terça-feira, 11 de março de 2008

VOCÊS VIRAM O SEBASTIÃO?

Na fila do banco, que ficava no térreo do prédio onde trabalhava, Adilson pensava em muitas coisas. Pensava primeiro na imensidão de tarefas a desempenhar depois daquele chá de espera, pensava na vida, em planos para melhorá-la e nunca mais ter que encarar uma merda de banco lotado como uma situação rotineira. Ali, Adilson conversava com idosos que puxavam assuntos dos mais tediosos possíveis, ouvia declarações de amor e até desavenças naquela fila, todos os dias.

Órfão de pai e mãe, Adilson morava com a tia, D.Sandra. Com dezenove anos e uma belíssima profissão de “Agente Especial de Serviços Externos do Grupo Fagundes”, vulgo “Office Boy”, Adilson sonhava em ser algo que ele nem sabia o que era. Na verdade Adilson tinha o sonho de conquistar algum cargo maior no Grupo Fagundes, seja ele qual for, desde que usasse terno e passasse todo o expediente sob o ar refrigerado do escritório como o Dr. José Roberto, o Dr. Lauro Pereira ou até mesmo o Dr. Pedro Fagundes, dos quais ele recebia além de ordens, conselhos muito importantes para sua vida, como “troca de time, flamenguista!”.

De todos os que ele conhecia ali na empresa, existia um único sujeito que ele nunca tirava como exemplo, o Sebastião, da limpeza. Adilson só cruzava com ele às oito da manhã, quando chegava e às seis da tarde, quando ia para casa. Era sempre assim:
- Bom dia, Adilson.
- Bom dia, Tião.
- Tenho uma coisa para te contar.
- Todos os dias você tem coisas para me contar, já percebeu?
- Mas é importante.
- Diga, Tião. Devo tomar cuidado com o quê hoje?
- Com nada, Adilson. Queria lhe dizer que se pensas em ser “alguém” aqui dentro, deve voltar a estudar.
- De novo, Tião? Você sempre fala isso e veja só o que você é. Um faxineiro. Acha mesmo que devo seguir os seus conselhos?
- O que acha que o Dr. Fagundes fez durante toda a sua juventude, garoto? Estudou muito para estar ali.
Adilson, embora soubesse que essa era a dura verdade, queria ouvir os mesmos conselhos vindo dos lábios do próprio Dr. Fagundes, aí sim acreditaria.

Sebastião era para Adilson uma figura estranhíssima, pois durante o expediente nunca via o senhor alto que empunhava uma vassoura. Nas festas de confraternização, Sebastião nunca estava presente, porém, Adilson nunca foi capaz de perguntar pelo Tião aos doutores, pois se eles não sentiam a falta do faxineiro por que ele mesmo sentiria? Talvez nem o convidavam.

Aguardando sua vez naquela enorme serpente humana, Adilson avistou um menino correndo dentro do banco. O menino corria de um lado a outro, chorando e chamando pelo pai. Adilson se perguntava por que ninguém ajudava aquele menino. Então soltou para um senhor à sua frente:
- Ninguém vai ajudar esse menino a achar o pai dele?
- Como? Que menino?
- Esse aí chorando.
- Onde?
- Ali, senhor.
- Usou drogas, garoto?
Adilson não acreditou que somente ele estava vendo o menino. Saiu da fila e foi em direção à criança.
- Quer ajuda?
- Quero.
Respondeu o menino chorando.
- Está perdido de seu pai?
- Sim.
- Qual o nome dele?
- Sebastião.
Lembrou-se do faxineiro rapidamente por causa do nome.
- Vou te levar até o gerente.
Pegou na mão do menino.
- Seu Gerente. Esse menino se perdeu do pai.
- Que menino?
- Esse aqui...
Adilson se deu conta de que o menino não estava mais em suas mãos. O gerente do banco fez cara de bravo e saiu.

Chegando ao escritório, mesmo assustado com o que acabara de acontecer, estava decidido a pregar uma peça em Sebastião. Pensava em zombar do faxineiro o chamando de pai desnaturado, pois acabava de encontrar o filho dele perdido no banco.
- Dr. Lauro. Viu o Sebastião por aí?
- Sebastião?
- É. Viu ele?
- Mas que Sebastião?
- O senhor da limpeza, ora.
- Da limpeza só conheço a D.Lúcia, Adilson.
Nunca trabalhou nenhum Sebastião aqui.
- Mas...

Adilson não entendeu nada. Quem era aquele senhor que lhe dava conselhos todos os dias? Perguntou a todos os doutores e outros funcionários por Sebastião, mas ninguém sabia de quem o Adilson estava falando. Chegando à sua mesa, encontrou Sebastião e o menino que ele havia visto no banco sentados em sua cadeira.
- Obrigado Adilson, por encontrar meu filho.
Disse Sebastião antes de sumir junto com o menino bem diante dos olhos de Adilson. Ali, Adilson havia entendido tudo. Sebastião e o menino perdido no banco eram pai e filho. E depois de muito pesquisar, Adilson descobriu que ambos haviam morrido num incêndio nos anos sessenta no mesmo local onde hoje funciona o banco e o Grupo Fagundes.

Ao longo dos anos, Adilson foi percebendo que diversos amigos que ele tinha ali naquele prédio eram vítimas do mesmo incêndio que matou Sebastião e o filho. Largou o emprego, sumiu de casa e não era difícil encontrar Adilson no saguão do prédio falando sozinho aos prantos com seus antigos e novos amigos.

Conto publicado originalmente em 09 de janeiro de 2008 no fotolog.com/lucianofreitas.

Um comentário:

Priscila disse...

nossa q conto hein lú, adorei!
a cada dia q passa vc me suepreende...seus contos estão mt bons!!
vc vai longe rapaz


bjão