quinta-feira, 2 de agosto de 2012

OS BASTIDORES DOS BASTIDORES: A minha história numa banda de Heavy Metal – Parte V

1999 caminhava sem muitas novidades. A Evil Darkness continuava ensaiando, compondo uma coisa ou outra, mas sempre na espera da tão sonhada “estreia”. Chegamos a gravar algumas demos, mas nada apresentável, apenas para nos ouvirmos mesmo, corrigir alguns erros.

Uma dessas gravações foi bem curiosa. Renato havia conhecido um músico que possuía um home studio em algum lugar de São Gonçalo. Segundo nosso contrabaixista, estava tudo certo para gravarmos, sem ônus, uma K7 no estúdio desse tal músico. Era estranho existir um cara tão bacana a ponto de ceder, por algumas horas, em pleno fim de semana, a sua sala de estar para uma banda barulhenta gravar uma demo. Mas, mesmo desconfiando, seguimos para o local.

Ainda me lembro da cara de “puta que pariu, eles vieram mesmo!” daquele sujeito que nos recebeu da janela. Ele estava com a namorada – ou noiva, sei lá – no maior love, assistindo a um filme (ou seja lá o que mais estava rolando ali) e se viu obrigado a passar o seu programinha para o quarto, porque na sala estaríamos nós e nossos muitos watts de puro metal. Ele acionou o gravador e disse “fiquem à vontade”. Foi desconcertante, mas engraçado.

Naquele mesmo ano (ou foi em 1998?, não sei) nosso QG sofreu um golpe fatal. A minha vizinha de frente, a Luciane, deu a luz à pequena Livya. Com isso, certo dia, voltando da escola, me deparo com uma plaquinha pendurada na porta de sua casa, que dizia: “Silêncio! Bebê dormindo!” Senti que aquela placa era para a Evil Darkness. O Flávio Rios, dono de um estúdio na minha rua, me dera uma sugestão...

– Por que você não coloca uma placa na frente da sua casa dizendo “Foda-se! Banda ensaiando!”? – disse-me Flávio em tom de brincadeira, logicamente.

Eu ri, mas achei melhor não seguir o conselho, claro.

Convoquei o pessoal e dei a notícia de que não daria mais para ensaiarmos no meu quarto. O pessoal entendeu o problema numa boa. O mais difícil era encarar o outro problema: Onde diabos ensaiaríamos então?

Éramos todos uns duros – com exceção do Paulo, que trabalhava. Alugar um estúdio era dar adeus à liberdade de horário e ainda ter de pagar por isso. O que esperar? Estávamos chegando à fase adulta e um dia teríamos que começar a pagar as nossas despesas, não é mesmo?

Acho que chegamos a ensaiar algumas vezes nos fundos da casa do irmão do Leonardo, mas isso foi provisório. Tão provisório que não vingou. Sendo assim, fomos parar no estúdio do Flávio mesmo, na minha rua. A R$ 20,00 o período de três horas, ficava R$ 4,00 para cada um. Parece pouco, né? Mas era uma merda ter que pedir “pai, me empresta um dinheiro para o ensaio?”

Ensaiar em um estúdio com devido tratamento acústico foi bom para a banda. Conseguíamos agora escutar cada errinho mais facilmente. Era como se as paredes nos apontassem um dedo e dissessem “ei, você errou essa parte!” E por um adicional de R$ 10,00 o Flávio ainda gravava o ensaio em K7. Um luxo! Gravamos muitas fitas por lá!

No início a gente ficava muito nervoso com o passar dos minutos pagos – qualquer papo furado e alguém de nós já lembrava o custo de cada segundo –, mas com o tempo fomos aprendendo a administrar as horas no estúdio.

O ano 2000 não foi muito bacana conosco. Precisávamos trabalhar.

Paulo, como já disse, já trabalhava; atuava num laboratório do Rio de Janeiro. Rodrigo e Renato, se não me engano, já trabalhavam com manutenção de informática, ou algo do tipo. Leonardo passava o dia fazendo cópias em um cartório, também no Rio. Eu havia sido convocado para – pasme – o Exército Brasileiro.

Com afazeres de pessoas normais, administrar a banda ficava cada vez mais difícil para nós. E o stress de nossos respectivos serviços refletiam, pouco a pouco, em nosso rendimento como banda. O estúdio do Flávio nos recebia agora, sempre nos fins de semana, com semblantes cansados – isso quando eu não estava de plantão no quartel.

Não sei quanto aos outros, mas sentia que em mim e em Leonardo pairava uma certa falta de perspectiva profissional. Leonardo não queria morrer com o umbigo encostado em uma copiadora, assim como eu sabia que não morreria soldado, mas, pior, não sabia o que seria depois daquilo. A verdade é que queríamos ser músicos! Chegamos a ingressar a Escola de Música Villa-Lobos, no Rio, mas desistimos meses depois. Eu porque já tinha estudado toda aquela chatice do curso básico; ele... Bem, eu sei lá por que ele largou aquilo.

Leonardo e eu em poucos momentos conversávamos, mas nesses poucos momentos conversávamos muito! Lembro de em alguns ensaios ele chegar bem mais cedo lá em casa – às vezes até almoçava comigo –, antes dos caras chegarem e partirmos para o Flávio. Ouvíamos alguns discos, falávamos um monte de merda, criávamos projetos impossíveis (como a guitarra cuja única corda seria um cabo de aço de excessiva bitola, para tirar os sons mais graves e pesados do mundo) e no final, sempre no final, refletíamos sobre o que seria da banda, de nossas carreiras e de que carreiras estávamos de fato refletindo.

Renato e Rodrigo me pareceram sempre muito focados naquilo que queriam para suas vidas fora da banda. Não é à toa que ambos só cresceram em suas carreiras, até hoje. O Paulo já estava num estágio em que precisava mesmo trabalhar, estava inserido nesse sistema, já tinha esposa, um filho pequeno e tudo o mais. Mas Leonardo e eu, não sei dizer, mas ainda não tínhamos nos encontrado como pessoas normais fora da banda.

Nessa mesma época, me lembro, houveram alguns conflitos entre o que os quatro mais antigos e o Paulo queriam para a Evil Darkness. Os meses se passavam e, por algum motivo qualquer, cada momento um diferente, a nossa “estreia” não acontecia.

Desânimo. Essa é a palavra que nos definia. O gás estava acabando, enfim.

Até que Paulo – não sei bem se em 2000 ou 2001 – decide deixar a banda, por conta dessas divergências mesmo. Sua contribuição foi excelente para a Evil Darkness, mas ele estava ali não como uma peça do quebra-cabeça, mas como a mão que ajuda a montá-lo.

[Continua]

2 comentários:

Rodrigo disse...

Pra variar, ri bastante!!! hauhauahuahuahuaha
Não entendi a última frase, essa parte do quebra-cabeça. Mas tudo bem... heheh

Luciano Freitas disse...

Eu explico: Ele não era parte do quebra-cabeça pq no fundo não completava a banda no sentido de querer a mesma coisa. Mas era a mão que adujava a montá-lo, pq mesmo assim nos ajudou muito a construir o que fomoes em 2002. ;)