sexta-feira, 11 de julho de 2008

ELAS VII - Parte Final

Naquele sofá, eu acariciava o rosto de Larissa enquanto ela ia lentamente se acalmando. As lágrimas de Valéria, do outro lado da parede, pareciam cessar também. Aos poucos Larissa pegava no sono e eu não conseguia parar de pensar no que eu estava prestes a fazer. Voar para Porto Alegre e começar uma vida totalmente nova. As únicas pessoas que eu conhecia por lá era Vanda e Larissa. Só. Seria mesmo uma escolha sábia seguir a idéia de Serginho, aquele louco? Sentia-me medroso e ao mesmo tempo disposto a ver no que daria essa viagem.

Larissa recostava-se sobre meu peito e já começava a dar indícios de um sono pesado. Não queria acordá-la. Na verdade meu tesão acumulado há semanas até queria, mas para Larissa provavelmente não haveria o clima suficiente para que ela repetisse a dose interrompida de quinta-feira. Mais cedo ou mais tarde nós teríamos um momento só nosso, no qual poderíamos usufruir um do corpo do outro.

Naquele momento, eu sentia uma mão no meu ombro. Olhava para o lado. Gelava. Não havia ninguém. Claro que não havia ninguém. Então eu continuava a zelar o sono de Larissa. Ela precisava deitar-se. Caso contrário, acordaria morrendo de dores na coluna dormindo daquele jeito, toda encolhida. Minhas pernas não deixavam que eu a pegasse no colo e a levasse a meu quarto. Aquela confusão toda havia me deixado exausto de tanto pensar. Os membros de meu corpo sempre refletiam meu cansaço mental. Lembrava de quando as músicas na orquestra do Walter Lins eram muito complexas eu levava uns 20 minutos para levantar da cadeira após o ensaio. Era terrível.

Mais uma vez, aquela mão eu sentia sobre meu ombro. Eu gelava novamente. Larissa se mexia, mas não acordava. Eu morria de medo de assombração, mas eu não queria acordar Larissa. Então me mantinha atento e ao mesmo tempo imóvel com a cabeça da menina já em meus braços.

Logo depois, Larissa acordava levemente.
- Meu Deus, eu caí no sono.
- Pois é. Vamos, vou te levar até o quarto.
Larissa se levantava e eu recebia agora leves empurrões da mesma mão que parecia antes se colocava sobre meu ombro.
- RAIOS!
Eu gritava.
- O que foi, amor?
- Nada.
Eu não queria assustar Larissa. Já bastava tudo aquilo.
- Você parece nervoso.
- Impressão sua. Venha.
Eu a conduzia até meu quarto. Então eu levava então mais um empurrão.

- ME DEIXE EM PAZ!
Eu gritava!

- Ficou maluco, Charles?
- Valéria? Mas...
- Não. A Chapeuzinho Vermelho.
- Mas...
- Acorda homem.
- Onde está Larissa? Eu...
- Larissa? Quem é Larissa? Bebeu todas na festa de ontem, não?
- Eu? Festa? Ontem?
- Ih...
- Que dia é hoje?
- Domingo. Ficou maluco, Charles? Alô. Planeta Terra.
- Mas, eu ia a Porto Alegre hoje com...
- Porto Alegre?
Eu me levantava sob aquele sol que já esquentava o meu casaco de náilon. Meu corpo se encontrava totalmente quebrado da – então assimilada – festa da noite anterior.
- Meu Deus. Eu não acredito. Eu quebrei a chave na fechadura. Que merda.
- Eu estou te chamando e te balançando faz um tempão e você nada de acordar.
- Valéria, eu tive um sonho durante o tempo que dormi aqui na porta de casa.
Eu começava a chorar feito uma criança.
- O que houve, Charles? Vamos lá para casa. Chamaremos um chaveiro, venha.

Eu ia direto ao segundo quarto de Valéria.
- O que procura?
- Por Larissa.
- Mas que raio de Larissa é essa?
- Você não tem uma sobrinha chamada Larissa?
- Nunca. Você sonhou com isso?
- Certamente. Ela era linda.
- Ih...
- Ela era filha da Vanda, sua irmã. Como anda sua irmã? Lá em Porto Alegre.
- Charles, Vanda faleceu faz cinco anos e jamais morou em Porto Alegre.
Eu não me lembrava. Na verdade eu lembrava, mas ter acordado daquela forma de um sonho como aquele me deixava “fora do ar”.
- Ela não teve uma filha?
- Não, Charles.
- Meu Deus.
- Não quer me contar o sonho, enquanto esperamos o chaveiro?
- Claro. Tem um cigarro?
- Pegue aí.
- OK.
Eu acendia o cigarro enquanto Valéria ligava para o chaveiro. Eu ficava imaginando, com uma imensa vontade de chorar novamente, da saudade que eu já começava a sentir de Larissa. As imagens daquele sonho me vinham à mente e me davam a noção do quanto o mesmo tinha sido surreal.
- Pronto. O chaveiro já virá. Agora me conte esse sonho que te deixou tão mal.
- Primeiro me responda. Você me ama?
- Como?
- Você me ama?
- Está ficando maluco, Charles. Somos amigos há tanto tempo.
- OK. Eu vou lhe contar o sonho e entenderá a minha pergunta.

À medida que eu ia contando o sonho, Valéria soltava umas gargalhadas de se escangalhar. Quando isso ocorria, me mantinha sério e olhava fixamente para ela.
- Tudo bem, Charles, continue, mas lamento lhe informar que o Serginho nunca tocou bateria e também já faleceu, no ano passado.
- Agora eu já sei Valéria, porra!
Minha alma se esfacelava a cada frase que eu soltava. Descobrir que nada daquilo que eu havia sonhado era verdade me doía. O rosto de Larissa ao me encontrar naquela sala de Valéria, as pernas dela ao tomar o café da manhã. A orquestra, o Clube dos Líderes e o maestro Walter de fato existiam, porém, eu tocava trompete tão mal que havia sido expulso ainda nos testes para tentar ingressar no conjunto. Aquele solo fabuloso de “But Not For Me”, a admiração de Larissa e de Serginho, saudoso Serginho, ao me verem tocar daquela forma. Tudo um sonho.

- Você quer dizer então que se apaixonou por minha “sobrinha”?
- Isso. Ela era a sua cara. Linda.
Valéria abaixava a cabeça.
- E que você era um excelente músico?
- Isso.
- Ora, Charles. Só lhe aturo com essa corneta...
- Corneta não! Trompete!
- Isso. Trompete. Só lhe aturo com esse trompete aqui ao lado porque é meu amigo de infância, Charles.
- Agora eu já sei, Valéria. Não precisa me fazer lembrar a derrota ambulante que sou. OK?
- OK!
Ela entristecia ao ver que me entristecia. Uma amiga!

O silêncio tomava conta daquela sala. Não era uma simples espera por um chaveiro, era o efeito do sonho se fazendo presente em nossos corações. Valéria não sabia para onde olhava. Eu também estava bastante sem graça, já que no meio da história eu havia confessado o meu amor que há tantos anos eu havia escondido e, diferente do sonho, não passara.

Eu começava a entender o sentido daquilo tudo. Aquelas meninas da festa da noite anterior, jovens e salientes me faziam voltar no tempo enquanto dormia. A partir do momento em que eu apagava frente a minha porta, revivia em sonho um sentimento da adolescência através de Larissa, que representava exatamente o que Valéria era há anos atrás. Tudo o que eu queria ter sido eu realizava naquele sonho. O valor que Larissa me dera, a disputa da tia e da sobrinha pelo meu coração, os músicos do Jazz Bar que eu sempre quis manter laços. Meu Deus. Era tudo um raio de um sonho idiota. Até os diálogos de Larissa e Valéria o meu sonho teve a inspiração de criá-los. Deviam ser os meus erros e acertos em conflitos.

- CHAVEIRO.
- Ih. O chaveiro chegou, Charles.
- É. Obrigado por tudo.
- Eu apenas lhe ouvi.
- É que ninguém jamais me ouviu.
- Eu sempre te ouvi, Charles.
- Pois é. Apenas ouviu. Nunca sentiu. Precisei dizer para que soubesse agora que durante eu a amo. Que sempre te amei.
- Charles. O chaveiro vai embora.
- Em poucos minutos todo um mundo inexistente foi embora, Valéria. O chaveiro é só um detalhe. Detalhe esse que me fará entrar em casa novamente e me deparar com a vida crua e real que eu não queria viver. Não depois de tudo o que sonhei.
- Charles, Charles...
- Vou lá.
- Homens. É difícil entender ELES.
Valéria sussurrava fechando sua porta.

6 comentários:

Kayo Medeiros disse...

que deprimente. =/

Fabiana disse...

ai.


"THE END"








bjo.

Aline Ramos disse...

Eu já ia te chingar, essa de sonho é o maior clichê que existe!
Mas você fez bem feito, me deprimiu também. usudhUHASUHua
E quase achei que ele ia ter um final feliz com a Valéria, ainda bem que nem teve! USAHUhuashuHUAHUa

Mas isso tudo me faz lembrar dos meus sonhos, odeio acordar, porque meus sonhos são sempre legais. Tem dias que me atormentam muito, mas tem dias que me deixa maior feliz, achando que tudo o que sonhei pode se tornar verdade.
HASUHuhasuhUHSAUHua

Parabéns querido! \o/

Sabrina disse...

Fiquei arrasada... Pobre Charles!
rs
Foi perfeito! Muito bom o jeito no qual a história foi conduzida... e o desfecho, confesso que me surpreendeu! Adoro quando isso acontece!
Parabéns! =)

janu disse...

ah...nao queria desfecho por agora não!
humpf!

Vanessa Sagossi disse...

Ah, tadinho..