
O rapaz tentava avistar sinais da presença de alguém naquela casa, mas, diante das janelas fechadas, pensava: “não deve haver ninguém aí”. Ele reparava as ferrugens e os rabiscos de giz daquele portão. “Crianças”, ele pensava.
Resolvia então bater palmas para certificar-se de sua intuição; nada. Batia novamente. Até que:
- Já vai!
O rapaz se alegrava.
A porta se abria. Era uma senhora que aparentava uns oitenta anos, aproximadamente. O rapaz foi logo se apresentando:
- Bom dia, senhora.
- O quê?
- BOM DIA, SENHORA.
- Ah, sim, bom dia. O que você quer? – agia com certa antipatia a senhora.
- Meu nome é Pablo, sou engenheiro e trabalho na obra aqui em frente. Eu...
- Essa obra de vocês é um inferno! O que vocês têm na cabeça? Eu não consigo fazer nada com todo esse barulho!
- Senhora...
- Vocês deveriam sumir! Ninguém precisa de um novo supermercado por aqui! Seus idiotas!
- Calma! Podemos conversar?
- Que conversar o quê! Quero que sumam daqui!
Naquele momento, o rapaz já perdia as esperanças de um diálogo com aquela senhora. Eis que surgia, por trás da tagarela, uma jovem.
- O que está acontecendo, vovó?
- É esse cara! Ele é o responsável por todo esse inferno, Ingrid!
- Vovó, entre! Deixe-me ver o que ele quer, sim?
A velha entrava, para alegria de Pablo.
Ingrid era uma dessas jovens simples. À primeira vista, não provocava nenhum tipo de atração. Usava um vestido estampado com pequenas flores, que ia até o meio dos joelhos. Os cabelos estavam presos num rabo de cavalo e levemente despenteados. Com uma toalha de prato nas mãos, Ingrid parecia estar no meio de mil afazeres. Mostrava-se apressada.
- Bom dia. Em que posso ajudar? É rápido?
- Bem, meu nome é Pablo. Chama-se Ingrid, não é mesmo? Ouvi sua avó dizer.
- Sim.
- Então, eu trabalho na obra aqui em frente e gostaria de ter uma conversa com o proprietário da casa.
- Sou eu mesma.
- Ótimo. Primeiramente, gostaria de, em nome da empresa, desculpar-me por toda essa confusão. A poeira nesse período da obra é inevitável, mas lhe garanto que esse incômodo terá fim em breve.
- Tudo bem.
- Bem, em segundo, o que eu queria lhe informar é que nossa empresa possui muito interesse na compra de seu imóvel.
- Mas ele não está à venda. Esta casa é a única coisa que meus pais me deixaram.
- Tudo bem, mas você não quer ouvir pelo menos a nossa proposta?
- Não, obrigada.
- Olha, digamos que você precisasse vendê-la. Quanto gostaria de receber por esta casa?
- Nunca pensei nisso. Nem sei o quanto ela valeria. Provavelmente, um valor que vocês não poderiam pagar.
- Está enganada. Não posso dizer a ti, por enquanto, mas lhe asseguro que a empresa está disposta a comprar sua casa por uma quantia bastante animadora.
- Vender esta casa não me anima em nada, senhor.
- Pode me chamar de Pablo, Ingrid.
- OK. Mas, como lhe disse, não há o menor interesse na venda desta casa. Era só isso?
- Espere um momento, Ingrid.
Pablo pegava seu telefone celular e discava para seu chefe. “Dr. Alcindo? É o Pablo, tudo bom? Estou aqui com a dona daquela casa. Bem, ela me disse que não há o menor interesse na venda. O que eu faço? (...) Entendi. (...) Pode deixar”.
- Bem, acabei de falar com o meu chefe e...
- Não quero saber!
- Não quer escutar quanto ele oferece na casa?
- Não! Além do mais, eu...
- Olha Ingrid, eu estarei agindo contra os interesses lucrativos da empresa, mas escute: ele pensa em um teto de oitocentos mil reais!
- O quê?
- Isso mesmo, Ingrid! Oitocentos mil pela casa! Não é animador?
Na certa Ingrid não esperava um valor como aquele. Anteriormente, chegou a imaginar uns cem mil reais, o que daria para comprar duas casas daquela.
- Mas por que querem tanto assim minha casa?
- A localização dela é perfeita para a ampliação do supermercado, Ingrid. Pense bem, pois esta proposta é como um raio: dificilmente cairá novamente no mesmo local. O que acha?
Ingrid dividia seus pensamentos entre a proposta e os traços finos do semblante de Pablo. À medida que a defesa de Ingrid para com Pablo ia se dissolvendo, a jovem notava naquele rosto uma pessoa muito amiga. A voz de Pablo era serena e grave. Durante toda a conversa, Pablo soltava leves e simpáticos sorrisos. Sempre muito educado, o engenheiro pedia licença:
- Bem, a proposta está feita. Pense direitinho. Quando tiver uma resposta, me ligue.
Pablo entregava à Ingrid um cartão com o seu telefone e continuava:
- Deixe-me ir. Um abraço! Tenha um bom dia! – despedia-se Pablo.
* * *
Alguns dias se passaram, até que Ingrid, enfim, ligasse para Pablo, que, em poucos segundos, chegava à casa da jovem.
- Boa tarde, Ingrid. Tudo bem?
- Tudo. E com você?
- Também está tudo bem. E então? Pensou na proposta?
- Pensei
- E?
- Vou vender à sua empresa.
- Que bela notícia, Ingrid. Fico feliz por você e sua avó. Uma grana dessa ajuda e muito!
- Eu sei. Aceitei porque minha avó precisa de remédios caríssimos.
- Entendo. Agora escute. Quando propuser o preço ao Dr. Alcindo, diga novecentos mil, OK? Ele certamente lhe fará uma contraproposta de uns seiscentos mil. Só depois disso, você chega aos seus oitocentos!
- Se o seu chefe souber que me deu dicas de negócios...
- Rua! Na certa.
- E porque me ajudou? Nem me conhece.
- Por puro bom senso. Acredito que você e sua avó necessitem muito mais dessa grana que o Dr. Alcindo.
- Ele deve ser muito rico, não?
- Você nem faz ideia.
Depois daquele segundo encontro, Pablo notava que algo havia mudado na sua compreensão a respeito de Ingrid. A notara mais bonita e até muito atraente, já que, dessa vez, Ingrid acabara de sair do banho. Os fios molhados e soltos revelavam cachos lindos. A pele morena clara já não apresentava o suor do primeiro encontro. E o vestido de outrora dava vez a uma camiseta de malha e um short jeans nem curto nem longo, apenas no tamanho ideal para que Pablo pudesse notar a beleza daquele corpo bem definido em curvas e medidas.
* * *
As negociações foram rápidas, devido à pressa da empresa em demolir a casa. Ingrid agiu conforme Pablo a instruíra. Mas, por fim, a casa foi vendida por satisfatórios setecentos e oitenta mil reais.
No dia da mudança de Ingrid, Pablo, a fim de se despedir, ia de encontro à jovem.
- Então, hoje é o seu dia. – dizia Pablo.
- É. Com o dinheiro conseguimos comprar um apartamento aqui perto mesmo. Minha avó gosta muito desse bairro.
- Ah, é mesmo? Que ótimo! Então, ainda a verei por essas bandas?
- Sim, provavelmente.
- Então, tudo resolvido, não é mesmo?
- Quase tudo. – dizia Ingrid a olhar para o nada.
- Como assim “quase tudo”?
- Nada... Bem, para lhe agradecer, gostaria que, assim que eu estiver totalmente instalada, você aparecesse por lá para tomar um café.
- Seria uma honra. Você me liga?
- Sim, claro.
- Bem, deixe-me ir. Boa sorte em seu novo lar e...
- E?
- A gente se vê, não é?
- Sim.
O engenheiro caminhava rumo à obra e sumia em meio à nuvem de poeira.
A obra chegava ao fim, o supermercado era inaugurado e aquele café com Pablo jamais foi marcado. O engenheiro, que não tomara nota do telefone ou endereço de Ingrid, nada pôde fazer a não ser esperar. E assim, ambos permanecem até os dias de hoje – Pablo em infinito aguardo e Ingrid a passar um café para três: sua avó, ela e sua insegurança.