quinta-feira, 31 de julho de 2008

A GRANDE CHANCE

As aulas do terceiro ano do ensino médio eram apenas toleradas por Marcela, que já tinha em mente a idéia de uma vida independente dos trocados dados por seu pai semanalmente. O sonho de Marcela ia muito além do que o pouco, porém suado, dinheiro que recebia poderia lhe proporcionar. Seu pai, vendedor de uma grande loja de departamentos, dava o máximo de si para garantir o necessário e até mesmo alguns luxos à Marcela, que por sua vez era muito grata, entretanto, imaginava que merecia muito mais, não de seu pai, mas da vida.

A ambição de Marcela a fazia calcular passos maiores que as quais suas pernas podiam dar. A boa vida e o conforto exibidos por algumas amigas da escola faziam com que a jovem alçasse vôos praticamente impossíveis naquele momento. Prestes a concluir o ensino médio, resolvia que lutaria por um ótimo salário no mercado de trabalho, mas dispensava os estudos para um vestibular.
- Mas Marcela, hoje em dia sem um curso superior? Como irá conseguir esse tipo de remuneração?
Perguntava Isabelle, sua melhor amiga.
- Isa, o que é meu está guardado. Eu não precisarei de mais nenhuma aula de nada para conseguir o que quero.
- Mas o que você quer é dinheiro, luxo, conforto? Nunca lhe disseram que primeiro vem a tempestade e depois a bonança?
- Sim, mas antes de uma tempestade também há uma bonança, ou não? É essa bonança que eu quero.
- Falo sério, Marcela. Você precisa se preparar para o futuro que nos aguarda, que não é tão fácil como você costuma pensar.
- Nunca disse que será fácil, mas que será MEU será!
- Deus te ouça, viu.

Na verdade não eram claros para ninguém quais eram os planos de Marcela para alcançar seu objetivo de vida. Ela tinha a mania de dizer às amigas que no dia em que fosse rica o bastante, empregaria todas elas. Algumas se sentiam mal com as previsões de Marcela?
- Como assim? Está insinuando que seremos suas empregadas? Faça-me o favor, Marcela.
- E por que não? Muitas de vocês serão empregadas de alguém um dia. Seria melhor que fossem minhas, que sou amiga de vocês, não?
Ela ria ao falar enquanto algumas das amigas cochichavam.
- Mas é muito besta. Fala como se fosse algo certo. Como dois e dois são quatro.
- É mesmo. Deixa essa maluca sonhar. Do jeito que leva os estudos, é mais provável que termine como o pai.
- Fato.

Os meses se passaram rápidos naquele ano letivo. De agosto em diante, muitas das meninas já comemoravam suas situações na primeira fase do vestibular para a universidade estadual enquanto de Marcela recebiam um sorriso que parecia congratular de maneira fria e desinteressada.
- Marcela. No fim do ano tem mais quatro vestibulares. Não tentará?
- Não, Isa. Entenda, eu não nasci para estudar, nasci para ser estudada!
- Você parece brincar com seu futuro, amiga.
- Tu és minha amiga?
- Sim, claro, Marcela.
- Então aceite minha decisão. Pode ser?
- Claro. Não está mais aqui quem falou.
- Obrigada.

No final do ano letivo, os sorrisos estampavam os rostos das amigas de Marcela, praticamente aprovadas para uma universidade pública. Marcela não levava muito à sério os estudo, isso era fato, mas a menina era inteligente o bastante para ser aprovada sem prova final ou algo do tipo. A comemoração de Marcela parecia menor do que a de suas amigas. Ela estava livre do ensino médio, mas sem a mínima idéia do que faria no ano que se aproximava.
- Marcela!
- Diga, Isa.
- O ano letivo se findou e no ano que vem, se tudo der certo como vem dado, vou estudar História em uma universidade federal.
- Sim, eu sei.
- Então. Não seremos mais amigas de sala de aula, mas pretendo não perder contato. Eu gosto muito de nossa amizade, Marcela.
- Eu também gosto, Isa. Pode deixar. Não perderemos contato. Prometo. Eu sempre te ligarei.
- Ai Marcela, que bom! Mas...
- Mas o quê?
- Promete que vai fazer um curso, sei lá, que vai estudar, que vai batalhar por um futuro?
- Não prometerei porque não preciso de nada disso, Isa, eu...
- Você o quê? Caia na real Marcela. A não ser que queira entrar para o mundo do crime, ou...
- Ficou maluca, Isa?
- Desculpa, mas é que me preocupo com você, ora.
- Não precisa se preocupar, Isa. Você terá muitas matérias e professores para se preocupar no ano que vem.
- Sua boba.
- Eu me cuido.
- Eu espero mesmo.

Chegando em casa, Luiz Felipe, pai de Marcela faz a pergunta.
- E então filha. Passou de ano?
- Passei, pai.
- Fico feliz por você.
- Obrigada.
- E no ano que vem? O quê pretende fazer?
- Ficar rica.
- Falo sério, filha.
- Eu também falo sério.
- Pretende jogar na loteria até ganhar? É isso? Sem estudo só se fica rico nesse país desse jeito.
- Está falando como minhas amigas, papai.
- Mas elas estão certas. Aposto que passaram para uma faculdade e...
- Chega papai, por favor.
- Está certa. Só não esqueça de seu pai aqui quando ficar rica.
- Fique tranqüilo, papai. Nunca esquecerei de você. Eu te amo.
- Eu também te amo, filha.

Nas vésperas do natal daquele ano, Marcela resolve ir até o shopping para dar uma volta e se encontrar com Isabelle. Conforme havia combinado, esperava a amiga sentada na praça de alimentação. Marcela já exibia uma beleza inconfundível usando o uniforme do colégio onde estudava e mais ainda quando se vestia para seus passeios. O verão escaldante a forçava deixar as costas à mostra, usar um short curto ao mesmo comportado e os cabelos presos numa trança que finalizava no topo a perfeição de seus 18 anos. A pele bronzeada e os acessórios que usava nos pulsos eram um misto de cores tropicais estonteantes. Era a simplicidade de Marcela que fazia tudo ao seu redor se tornar simplório diante de sua presença.

Antes de Isabelle aparecer, chegava à mesa de Marcela uma mulher aparentando, além de uns 50 anos de idade, possuir uma boa situação financeira, por conta de suas jóias roupas e sacolas.
- Boa tarde.
- Boa tarde.
Respondia sorrindo Marcela.
- Posso me sentar aqui?
- Claro.
- Está esperando alguém?
- Sim.
- O namorado, não é?
- Não. Minha amiga.
- Ah sim. Meu Deus, mas que calor, não?
- Sim.
- Vou pedir um suco.
Marcela achava a senhora bem divertida. Era um bom passa-tempo até Isabelle chegar. Enquanto tomava seu suco, a senhora conversava sobre coisas banais com Marcela, que por sua vez apenas sorria.
- Você é muito simpática, menina.
- Obrigada. Você também é.
- Qual sua graça?
- Marcela.
- O meu é Aparecida. Você é muito linda, sabia? Faz lembrar uma falecida neta minha.
- ...
- Bem, eu vou indo. O chato do meu genro deve estar no estacionamento me esperando furioso. Fique com Deus.
- Vai com Deus.

Minutos depois, Marcela avistava a bolsa de Aparecida esquecida sobre a cadeira onde a mesma estava sentada. Levantava rapidamente para ver se ainda achava aquela senhora a fim de entregar-lhe a bolsa. Corria em direção ao estacionamento, mas não mais encontrava a dona daquela bolsa que por si só já valia alguns milhares de reais.

Alguns minutos se passavam e então Marcela decidia vasculhar a bolsa à procura de algo que pudesse ajudar na localização de Aparecida. Ao abrir a bolsa, logo levava um susto. Bolos e bolos de notas de cem se apresentavam de maneira inédita aos olhos de Marcela. Bolos incalculáveis à primeira vista. Devia ter milhares de reais nas mãos da jovem. O quê aquela mulher fazia com todo aquele dinheiro era o que Marcela se perguntava todo momento. Tomava um táxi em poder da bolada e no caminho ligava para Isabelle para desmarcar o encontro.
- Eu te explico depois, Isa.
- Tudo bem, mas...
- Beijos.

Chegando em casa, Marcela se via trêmula por conta da situação. No compartimento externo da bolsa de Aparecida, um celular não parava de tocar. Marcela ainda não sabia se atenderia. Estava confusa entre a honestidade e a necessidade. À noite, Marcela resolvia atender.
- Alô.
Atendia Marcela.
- Quem está falando?
Era a voz de Aparecida.
- Isabelle.
Mentia.
- Isabelle? Meu Deus. Por acaso a minha bolsa está com você?
- Bolsa?
Marcela queria ganhar tempo.
- Sim. Este celular estava na bolsa que eu perdi hoje cedo.
- Sim. Sua bolsa está comigo.
Marcela escolhia a honestidade.
- Graças a Deus. Como faço para pegá-la contigo?
- Não sei. Tem muito dinheiro nela. É perigoso. Por que anda com tanto dinheiro assim, senhora? Não tem medo?
- É uma longa história, minha filha.
- Bem, vou lhe passar meu endereço e você vem aqui buscar a bolsa. Pode ser?
- Sim claro.
Marcela passava então o endereço de Isabelle.

Marcela imediatamente ligava para Isabelle e contava toda a história.
- Menina! Não acredito!
- Pois é. Mas esse dinheiro não é meu. Tenho que entregar. Eu menti sobre meu nome porque eu não tinha certeza ainda se devolveria. Basta você entregar a ela. Não precisa entrar em detalhes. Ela passará aí amanhã pela manhã. Antes, deixo a bolsa aí.
- Tudo bem.
- Ah! Ela deve lhe contar uma longa história explicando o por quê dela carregar essa grana toda na bolsa. Eu perguntei sobre.
- OK.

Como combinado, Isabelle, ainda mais honesta que Marcela, entregava a bolsa à Aparecida e como esperado, ouviu toda a história da senhora. Ligava então para Marcela.
- Marcela.
- Oi. Entregou?
- Sim, entreguei.
- Antes que eu me arrependesse.
- Fez bem, amiga. Fez bem.
- E a história? Ela te contou?
- Sim. É uma milionária maluca.
- Por que?
- Ela tinha uma neta que faleceu há alguns anos. Ela a amava muito pelo jeito, pois você acredita que ela anda com aquela bolada toda na bolsa a fim de doar, pasme, DOAR, a quem de alguma forma a fizesse lembrar da falecida?
- ISA!
- Ai que susto!
- EU A FIZ LEMBRAR DA FALECIDA, ESQUECEU?
- Jura?
- EU NÃO TE FALEI ISSO, ISA? PELO AMOR DE DEUS!
- Foi mesmo, amiga! Xii...

3 comentários:

Fabiana disse...

mas afinal...
marcela ficou sem a grana e bla bla bla... mas...
como foi o final dela?!
foi estudar, ficou rica de outra forma ou não fez nada da vida?!




bjo.

Aline disse...

eu achava desde o início que com esse papinho ela ia virar uma profissional do sexo
hasuHUASHUhau

Janu disse...

Rá!
A vida sempre tão irônica...