quarta-feira, 10 de setembro de 2008

ELES VII - Parte Final

O sábado amanhecia com chuva e eu acordava com o barulho da forte queda d’água sobre a calçada. Havia cinzas dos cigarros da noite anterior por toda a cama. O cheiro de cimento molhado que me tocava as narinas me fazia lembrar do quanto eu gostava daquele clima frio. Vestia uma roupa mais quente e, após o café, resolvia dar um jeito na casa.

Em cada canto que eu olhava havia vestígios de minhas frustrações e derrota. O cartão de Oscar ainda estava sobre a estante, próximo ao telefone. O jarro de flores que eu havia derrubado durante aquele orgasmo juvenil permanecia à minha espera. As roupas que eu pretendia ter posto para lavar continuavam no chão da sala. Eu ligava a TV para com o som da mesma me distrair enquanto limpava aquele ninho. O canal que exibira as cenas que me torturaram mostrava agora um desenho de um pato tagarela bastante divertido. Eu precisava mesmo rir um pouco.

Durante a limpeza, me flagrava algumas vezes precisando de um abraço forte. Pensava nas minhas amigas, mas pensava também em Charles. Mas por que o Charles? Aceitar as desculpas dele seria me reduzir ao pó que eu tirava daqueles móveis. O mesmo disco da noite anterior então começava a tocar na sala de Charles. Era o ápice do meu ódio àquela nossa parede. Eu aumentava o volume da TV a fim de que o pato falasse mais alto que a vitrola de Charles, mas era em vão. O mesmo tom melancólico daquela música voltava a tomar a minha sala. Eu desligava a TV. Esmurrava a parede no intuito de que Charles abaixasse o volume do som. Nada. Batia com o cabo da vassoura. Nada. Na verdade eu achava aquela música linda, porém, ela me fazia lembrar de Charles. Sentava-me exausta no sofá e assim permanecia por uns longos vinte minutos até que aquele lado do disco chegasse ao fim.

* * *

Três semanas se passavam sem que eu visse o rosto de Charles ou tivesse notícias das férias de Oscar aqui no Rio de Janeiro. Isolava-me de todos propositalmente. Eu não tinha o que dizer a Charles e acredito que ele, muito menos, teria algo a me dizer. O único contato que tive como Charles nesse período foi através da mesma música arrastada que ele insistia em colocar na vitrola todos os dias desde aquela sexta-feira. Eu já assimilava toda a melodia e confesso que às vezes até a assobiava pela casa. Sentia vontade de perguntar a ele de quem era aquele disco. Deveria na certa ser do tal Chet Baker. Trompetista em que ele tanto falava e amava. Aos poucos eu era anestesiada por aquelas notas.

Próximo de completar vinte e um dias sem contato com ninguém, a minha porta enfim voltava a soar batidas familiares. Ia atender.
- Oscar?
- Não diga nada. Só vim me despedir de você. Estou voltando para Belo Horizonte e não podia sair daqui sem lhe dar um abraço.
- Claro.
Abraçávamos-nos meio sem jeito, porém, permanecíamos longos segundos grudados.
- Desculpe qualquer coisa, Valéria. Sei que se não fosse por aquele episódio minhas férias teriam sido bem diferente.
- Em que sentido?
- Poderia ter aproveitado mais ao seu lado.
- Já passou. Esquece. Tenha uma boa viagem.
- Obrigado. Eu queria falar com o Charles, pois acho que lhe devo desculpas também. Tenho certeza de que o atrapalhei.
- Olha, não quero falar do Charles. Tudo bem?
- Tudo bem, mas será que ele me atende?
- Vá em frente.
- OK. Fique na paz, Valéria.
- Fique você também.

Da minha sala eu podia escutar as batidas na porta de Charles e chamadas sem resposta. Oscar insistia. Nada de Charles. Então Oscar gritava:
- CHARLES! SEI QUE ESTÁ AÍ! ESTOU VOLTANDO PARA BELO HORIZONTE, MAS ANTES GOSTARIA QUE ACEITASSE MINHAS DESCULPAS! EU NÃO TINHA O DIREITO DE...
A porta de Charles se abria.
- Oscar...
- Charles. Perdoe-me, por favor!
- Não fará a mínima diferença, Oscar.
- Eu sei que não. Ela não está falando com você?
- Não. Faz umas três semanas.
- Ainda gosta dela?
Eu permanecia a escutar tudo grudada à minha porta.
- Entre, Oscar. Vamos conversar. Seu ônibus sai agora?
- Não. Parto somente à noite. Às 23h.
- Então entre.
E eu com a curiosidade inesperada de ouvir a resposta de Charles à pergunta de Oscar. Eu corria para a cozinha e apanhava um copo. Encostava-o de boca para nossa parede geminada com o seu fundo voltado para o meu ouvido. Assim, podia escutar toda a conversa dos dois.

- Bebe alguma coisa? Um vinho? Um whisky?
Charles oferecia uma bebida. Era sinal de que o papo seria longo.
- Sim. Aceito um whisky.
- Ótimo.
Charles começava aquela conversa falando muito baixo. Até parecia saber sobre o meu copo à parede. Oscar falava normalmente. Depois de uns cinco minutos de papo eu começava a entender alguma coisa.
- (...) Eu escrevi isso para Valéria.
Dizia Charles. Eu começava a ouvir o que ele dizia.
- É? E com que intuito?
- Quero que ela sinta o que senti.
Charles parecia falar sobre uma carta que teria escrito para mim.
- Ainda não mostrou a ela?
- Não. Eu a finalizei hoje pela manhã.
- Pode me mostrar?
- Claro.
Não podia acreditar que Charles mostraria a carta que me escrevera ao Oscar? Que ódio! Então aquele disco começava a tocar novamente. A melancolia daquelas notas novamente. Eu permanecia paralisada com aquela música. Pela primeira vez eu a ouvia por completa. Aquele final eu ainda não tinha ouvido. Fundo musical para a leitura de Oscar? Só o Charles mesmo.
- E então? Gostou?
Perguntava Charles.
- Muito boa. Acha que ela vai gostar do que escreveu?
- Espero que sim.
- E quando irá mostrá-la?
- O dia que a coragem me vir.
- Mas você não acha que ela já deve ter ouvido tudo isso?
- Eu até espero que sim!

Eu parava para analisar o fato. Charles havia mostrado a Oscar uma carta que havia me escrito com palavras que eu já teria ouvido de alguém! Mas que idiota! Prova de que eu estava mais que certa em meu isolamento.

Permanecia os escutando.
- Por que não mostra logo isso à Valéria, Charles?
- Ela não irá me receber.
- Como não? Já se passaram três semanas, não é mesmo? Ninguém consegue guardar tanto rancor assim.
- É. Pensando bem, acho que você está certo. Vou lá agora!
- OK. Eu já vou indo. Boa sorte, Charles!
- Obrigado.
- E...
- Diga.
- Desculpe-me pelas palavras daquele dia, sim?
- Está tudo bem, Oscar.
- Amigos?
- Amigos!
Esses homens não prestam mesmo. Não têm vergonha na cara. Estavam amigos. Não dava para acreditar. Oscar logo se despedia de Charles como inseparáveis.

Momentos depois, a “pedra” batia à minha porta e eu o atendia. Charles me aparecia como nunca o tinha visto. Ele vestia um terno muito elegante. Uma cena inimaginável.
- Diga Charles.
- Eu escrevi algo para você.
- Não quero saber de nenhuma carta que venha de você, Charles!
Eu fazia jogo duro, mas morria de curiosidade.
- Mas quem falou em carta?
- Ih... Esquece. Mas, se não escreveu uma carta, então o que foi?
- Uma música.
“Mas como assim?” Eu me perguntava.
- Você escreveu uma música? Para corneta? Não me faça rir, Charles.
Charles, que escondia o trompete nas costas, começava então a tocar aquela música que durante três semanas me paralisava. Meus olhos se enchiam de lágrimas e meu coração disparava de maneira inédita ao entender o significado daquela proeza de Charles, que por sua vez a executara de maneira brilhante. Não parecia aquela “corneta” irritante de sempre. Por isso sempre achei que fosse um disco.
- O que achou?
- Mas... Essa música é sua, Charles? Eu a ouvi tocando na sua casa esses dias todos e...
- Não era disco. Era eu. Eu estava escrevendo-a.
- Mas... Desculpe-me Charles, mas como aprendeu a tocar o trompete tão bem de uma hora para outra? Eu amei essa música.
- Não sei lhe explicar, Valéria. Sei que desde aquela sexta-feira eu venho trabalhando nessa música pensando em você e...
Eu o abraçava forte e colava meus lábios nos dele. O tempo parava e o mundo parecia ser apenas eu e Charles nos beijando frente à minha casa.
- Promete-me uma coisa, Charles?
- O que você quiser, Valéria?
- Sempre que você me decepcionar, escreva uma música.
- Prometo.
Beijávamos-nos mais e mais.
- O que vai fazer agora, Charles?
- Eu pretendia dar um jeito lá em casa. Está tudo uma bagunça e...
- Eu tinha outros planos.
- É? Eu já vi esse filme, Valéria... Na sua casa ou na minha?
Eu o puxava pelo paletó e fechava minha porta sem idéia de que horas voltaria abri-la.

Enquanto rolava pela casa grudada ao corpo flamejante de Charles, eu chegava à conclusão do grau de nossa loucura. Passava a aceitar que nos braços daquele homem o meu destino seria a decepção constante, porém, diante de cada música ou atitude conseqüente de seus arrependimentos ou culpas eu estaria novamente pendente de um orgasmo causado por aquele mutante sentimental. Passava então a amar todos “eles” que habitavam o corpo de Charles. Pedaço de tudo! Pedaço de todos os homens!


[Fim]

5 comentários:

Fabiana disse...

eles ficaram juntos!
ele aprendeu a tocar corneta!
eles ficaram amigos para sempre!eu falei!

que legal!
que legal!



rs.

fabiola disse...

Ai que fofo,S2 é o amor S2
adorei o final....

bjs Lu

Anônimo disse...

ameeeeeeeeeeeeeeeiii!!!
que lindo genteeee!!!
parabéns lucianooooo!
to toda boba... hahahaha

=)

Nathalia- UCAM

Vanessa Sagossi disse...

Olá, Luciano!

Parabéns!!
O conto ficou muito bom mesmo!
Ameii!
xD
Como já havia te dito, ameii a idéia dos 2 lados da visão...

Beijos!!

Aninha disse...

muito bom, mesmo!
mas vo te contar que eu prefiro o Oscar, o Charles pisa muuuito na bola.. mas ela tbm passa amar isso nele, então ta certo!

beeijos, tchauzinho ^^