quinta-feira, 4 de setembro de 2008

ELES III

De costas para mim e de queixo caído para o palco, Charles se emocionava a cada tema interpretado por Mônica Lisboa. E isso devia se repetir todas as noites. Eu particularmente sempre achei o jazz um pouco chato. Tudo o que ouvi do estilo foi por intermédio de Charles. Não que ele tenha me convidado alguma vez para apreciar algum de suas centenas de discos, graças a Deus, mas como nossas casas são geminadas fica impossível não fazer parte de seus momentos de audição.

Com a mão direita eu alisava a borda de meu copo em movimentos lentos e circulares. Com a esquerda apoiava um queixo entediado e uma cabeça confusa de tanto Charles. Eu olhava ao meu redor e me assustava com tamanha devoção à Mônica por parte do público presente. Ninguém emitia palavra. Eu mal conseguia me concentrar de tanta vontade de falar, mas a minha vontade maior era de ouvir. Ouvir Charles dizer de novo que me amavas.

Estranhava-me. Estaria eu também gostando daquele pedaço de pedra? Sim. Dava-me conta disso à medida que controlava meus impulsos para não agarrá-lo de uma vez. Pedaço de pedra. Pedaço de homem. Pedaço de mau caminho, como dizia minha mãe.
- Charles! Vou ao toalete.
- Sim.
Respondia-me sem desviar o olhar, agora, das mãos do guitarrista. Um tal de Alfredo. Eu me levantava e podia perceber o povo se incomodando com os centésimos de segundos em que meu corpo o impedia de assistir o show. Que loucura aquela gente!

No caminho sofrido até o toalete, uma forte mão me pegava pelo braço.
- Valéria?
Abordava-me com uma voz familiar e baixíssima.
- Oscar?
Eu não podia acreditar. Um velho amigo de infância.
- Quanto tempo, Valéria!
- Pois é. Fugiste de Belo Horizonte?
- Não. Apenas passando as férias por aqui.
- Está na casa de sua mãe?
- Sim. Cheguei hoje pela tarde. Não pude deixar de vir aqui no Jazz Bar. Sabia que encontraria pessoas especiais. Olha a Mônica! Ontem mesmo era uma moleca. A chamávamos de rouxinol, lembra?
A Mônica. Sempre a Mônica.
- Eu não a conheci quando criança. Na verdade é a primeira vez que a vejo. Só ouço falarem muito dela. Deixe-me ir ao toalete. Já volto.
- OK.

Oscar também se encontrava hipnotizado pela voz de Mônica, porém, teve a decência de me cumprimentar. Ato impossível para o idiota do Charles. Oscar parecia ótimo. Sua idade, 31 anos, não se fazia presente em sua aparência. Saiu daqui do Rio de Janeiro com uns 20 anos, mais ou menos, a trabalho. Esse sim, sempre demonstrou interesse por minha pessoa. Chegamos a trocar uns beijos no passado, mas sua mudança para Minas Gerais acabou apagando aquele pequeno feixe de luz.

Em direção à mesa de Charles, com as mãos enfiadas nos bolsos de minha jaqueta, voltava a falar, em voz baixa, lógico, com Oscar.
- Estou com o Charles numa mesa próxima ao balcão.
- Posso sentar-me com vocês?
Eu, por incrível que pareça, ainda queria conversar com Charles a sós, mas tinha de ser educada.
- Claro. Pode sim. Charles também vai gostar de lhe ver.
- Então, no intervalo passo por lá.
- OK.

Chegava à mesa de Charles. Ele sequer notava meu retorno ou questionava minha demora. Eu voltava à posição das mãos. A mão direita na borda do copo e a esquerda no queixo. Mônica então anunciava um intervalo de “vinte minutinhos”.
- Lindo, não?
Perguntava-me Charles, já fora do hipnotismo, aplaudindo.
- Como?
- O show. Não é lindo?
- Ah sim. Lindo demais.
Esperava que não me perguntasse sobre detalhes da apresentação. Não saberia responder nada.
- Onde paramos?
- Como?
- Estávamos conversando, Valéria. Lembra?
- Sim. Mas a Mônica nos interrompeu.
- Você iria responder se sentes vontade de me beijar.
Nossa. Ele conseguia ser mais frio que os petiscos intocados sobre a mesa.
- Como assim, Charles? Você quer que eu retome o clima assim, em segundos?
- Clima?
- Sim. Dependendo de minha resposta, preciso de um clima! Não é assim!
- A sua resposta então é “sim”. Não é?
Meu Deus. Eles são frios demais.
- Charles. Estamos falando de um beijo e não de uma cerveja que você pede logo assim que a banda pára de tocar.
- Bem lembrado! GARÇOM!
Eu não podia acreditar numa cena daquelas. Calava-me e mastigava um petisco com raiva enquanto assistia uma pedra pedindo bebidas. As pedras podem não pensar, mas existem porque pedem bebidas. Charles era a prova viva disso.

- DUAS CERVEJAS, GARÇOM!
Interrompia o pedido de Charles, Oscar.
- Como vai, Charles?
Oscar o cumprimentava.
- Bem. Até o momento de sua chegada.
Respondia um Charles agora mais gelado que a cerveja que estava por vir.
- Charles! Isso é jeito de falar?
Eu tentava consertar a merda.
- Mas o que foi que lhe fiz, meu caro?
Insistia Oscar em tom de deboche.
- Nada, Oscar. Sente-se conosco e conte-nos sua história de sucesso profissional. Estamos ansiosos para ouvi-la. Não é mesmo, Valéria?
Eu não me lembrava da rincha entre os dois. Os beijinhos que Oscar e eu trocamos há mais de uma década pareciam, ainda que não tivéssemos nada um com o outro, perturbar o Charles, que por sua vez, também não tinha nada comigo. Eu permanecia sem ação no meio daquela troca competitiva de olhares. A fim de melhorar o ambiente, eu soltava então a frase mais brilhante que me vinha à mente.
- Sente-se Oscar. Você não cresce mais.
Péssima.

[Continua]

5 comentários:

Fabiana disse...

- Charles. Estamos falando de um beijo e não de uma cerveja que você pede logo assim que a banda pára de tocar.
- Bem lembrado! GARÇOM!

HAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHA

voltando ao comentário...
agora esse tal oscar aparece p atrapalhar a conversa... da próxima vez, ela vai marcar com o charles no ZOO! p ninguém atrapalhar!

vamos ver no que vai dar...
talvez o garçon (das 2 cervejas, lembra?!) deixe o copo cair no oscar... para ele SAIR de cena. rs.

fabiana disse...

não coloquei aspas no "garçon".

fabiola disse...

ahhahaha,ai que vontade de continuar a leitura,ta muito boa a historia nao vejo a hora de ler a continuaçao....bjs ate

Giselly olivetti disse...

Poxa agora sim aquele bundão do Charles vai se tocar, e deixar de ser tão frio, por que vai peder valéria pro Oscar.Ele sentiu um ciúme brabooo quando viu a Oscar...quem diria que um beijo de décadas faria tanta importância, depois de tanto tempo, isso que dá relacionamento mal resolvido. Essas coisas acontecem literalmente com "todos" os homens , sempre tem aquela história sem continuação ...

Estou adorando...continua por favor!!!!

bjus luuuuu..

Anônimo disse...

:O
que vontade de SOCAR o Charlesss!
ainda bem que o Oscar apareceu..
a troca de beijinhos do passado normalmente ajuda no presente...
hahahahaha

ADOOOOOOOORO!

beijoooo
Nathalia- UCAM