sexta-feira, 7 de março de 2008

OS SONHOS DE BRENO

Apoiou suas botas sujas de poeira na borda da lixeira da rodoviária de São Paulo a fim de apertar os cadarços já frouxos de tanto andar. Não via a hora de tomar aquele ônibus de volta para sua casa. Seus ombros já possuíam cavidades com as medidas exatas às alças de sua mochila tão pesada. Nela, seus pertences e a um mundo de saudade. Não via a esposa e o filho fazia dois anos, desde que decidira viajar a trabalho, na intenção de melhorar de vida e mais tarde buscar sua família. Breno não sabia mais o que era o abraço familiar. Nem mesmo o avanço nos meios de comunicação fez matar o aperto que sentia ao lembrar de Lívia e Leonardo, seus únicos familiares.

No interior de Minas Gerais, Lívia dava aulas de francês, mas não possuía muitos alunos e com isso sua renda era curta para ela e Leonardo. Breno, sempre muito sonhador, no bom sentido, pois era muito perseverante, vivia dizendo que era em São Paulo que ele mudaria os rumos de sua vida e de sua família. Havia seguido para a metrópole aceitando um convite de um ex-patrão que prometia muitos benefícios. Segundo mesmo, sua construtora havia descoberto a mina de ouro na construção de conjuntos habitacionais na grande cidade.
- Breno, larga essa cidadezinha fedorenta e volte a trabalhar comigo. Você acha que eu saí daí por que? Isso aqui é uma maravilha, num falta serviço por aqui. Você é o melhor engenheiro que já tive, homem.
- Doutor Machado, eu não acredito que o senhor está me chamando de volta. A sua construtora não havia falido?
- Águas passadas, Breno. Eu larguei esse lugar aí e vim para cá faz um ano. Vim morar com meu irmão e montei com ele uma nova empresa. E está “chovendo na minha horta”. Vem para cá?

Breno pensou e conversou com Lívia durante uma semana.
- Lívia, você sabe. Sempre foi meu sonho ir para São Paulo. E agora apareceu a minha chance. Eu vou levar vocês depois, prometo. É lá que as coisas acontecem.
- Espero que esteja fazendo a escolha certa, Breno.
Disse Lívia.
Depois de muito analisar, Breno resolveu e ligou para Machado dizendo - Sim.

No dia seguinte, desembarcara na tão falada São Paulo. Na rodoviária, um carro de cor azul com um enorme adesivo na porta que exibia a logomarca “Irmãos Machado Construtora Ltda.” esperava por Breno, que não acreditava no que vias. Em uma breve conversa com o motorista que o levava até a sede da empresa, concluiu que todo o papo que teve com Machado ao telefone era realmente verdade. A empresa lhe deu moradia e um salário razoável em troca de seus excelentes serviços prestados. Breno é um engenheiro de mão cheia, do tipo que vale a pena contratar.

A intenção de Breno era usar o emprego apenas para se infiltrar em São Paulo. Queria mais. Queria progredir naquela cidade e viver nela junto à sua família. Mas as coisas não foram como ele esperava. Ele não conseguia seguir os rumos que pretendia. Notou que naquela cidade a concorrência era muito maior. Uma verdadeira luta pela sobrevivência. Uma selva. E para piorar, a empresa de Machado estava envolvida num grande esquema de fraudes em licitações públicas. A empresa garantia grandes “boladas” aos responsáveis pelo esquema em troca das obras mais rentáveis daquela cidade. Era muita gente envolvida.

Machado foi morto junto com o irmão a mando de alguns envolvidos no esquema a fim de queima de arquivo. A empresa acabou e seu emprego foi para o espaço. Breno, sem outro emprego em vista, despejado e sem saber quando e nem se receberia suas contas desses dois anos de trabalho, se viu forçado a fazer o trajeto de volta para Minas Gerais.

Agora, se encontra ali, naquela mesma rodoviária na qual desembarcou dois anos antes. Aperta os cadarços com força e mesmo com os sonhos totalmente despedaçados, se ergueu, respirou fundo e veio em mente o sonho que se formou durante aqueles dois anos de distância e desilusões. O de abraçar Lívia e Leonardo.

Conto publicado originalmente em 10 de setembro de 2007 no antigo blog.
*Gráfico da Capa: Casas do Interior - Maria Ávila (MG).

Um bom fim de semana a todos!

Um comentário:

Clarissa Marinho disse...

Esse texto é muito real. Eu adoro quando o começo/meio/fim se trata apenas de uma passagem da história de alguém, se aproxima mais da realidade, do que a gente pode ver ou sentir. Eu já te disse que seus textos estão ficando cada vez melhores, o exercício e leitura tem te feito crescer, parabéns.

Sabes que eu sou tua fã. Beijo