quarta-feira, 5 de março de 2008

DÍVIDA SENTIMENTAL

No mínimo, Nelson tinha a certeza de não ter deixado sequer um rastro de seu ato sujo e cruel. Corria pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro como um pierrô solitário. Uma cena quase que cinematográfica de um carnaval um tanto quanto sangrento. No escuro e sem notar que sua faca o acompanhava aos pingos, pensava finalmente estar livre de uma dívida sentimental de meses atrás. Contrastando com sua máscara de semblante triste, Nelson sorria como um ar de liberdade sarcástica. Sua fantasia lhe faltava os guizos propositalmente para a planejada fuga silenciosa que realizava.

Uns seiscentos metros longe do corpo que deixara caído, por conta de sete facadas no abdômen, Nelson pára e toma fôlego. Cansado e com as pernas doídas, avistou um táxi que parecia que estava ali justamente à sua espera. Tirou a fantasia no breu do Beco da Cancela, entre as Ruas do Rosário e a Buenos Aires, guardou a faca no bolso da bermuda e foi em direção ao veículo. Uma sirene é disparada no meio da festança. Nelson ouve de lá e apressa ainda mais sua atitude.
- Livre?
Pergunta.
- Sim, senhor. Entre. Para onde vamos?
- Me leve onde não haja carnaval!
- (Risos) Você só pode estar brincando. Estamos no Rio de Janeiro, meu amigo.
- Vire-se! Deve haver algum lugar, não? E seja rápido!
- Opa! Você não está fugindo de confusão, não é?
- Não. Só quero sair daqui. Não estou me sentindo bem. Por favor.
- OK. Que tal a sua casa?

Nesse momento, Nelson avista policiais que seguindo as gotas de sangue de sua faca ensopada chegam até o táxi. Assustado, sai do carro e joga a lâmina vermelha e prata para longe. Um dos policiais não pensou duas vezes diante daquele ato de confissão e disparou um tiro certeiro na nuca de Nelson. O taxista, sem ação, fica paralisado em meio à atitude do soldado, mas logo depois é assistido pelo restante da tropa. Terminava ali a louca trajetória de Nelson.

O corpo que Nelson havia deixado na Avenida Rio Branco no meio do tumulto carnavalesco era de sua ex-namorada, Amanda, de 21 anos. O namoro dos dois completava uns quatro ciclos lunares por conta do próprio Nelson, que alegava não ter mais paciência para o jogo duro da pequena. Sua barba já de mechas brancas não o deixava aturar a frase “sexo só depois do casamento” que Amanda fazia questão de frisar durante os encontros de portão.

Terminou o relacionamento, assistiu de longe o sofrimento de Amanda, mas foi também obrigado a assistir o renascimento de sua alma na companhia de um novo namorado, o Carlos, de 25 anos. Teve ainda de ouvir nos bares que a “gracinha da Amanda” já não era mais a “pura do Nelsinho”. É que Carlos conseguira em duas semanas de namoro aquilo que Nelson não fez em dois anos, deflorar aquela morena de olhos verdes que nem mais pensava em se casar! Isso foi demais para um homem de quase quarenta.

Nelson então esperou a terça-feira de carnaval chegar para fazer em cima da alegria de uma cidade inteira a tristeza eterna de todos que a cercavam. Vestido de pierrô e completamente alucinado de lança perfume Rodo, de vergonha e de ódio, aproximou-se de Amanda, que brincava ao som de um animadíssimo naipe, e esfaqueou-a sete vezes.

Os amigos de Nelson associaram na quarta-feira de cinzas o assassinato às frases ditas por ele tantas vezes desde as notícias eróticas de Carlos nos bares do Centro: “Hoje o bar inteiro ri enquanto eu choro. Chegarás um dia em que toda a cidade cessará as gargalhadas para a entrada triunfal de um choro enquanto eu rio”.

5 comentários:

Chris Ferlon disse...

imaginei tudinho... =/

:*

barbara disse...

nossa cada dia q passa eu me orgulho mais desse menino
luu qndo eu crescer qro ser igual a vc,pode?!
uahauahau

já disse q me veio a musica dos los hermanos na cabeça...aii criei trilha sonora e tudoo!
rsrs x)

te adorrooo menino!!
bjos

Aline disse...

"e o pierrô apaixonado chora a morte da amandinhaaa"

nossa, mas que maldade!

Priscila disse...

a cada dia q passa seus contos ficam melhores...vc está de parabens lú!!

bjão

José Osvaldo disse...

Mto bom, dá pra sentir o desespero e a raiva do Nelson...