quinta-feira, 3 de julho de 2008

ELAS II

Leia a primeira parte de ELAS aqui: http://muitosemum.blogspot.com/2008/07/elas.html

Fazia frio naquela segunda-feira. O mês de junho estava no fim e já demonstrava mais ou menos como seria o meu mês de julho, pois com a aparição de Larissa na minha vida, ou seria de relembranças ardentes de um inexistente relacionamento com sua tia Valéria, ou seria repleto de problemas por conta da proibição imposta pela própria tia de nos "conhecermos melhor".

Na noite passada, Larissa foi para casa já altas horas da madrugada. Valéria tinha um sono pesado e isso facilitou o restinho do meu domingo. Pude vasculhar cada cantinho dos lábios de Larissa ainda na minha porta.
- Vamos entrar. Está frio aqui fora.
- Não. Minha tia não pode nem saber que lhe beijei. Eu sei bem o que pretende com minha entrada à sua casa. Não quero dar razão à idéia de minha tia.
- E que idéia ela faz de mim?
- Ah, não sabe?
- Imagino.
- Esquece. Vem, me beija.
- OK.

Foi bacana. Tínhamos marcado de nos encontrar na segunda-feira no centro da cidade. Ela inventaria alguma desculpa para Valéria e eu estaria esperando-a no ponto final do 345. Eu pretendia levá-la a algum local onde pudéssemos conversar. Queria que ela soubesse o quanto e o por quê que sua fisionomia fazia sentir-me tão bem, mas corria o risco dela achar que na verdade era à Valéria que eu depositava o meu desejo. E na verdade era. Não tinha sido uma boa idéia. Conversaríamos sobre coisas banais. É mais prático e menos perigoso. Não podia deixar escapar uma princesinha daquela por conta de um passado que nem existiu.

Eu estava vendo TV quando da minha sala ouvia Larissa.
- Tia. Vou tomar um banho e vou dar um pulo lá no centro.
- Vai fazer o quê lá?
Questionava uma já desconfiada Valéria.
- Dar uma volta. Um shopping. Sei lá.
- Mas nesse frio? Que animação.
- Adoro frio.
- Trouxe casaco?
- Trouxe.
Eu já estava de banho tomado. Arrumei-me e parti para o local combinado.

Eram 17:15h e o céu exibia um fim de tarde bastante agradável. Apesar do vento frio de cortar, meu corpo permanecia quente por causa da vontade louca de sentir o lado agora não tão obscuro de Larissa. E pensar que aquela menina de sorriso singelo que apareceu na sala de Valéria no domingo estaria no dia seguinte prestes a me dizer coisas que nem a tia nem a mãe dela poderiam sequer imaginar. Pelo menos naquele momento eu desejava muito que Larissa me dissesse coisas contrastantes com aquele seu olhar inocente.

Ela chegava. Vestia um moletom azul marinho, calça jeans clara bem justa e com os cabelos presos num rabo de cavalo que a deixava menos parecida com a tia, melhor, a deixava ainda mais bonita. Fiquei anestesiado por uns segundos analisando cada centímetro de sua delicadeza aparente naquele caminhar à minha direção. Para retirar uma possível poeira de seu bumbum redondo e comprimido pelo jeans, Larissa se retorcia inclinando a ponta do pé direito e dobrando o pescoço para trás, dava duas tapas no alvo de meus olhares e já vinha rindo e dizendo: "Que ônibus sujo, meu Deus". Eu ria também.
- Demorei?
Dava um pulinho na minha frente e perguntava.
- Imagina. Ouvi você falando com sua tia e me mandei logo depois.
- Então demorei.
- Digamos que eu tenha me adiantado.
- OK. Para onde vamos? Não conheço nada da sua cidade, Charles.
- Eu conheço um lugar onde podemos conversar e...
- Conversar? Vejo que tia Valéria erra sobre você.
- Então está atrás de um cara grosso com gosto de fumo no beijo?
- Não é bem assim. Acho que o homem pode ser sensível, mas sem deixar largar o modo rústico de ser.
Eu me enganava sobre elas sempre.
- Que bom. Então vamos conversar. É um barzinho muito aconchegante logo ali.
- OK. Vamos.

- Uma cerveja, por favor.
Eu pedia.
- Uma água. Sem gás.
Ela pedia.
- O que traz uma princesa sulista a essa cidade imunda do sudeste?
- Minha mãe está passando por momentos muito difíceis com meu pai e então sugeriu que eu passasse as férias de inverno aqui com minha tia. Ela prefere estar sozinha com ele para resolverem seus problemas conjugais.
- Lembro da sua mãe. Vanda.
- Pois é.
- E quando vai embora?
- No fim de julho.
- Teremos então um mês para nos conhecermos melhor?
- Sim. Se minha tia deixar.
- Ela não precisa saber.
- Não é assim. Queria que ela aceitasse caso ficássemos juntos durante esse período.
Enganava-me novamente.
- Acho difícil Valéria aceitar um relacionamento entre nós. Para ela eu não passo de um sujeito sem futuro.
- Me faça descordar. Mostre-me que é mais do que isso.
- Preciso? Creio que não seja bem um futuro que você espera de mim.
- Erra na crença.
Enganava-me novamente com as mulheres.

Naquele início de noite eu contava toda a minha vida àquela guria e podia ver, assustado, os olhos dela brilharem. Na certa deve ter achado super atraente um cara perder os pais aos 17 anos viver a vida perambulando em bicos musicais que pouco lhe rendiam. Eu não gostava de falar sobre minha carreira musical fracassada com ninguém. Os bailes da terceira idade nos quais eu tocava trompete sob o comando da batuta do Maestro Walter Lins não me deixavam muito à vontade. Na verdade eu me envergonhava e muito com eles. Eu só vestia aquele terno azul anil já nos clubes. Só apareciam vestidos os músicos que possuíam automóvel. Eu não seria louco de andar feito um palhaço no 702. Seria o fim dos finalmente.

- Tocaria para eu ver?
- Trompete?
- O que mais você toca?
- Deixa para lá.
- Tocaria para mim?
- Sim, mas o trompete é um instrumento melódico, ou seja, sem alguém acompanhando ficaria meio chato.
- Eu posso acompanhá-lo.
- Você é musicista?
- Sim. Não sou profissional, mas estudei onze anos de piano.
- Nossa. Mas onde arrumaríamos o piano?
- Depois a gente pensa.
Ela falava cada frase como num filme em câmera lenta. O rosto perfeito ficava apoiado sobre as duas mãos na bochecha e os cotovelos sobre a mesa.
- Vamos dar uma volta?
Eu emendava para espantar o silêncio que a gigantesca admiração de Larissa proporcionava cada vez que ela fazia aquela cara de quem estava imaginando uma vida ao meu lado.
- Vamos.
Durante todo o papo, a única coisa que ela me disse sobre sua vida é que gostava de cantar ainda com os cabelos molhados do banho frente ao espelho. "É a coisa mais interessante sobre mim". Eu ria.

De braços dados caminhamos pelo centro sem se incomodar com a correria daqueles que não tinham a "sorte" de trabalhar apenas em alguns finais de semana, como eu. Bem no meio do calçadão, Larissa me pára.
- Me beija?
- Aqui?
Referia-me à rua.
- Não. Aqui!
Ela colocava minha mão em seus lábios referindo-se com um sorriso à boca. E que boca. Eu a beijava sem o fumo e a vodka do dia anterior e ela parecia mesmo assim gostar ainda mais.

Pela primeira vez eu conhecia uma mulher que me aceitava do jeito que era. Eu sentia que não precisava me esconder atrás da orquestra do Walter quando ela estivesse no baile a fim de me ver tocar. Sentia que a minha barba por fazer não a incomodava e, o melhor, sabia que cada história de derrota que eu contasse a ela me traria em troca um sorriso encantador, com apenas o mês de julho de validade, mas encantador.
- Tem certeza de que isso lhe renderá algo para guardar para sua vida?
Eu perguntava.
- Que profundo.
- É sério. Está sendo importante para você ou apenas uma história de mais umas férias escolares de inverno?
Eu insistia, pois queria saber até que ponto eu também poderia me entregar aos encantos de Larissa.
- Quer mesmo saber? Está sendo o inverno mais importante de toda a história das minhas estações. Está bom para você?

***
Foto da capa: Fabiana Romeo

2 comentários:

Fabiana disse...

hj o comentário vai ser mais rápido, pq eu já li o conto ontem...

conto bem bacana!





bjo.

Giuh disse...

"o iverno mais importante de todas as estações" muito bom ;}





http://sorrisosdeplasticos.blogspot.com/