terça-feira, 29 de julho de 2008

DIFERENTES

Àquela altura da vida, eu já havia me decepcionado diversas vezes com as pessoas. Na minha cabeça, as pessoas existiam apenas para decepcionar umas as outras. Elas estavam sempre ali, prontas para se aproveitar de qualquer descuido. A imagem da multidão seguindo seus destinos às 7h da manhã naquela imensa praça de pedras portuguesas se mostrava repetitiva e artisticamente colorida e móvel. Parado e de olhos fixos naquele rio de gente ambiciosa que desaguava nas ruas do centro, eu pensava umas vinte vezes antes de descer as escadas e desembarcar. Eu era o peixe desgarrado de um cardume de individualistas.

Com os pés cansados de caminhar sem uma direção segura e tranqüila, eu me dirigia a lugares onde a minha insignificância se tornava ora maior, ora menor do que o normal. A seriedade com a qual eu lia as notícias do jornal pregado à banca contrastava com as gozações sem sentido de torcedores rivais que acompanhavam o resultado da rodada de jogos de futebol da noite anterior. Por breves momentos eu me flagrava querendo ser como eles. Aparentemente livres de qualquer frustração ou tristeza e inflados com a coragem e a força de um cordeirinho.

Eu só queria entender o que nos fazia ser diferente um dos outros já que víamos a luz basicamente de um rasgo igual em todas as mulheres. Queria entender qual era a diferença entre as classes quando dormiam ou quando defecavam. A do pico da pirâmide caminhava como fosse livre de qualquer excremento. Talvez por isso a mente opaca de minha irmã a fazia acreditar que o Tarcísio Meira não cagava e nem tirava meleca.

Na minha bolsa, apenas as ferramentas que eu precisava para reformar, construir ou modificar aquilo que ordenavam, uma cartela de cigarros e um rádio a pilhas que raramente eu ouvia, mas fazia questão de carregar comigo, mania de gente velha mesmo. Do meu lado, frente à banca de jornal, um rapaz bem mais novo que eu, vestido numa roupa social, carregava uma mochila esportiva e na mão direita um copo de morango com leite batido. Uma imagem moderna onde o seu simples silêncio afrontava a minha blusa surrada de botões faltando e minha sandália de couro remendada a terceira vez. Na verdade ele nem me olhava, o que era ainda mais irritante. Após ler o que o interessava, dava meia volta e seguia seu rumo. Eu também seguia o meu.

Mais à frente, para atravessar a rua, aquele rapaz mais uma vez se encontrava ao meu lado. De óculos escuros, ele parecia direcionar suas vistas a mim. Olhava fixo para suas lentes na expectativa do mesmo mencionar algo sobre minha pessoa socialmente inferior, mas ele virava o rosto e retirava de seu bolso um telefone celular de última linha.
- Fala, cara. Beleza? Estou chegando aí para resolver aquele “pepino”. OK. Até mais.
Ficava claro para mim que ele tinha horários, deveres e responsabilidades que talvez o fizessem merecer todo aquele conforto visível.

A minha tarefa naquele dia era a reforma do banheiro de um escritório ali no centro da cidade. Com um papel de pão amassado contendo o endereço para o qual eu me dirigia nas mãos, eu seguia pela rua de paralelepípedos. Mais uma travessia. Dessa vez, a avenida principal do centro. Mais uma vez, o rapaz parava ao meu lado à espera do sinal vermelho.
- Esse sinal é um absurdo.
Ele falava ao vento.
- Verdade.
Eu respondia como que num diálogo, mas ele nem me ouvia. Após a longa espera, atravessávamos e entrávamos no mesmo prédio e conseqüentemente no mesmo elevador, onde a presença dele foi ainda mais difícil de suportar. Seu perfume se fazia presente e sua higiene e bom trato mais uma vez me afrontava sob o silêncio medonho daquela cabine. Saíamos do elevador e entrávamos na mesma sala.

Na porta.
- O senhor é o pedreiro que vai reformar o banheiro?
- Eu tenho cara de pedreiro?
- Desculpe senhor, eu não queria...
- Por que se desculpa? Acha ruim ser chamado de pedreiro?
- Não foi isso que quis dizer...
- Ser pedreiro é ser inferior a alguém?
- Não, de maneira alguma...
- Está tudo bem. Sou eu mesmo o pedreiro. Mas antes de ser pedreiro sou o Hércules.
- Isso mesmo! Hércules! Foi comigo que o senhor falou na sexta-feira ao telefone.
- Ah sim, Eduardo.
- Como sabe meu nome?
- Ao contrário de você, eu me recordo da graça e não somente da função. Somos pessoas, não?
- Claro, claro. Vamos, entre. Vou lhe mostrar o banheiro.
Ele respondia com um sorriso envergonhado.
- Está bem.

Chegava ao banheiro a ser reformado, mas antes passava por uma série de salas compostas por divisórias onde em cada uma delas se encontrava um funcionário com a cara enfiada no computador ou com o telefone na orelha. Eles trabalhavam de maneira frenética enquanto um homem alto com um olhar fulminante circulava entre os mesmos. Eram nítidas nos ares as metas inalcançáveis que ali eram estipuladas. Não sei o por quê, mas as caras de medo de alguns funcionários fizeram me sentir um pássaro livre.
- Esse é o banheiro do qual lhe falei, Hércules.
- OK. Já lhe passo o material que precisarei.
- Por favor. Quando terminar seu levantamento, me procure ali na minha sala, sim?
- Pode deixar.

O banheiro estava realmente precisando de uma boa reforma. Infiltrações, louças e metais em péssimo estado. O cômodo contrastava totalmente com o restante do escritório, onde a brancura e a modernidade se faziam presentes. Talvez por ser o único local onde a produção não era o foco. Enquanto fazia meus pequenos cálculos para uma total reconstituição daquele banheiro, não pude deixar de notar a movimentação das pessoas que trabalhavam ali. Duas mulheres chegaram bem próximas a mim, no bebedouro, e sem querer ouvi suas conversas.
- Não adianta, Carmem. Esse supervisor é um troglodita. Você viu o que ele me disse na frente de todos?
- Eu sei, Elaine, mas o que se pode fazer?
- Eu vou sair daqui. Não agüento mais tanta humilhação.
- E quem vai pagar a operação de sua filha, o seu aluguel?
A tal Elaine silenciava e deixava uma lágrima correr. Elas voltavam ao trabalho, mas antes.
- O senhor é quem vai reformar o banheiro?
Perguntava a tal Carmem.
- Eu espero que sim.
- Ai, graças a Deus!

Eu terminava o levantamento e procurava o Eduardo para lhe dar o orçamento.
- Eduardo.
- Entre, Hércules.
- Já está pronto o orçamento.
- E então?
- Bem, o banheiro está péssimo, Eduardo.
- Eu sei, eu sei...
- Se quiser uma reforma geral, o preço de minha mão-de-obra é esse aí.
Ele olhava assustado para o papel.
- Isso somente a mão-de-obra?
- Isso. Fora o material que fica mais ou menos isso aí.
Ele levava outro susto.
- Meu Deus. Não sei se os diretores irão aceitar esse preço. Vou falar com eles. Já volto.
- OK.

Minutos depois, voltava Eduardo.
- Hércules. Nada feito. Eles acharam caro demais. Eles querem reduzir o serviço à pelo menos um quarto desse valor.
- Bem, esse orçamento que fiz é para deixar aquele banheiro idêntico ao banheiro ao lado, que está um brinco.
- Pois é, Hércules, mas aquele banheiro ao lado é o banheiro dos diretores.
- E o deplorável?
- Dos funcionários.
- Entendi.
Ali, os diretores cagavam de forma diferente.


No fim de toda a negociação, tudo o que fiz foi trocar uma torneira e pôr uma saboneteira líquida onde antes nada havia. Eu reforçava ainda mais minha conclusão sobre as pessoas. Umas devorando as outras. Era um tédio pensar que dependíamos das pessoas para sermos pessoas também. Ainda assim, a nova torneira foi brindada com uma alegria silenciosa por parte dos funcionários vigiados. Era o mínimo, mas era mais.

5 comentários:

Janu disse...

Fantástico este conto.
Realmente o Lu está se apurando cada vez mais!
...poesia Lu...poesia!
Beijos no coração!
Parabéns!

Anônimo disse...

Luciano, parabéns!
Sou a Nathalia que estuda contigo na UCAM, lembra?
Olha, gostaria de te dizer que fico muito feliz cada vez que venho ao seu blog. Ultimamente (pra ser mais precisa desde a semana passada) tenho entrado diariamente e, mesmo sem atualizações diárias, venho lendo contos passados que so me fazem reafirmar a felicidade que sinto em acompanhar um de seus trabalhos.
Parabéns pelas idéias, pelos personagens, pelas histórias e pelos fins totalmente inesperados.
Espero de verdade poder acompanhar muitos outros contos que tanto me ajudam a passar algumas tardes que parecem eternas aqui no trabalho.

beijos e até segunda!!!

Fabiana disse...

eca! (imaginando o tal banheiro xexelento)

comentário sério: gostei do conto.







bjo.

Kayo Medeiros disse...

nham nham, gostei, como sempre! Além disso, esse azulejo da capa me traz boas lembranças... =D (ah, e ele é na verdade de inflência francesa. A azulejaria francesa traz mais esses motivos florais, enquanto a portuguesa segue uma linha mais geométrica, por assim dizer. É, eu estudei isso! viva a aula de artes plásticas! hahahaha!)

Sabrina disse...

Muito bom mo�o! (pra variar, n�!?)
Essa diferen�a gritante � jogada em nossa cara de v�rias formas, dia a dia...
Ah! E eu tamb�m adorei o azulejo da capa! Foi a primeira coisa q observei... coisas antigas s�o as minhas preferidas!

Parab�ns!!!
beij�ooo