sexta-feira, 4 de julho de 2008

ELAS III

Na terça-feira, como todas as terças, eu me dirigia até o galpão do Clube dos Líderes para mais um ensaio da orquestra do maestro Walter. Chegava lá com o sono de sempre, mas também com a alegria de nunca. Larissa estava de fato mexendo comigo de uma forma que nenhuma outra mulher havia até então.
- Boa noite, Walter.
- Atrasado de novo, Charles.
- Boa noite, Walter?
- Boa noite, Charles, mas está atrasado de novo.
- Desculpe, Walter. É que...
- Não me interessam mais de suas desculpas. Sente-se aí. Estávamos TENTANDO ensaiar “But Not For Me” que, caso não se lembre, possui trinta e seis compassos de solo de trompete, segundo meu arranjo. Estou certo, Charles?
- Sim, você está certo, mas esteja certo também de que farei o melhor solo de trompete para “But Not For Me” que você já ouviu.
- Uau! Mandou ver.
Falava baixinho o Serginho da bateria.
- OK, Charles. Sente-se e acompanhe-nos.

Logo nas primeiras notas da música, a campainha do galpão é soada.
- Aaaaaaaaah!
Walter ficava furioso quando isso ocorria no meio de uma música.
- Serginho, vá ver quem é e, antes de qualquer coisa, dê uma bronca no surdo que não notou que há uma orquestra ensaiando.
Serginho era o músico que ficava mais próximo ao portão, por isso, sempre sobrava para ele. O baterista seguiu então até lá pronto para esbravejar, mas...
- Oi!
- Pois não?
Já respondia um Serginho molenga.
- O Charles está aí?
- Sim, mas estamos no meio de um ensaio e...
- Ótimo. Posso assistir? Sou amiga dele.
- Bem...
- Obrigada!
Era Larissa. De maneira angelical a menina aparece frente à orquestra dando um tchauzinho simpático unido a um sorriso que desbancou o maestro Walter na hora.
- Posso saber o que a jovem está fazendo aqui?
Perguntava Walter com uma delicadeza inédita.
- Sou amiga do Charles. Posso assistir o ensaio?
Walter olhava para mim e depois de volta para Larissa.
- Tudo bem. Desde que fique bem quietinha. OK?
- OK!

Eu não sabia o que fazer. Pedia licença a Walter e ia falar com Larissa.
- Você tem 30 segundos, Charles.
- OK.
Pegava Larissa pelo braço.
- O que está fazendo aqui? Como sabia que...
- Você me disse que ensaiava nas terças à noite, então lhe segui. Se eu lhe pedisse para me trazer não iria aceitar.
- OK. Agora sente ali e fique quietinha. O maestro é um chato.
- Está bem.

- Pronto Walter.
- OK. Vamos recomeçar.
Então recomeçávamos “But Not For Me”. Aquela música linda do Gershwin George estava assassinada ali naquele arranjo cafona do Walter. A terceira idade merecia algo melhor que aquilo e era bom que Serginho segurasse bem o ritmo, pois eu estava determinado a “quebrar tudo” no meu solo. Os trinta e seis compassos em branco na partitura escrito “solo de trompete” me animavam a chegar até lá. Com Larissa e seu olhar encantado eu me sentia ainda mais confiante com o improviso. Nos compassos que antecediam o solo, podia ouvir Serginho atacar a caixa mais forte no intuito de chamar minha atenção. Eu olhei.
- Quebra tudo que eu seguro. A menina é uma gracinha.
Dizia Serginho parecendo já saber da minha intenção de exibir-me para Larissa. Serginho era um ótimo observador. Sacava tudo.
- Pode deixar.
Então começava meu solo. Serginho ainda olhava para Lúcio do contrabaixo e com um olhar raivoso parecia dizer “segura firme”. E era preciso mesmo, já que eu adiantava, atrasava e às vezes fritava a melodia tema com as notas que me vinham à mente. Feito a Mônica Lisboa lá do Jazz Bar (vide conto “JAZZ” de 25/06/08 nesse blog). Eu dava uma olhadinha para Larissa ali sentada e ela parecia ainda mais maravilhada com minhas “piruetas”.
- Manda, manda.
Dizia Serginho para que eu oitavasse a nota final do solo. E eu oitavava.
- Mandou!
Serginho ria ao tocar.

Findada a música, Walter levava a mão à cabeça e soprava forte. Um silêncio tomava conta do galpão. A orquestra estava à espera do aval do maestro.
- Charles.
- Sim, maestro.
- Tens sorte de tocar aqui.
- Por que diz isso?
- Tive que segurar esse bando com minha batuta porque seu solo o conduzia ao erro. Somos uma orquestra que toca em bailes da terceira idade do Clube dos Líderes, e não um trio do Jazz Bar. A orquestra não se resume a você, ao Serginho e ao Lúcio.
- Maestro, a orquestra segurou muito bem, na minha opinião e...
- COMO ESPERA QUE ALGUMA DAQUELAS VELHAS GORDAS DANCE COM VOCÊ E O SERGINHO FAZENDO CAMBALHOTAS COM O MEU ARRANJO?
- Desculpe, Walter.
- PRESTEM MAIS ATENÇÃO NOS MEUS ARRANJOS. EU NÃO PERCO MINHAS NOITES ESCREVENDO ESSAS PARTITURAS PARA VOCÊS VIREM AQUI E TOCAREM O QUE QUISEREM!
Larissa estava horrorizada.
- Tudo bem, Walter.
Eu concordava com o coração queimando em ódio.

No fim do ensaio, Serginho chegava até a mim.
- Que velho filho de uma puta.
- Deixa. Ele é o dono dessa merda mesmo. É proibido ousar por aqui.
- É mesmo. Mas, mudando de assunto, quem é a pequena?
- Uma amiga.
- Amiga? Sei.
- Sim. Uma amiga. Agora me deixe levá-la daqui.
- OK. Olha...
- Oi.
- Ela se amarrou no solo. Tenho certeza.
Eu ria.

Chegava até Larissa com um ar de derrotado. Tinha certeza de que ela havia admirado minha participação no ensaio, porém, aquela bronca de Walter me deixava cabisbaixo e sem coragem para nada.
- Oi Larissa. Vamos embora daqui.
- Sim, mas vamos porque temos coisas melhores a fazer do que ficar por aqui, só por isso. Você foi brilhante. Está a muitos anos luz à frente dessa orquestra.
- Pode até ser. Mas não gostei de levar uma bronca do Walter na sua frente.
- Charles, a bronca eu nem lembro mais. Lembro somente de quando você se levantou da cadeira e executou o melhor solo de trompete para “But Not For Me” que eu já ouvi.
- Nem o Chet Baker?
- Charles Baker!
Eu ria.

Saíamos dali e fomos direto ao Jazz Bar. Queria mostrar a ela a voz da Mônica Lisboa. Ela se apresentava todas as sextas-feiras com um guitarrista que eu admirava muito também, o Alfredo Ramos. Como se tratava de uma terça-feira, ficamos apenas ouvindo as gravações dos shows dela que rolavam no som ambiente do bar durante os outros dias da semana.
- É. Ela tem uma voz linda, Charles. E “quebra tudo” também.
- Sim. Isso sim. Se eu fosse aqueles coroas largava os bailes do Clube dos Líderes e vinha para cá.
- O seu maestro ia ficar louco.
- E eu sem dinheiro. Melhor deixar como está.
- Isso. Deixa como está, meu amor.
- O que disse?
- Meu amor.
Eu permanecia calado. Após repetir o que disse, Larissa me beijava o rosto. Eu me enganava novamente.

2 comentários:

janu disse...

Estou adorando essa série.
Será que durará um mês como é o tempo de férias de Larissa??
^^

bjus

Fabiana disse...

"Será que durará um mês como é o tempo de férias de Larissa??"

vai virar seriado. rs.

ou um livro, sei lá...


bjo.