir a parte de vendas; fiquei apenas com a parte de criação – que eu passei a executar boa parte em casa mesmo.

Numa das visitas de Bianca, eu estava até bem atarefado.

- Estou atrapalhando? – perguntava-me Bianca à porta.
- Você nunca me atrapalha, Bianca! Entre, por favor!
- Como está, David?
- Indo...
- Indo não! Você está bem, David! É isso o que quero ouvir de você!
- Está bem... “Estou bem”, Bianca! Mas porque você está aqui!
- Bobo...
- É sério!
- Bem, estou aqui para lhe contar uma coisa!
- O quê?
- Meus livros serão traduzidos para alguns países! Não é o máximo?
- Que notícia maravilhosa, Bianca!
- Estou no céu, David – dizia-me Bianca com os braços abertos.

Bianca... é difícil descrever o que sentia na presença daquela mulher. Seus óculos de sol, sempre ao rosto, podiam esconder o olhar, mas todo o restante de sua figura fazia-a tão especial que por diversas vezes me esqueci dos olhos. Mas não nesse dia.

- Bianca! – eu interrompia aquele momento de felicidade púrpura.
- Diga!
- Tire os óculos, por favor!
- Por quê?
- Nunca vi seus olhos, menina! Nunca!
- Meus olhos são para que eu possa ver as coisas. Não precisam ver meus olhos.
- Mas por quê?

Senti que minha insistência a deixava um pouco desconfortável. Imaginei alguma cicatriz enorme sobre um dos olhos ou algo parecido.

- David – dizia Bianca a olhar para o chão –, você gosta das coisas que lhe digo?
- Claro! Dão-me forças!
- Gosta das coisas que escrevo?
- São lindas! Todas elas!
- Gosta dos abraços e dos beijos carinhosos que lhe dou?
- Como não? Adoro!
- Então, que diferença faz conhecer ou não os meus olhos?
- Não é essa a questão, Bianca, mas tudo bem... Você não quer mostrar os olhos, não mostre! Continuará tudo bem entre nós. Aliás...

Foi quando Bianca retirou os óculos.

- Deus! – eu dizia abismado.
- Estão aqui os meus olhos! Satisfeito?

O par de olhos mais lindo que já vi em toda minha existência. Eu escreveria aqui por décadas sem parar a fim de explicar tal experiência e, ainda assim, seria falho. Era como se a última peça daquele quebra-cabeça fosse finalmente encaixado. Os olhos!

- Bianca, que olhos são esses, menina?
- Os meus, David. Os meus.
- Sim, mas...
- Mas o quê?

Não lembro o tempo exato, mas fiquei ali por minutos, talvez, a admirar aqueles olhos. Quando:

- Eu vou indo – dizia Bianca com os óculos de volta ao rosto.
- Não!
- Eu preciso ir, David.
- E eu preciso que fique! Por favor!
- Preciso ir...

E foi.

Esperei o tempo dela chegar em casa e:

- Alô!
- Oi.
- Bianca?
- David?
- Sim, sou eu! Tudo bom?
- Sim! E você?
- Também!
- Diga!
- Preciso ver seus olhos novamente!
- Não espere por isso, David. Por favor!
- Mas por que não, Bianca? Eu... Eu estou apaixonado pelos seus olhos! Por você!

Bianca pausava. Pude escutar o pulsar de seu coração. O respirar de suas narinas.

- Eu vou lhe contar uma história, David. Mas prometa acreditar em mim!
- Sim, eu prometo!

Bianca respirava fundo e:

- Eu possuo um problema muito sério nos olhos. Eu não posso expô-los à luz em hipótese alguma. Desde de muito pequena isso me afeta, mas nenhum médico ainda foi capaz de me curar. Sendo assim, preciso usar esses óculos de sol, que, por mais que pareçam, não são normais; possuem lentes especiais etc. As poucas vezes que expus meus olhos às pessoas, a reação que tiveram foi exatamente como a sua: abismaram-se. Não é fácil possuir uma beleza num olhar que precisa ser escondido todo o tempo, entende? Por isso, peço que esqueça o que viu, por favor!

Fiz silêncio.

- Tudo bem?
- Sim. Eu acho que sim...

No dia seguinte, à noite, Bianca aparecia novamente lá em casa.

- Duas vezes na mesma semana! Vou começar a achar que possuo certa importância em sua vida, Bianca!
- E tem, seu bobo! Posso entrar?
- Claro!

Bianca tomou todas as atitudes. Fechou a porta, apagou as luzes, acendeu o abajur da sala e levou seu rosto bem perto do meu.

- É o que estou pensando, Bianca?
- O que você está pensando, David?
- Seus olhos, sua boca...
- Parece que finalmente me entende... Lê meus pensamentos...
- Mereço um beijo por isso, não?
- Sim... Mas antes, deixe-me tirar esses óculos.

Aqueles olhos, a luminosidade do ambiente, o hálito fresco de Bianca já a tomar os meus lábios... Um dos momentos mais felizes de minha vida.

Então, sob o calor de sentimentos mútuos e a luz do nosso sol de abajur, beijamos-nos ardentemente.

* * *
Foto da Capa: Fabiana Romeo.

9 comentários:

Fabiana disse...

por um instante achei que bianca fosse vesga, sei lá...

gostei muito do conto!! parabéns!!

Ingrid Normando disse...

por um dado achei que bianca fosse cega!

Queria saber pq ele esta na cadeira?!

Lucas Moratelli disse...

Que intenso!

Adorei, como sempre não é?

_
Também achei por uns instantes que Bianca tivesse alguma coisa pavorosa nos olhos. Blé.

Abraço grande Luciano.

Livia Queiroz disse...

Eu pensei q ela talvez fosse cega de um olho, sei lá o que...


Mas adorei adorei...

E o David se deu bem hein?
hauhuahuhau


Bjoks

Nathalia disse...

Aaaaai, sempre fofos os contos dessa série! =)

ah, n pensei que fosse cega, mas sei lá... imginei um olho só, ou coisa mais bizarra...rs

beijos

Ingrid Normando disse...

Eu queria muito saber como que ele tinha ido parar na cadeira... dai você me passou os link. Quando abri, optei por não ler. A ignorância é a chave da felicidade, após que eu ia ficar triste depois de saber o motivo! Ache melhor, apenas conhecê-lo como um rapaz em sua cadeira de rodas! Mesmo assim, muito obrigada por me mandar os links, quem sabe um dia eu crio coragem!

Vanessa Sagossi disse...

Ain, que fofo!!
Quero mais!!!
Quel tal o 4?
Ou o natal deles também?
:)

Araujo disse...

No ínicio imaginei que ela fosse super vesga, sei lá, mas AAAAAAAAAAAAAAAAAAI QUE LINDO!
Me apaixonei por esse conto!

Araujo disse...

Apoio a Vanessa...Que tal o 4?