sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

AMOR DE QUATRO DIAS

As rodoviárias lotadas, as estradas engarrafadas, os expedientes suspensos, o sol forte, os corpos queimados, os suores, a euforia, os anúncios, as praias, os turistas, os blocos, as correrias, as despedidas, os reencontros, os planos... Tudo ao mesmo tempo. Era o início de mais um Carnaval.

Longe de todo esse tumulto, meu bairro se preparava para tal festividade. O palco já se encontrava montado desde a segunda-feira anterior; um palco pequeno como o próprio bairro. Ali, por enquanto, apenas as crianças, que corriam e brincavam sobre um tablado já gasto de outros eventos.

Na sexta-feira, a praça, já enfeitada – nunca a vira tão colorida –, acomodava um público local já contagiado por toda aquela ornamentação. Aquele Carnaval, todos os anos, fazia a alegria daqueles que, por força maior ou por escolha mesmo, não se deslocavam para a Região Oceânica. Fazer o quê? Eu, como nunca tive tal destino, fazia do Carnaval do meu bairro o meu Carnaval. Eu não gostava de agitação, mas me sentia bem a observar os foliões. Tudo o que eu queria era tomar algo gelado, me sentar e observar. Somente.

Logo no primeiro dia de atrações, sábado, tive a sorte de, antes mesmo da noite cair por completa, me deparar com uma figura cativante e animadora. A princípio, enxergava um palhaço, que brincava com as crianças e espirrava água nos rostos alheios. Em poucos minutos, um volume enorme de crianças seguia aquele ser de andar propositalmente engraçado. Um verdadeiro "barato".

Eu, sentado numa mesa a admirar não apenas o brincar daquele palhaço, mas também o lindo e quente anoitecer, sentia em mim uma gota de inveja. Inveja por não ter a ideia daquele palhaço. Devia ser legal demais causar tanta alegria como ele.

O palhaço se aproximava de minha mesa; as crianças também. A cada passo à minha direção, notava que...

- Mas não pode ser – eu dizia a mim mesmo.

Não era um palhaço. E sim, uma palhaça! E linda! Ela brincava com a minha cara de desânimo. Fazia gestos para as crianças como se tentasse espantar minha aparente depressão Carnavalesca. Ela não dizia palavra; era ótima nas mímicas. Como se puxasse suposta tristeza de minha cabeça, ela gesticulava com as mãos bem próximas à minha testa. As crianças riam e eu também.

Eu olhava fixamente nos olhos daquela mulher. Dentro de mim, surgia a impressão de conhecê-la. Enganava-me. No fundo dos meus arquivos cerebrais não me vinha ninguém com aquelas características. Cabelo, rosto. Ela não usava máscara, apenas um nariz vermelho e maquiagem. Seria fácil reconhecer qualquer folião numa fantasia como aquela.

Ela e as crianças davam voltas e mais voltas naquela praça e, por muitas vezes, paravam na minha mesa aparentemente melancólica. Ela fazia mímica representando insatisfação em relação à minha pose – estava sempre sentado. Com um braço apoiando o queixo, eu sorria. Queria demonstrá-la que não estava triste, mas apenas observando a alegria alheia. Ela, por sua vez, fazia cara de zangada.

Depois de passar pela minha mesa por mais de sete vezes, se não me engano, eu a pegava pelo braço:

- Quando termina o seu turno?

E pela primeira ela vez emitia palavra:

- Não entendi.

Sua voz era doce e juvenil.

- Quero saber a que horas terminará com as crianças.

- Ora, é Carnaval. Sei lá que horas. Por quê?

- Não quer conversar?

- Ah, não tem cabimento um palhaço se sentar à mesa para “conversar”.

- E o que os palhaços fazem, além de nos tirar sorrisos?

- Brincam, pulam, dançam... Se quiser me acompanhar...

- Não. Prefiro ficar por aqui mesmo.

- Você é quem sabe.

E se foi.

No segundo dia de Carnaval, lá estava ela novamente. As crianças – as mesmas do sábado – pareciam esperar por aquele momento. Corriam em direção àquela alegria em forma de palhaço e recomeçavam, então, toda a brincadeira.

Eu, na mesma mesa, obtinha a mesma felicidade daquelas crianças. Eu olhava para o relógio a fim de marcar a hora certa de sua aparição – seis da tarde. Outro belíssimo fim de tarde. Ao som de marchinhas empoeiradas, a alegria pedia passagem.

Como no sábado, aquela mulher novamente chegava até a mim. As crianças já sabiam o itinerário daquela brincadeira. Ela não daria sequer uma volta naquela praça sem que antes passasse à minha mesa e fizesse algumas gracinhas. Eu lhe emitia o mesmo sorriso, porém, desta vez, um sorriso enamorado. E ela sorria de volta. Naquele dia, ela resolvia unir a fala às mímicas.

- Olhem que moço triste! Será que hoje eu consigo o colocar para pular?

- Sim! – dizia a criançada.

- Será que ele vai sair desta mesa?

- Sim!

Daí, ela chegava bem perto de meu ouvido e:

- Se você der uma única voltinha conosco, converso com você após a sétima volta.

- Fala sério?

- Palavra.

- E palhaço lá tem palavra?

- Palavra de mulher, então!

- Fechado.

Eu levantava e, com minha latinha de cerveja à mão, seguia com um bando de crianças barulhentas e um palhaço cativante. Ela me rodeava a jogar serpentinas e confetes sobre mim. Era impossível não se contagiar. Sem perceber, completava mais de oito voltas com eles.

Antes da nona:

- Cumpri mais que o prometido – eu dizia.

- Sinal que foi bom!

- Sim. Foi. Mas falta você cumprir a sua parte.

- É. Você tem razão.

Ela se despedia de uma criançada já morta de cansaço e se sentava comigo

- Bebe algo? – eu perguntava.

- Água.

- OK.

Eu pedia uma água para ela.

- Vejo o quanto gosta de Carnaval – eu dizia.

- Eu amo.

Ali começava uma rotina que se repetiria pelos outros dois dias restantes do Carnaval: Às seis horas ela chegava; brincava com as crianças até umas oito e meia e, depois, já esgotada, se sentava comigo. Conversávamos muito e, no meio de tantos assuntos, me via sem espaço para dizer que estava de fato apaixonado. Fazia apelos para ver o seu rosto sem maquiagem, mas recebia como resposta “um dia, quem sabe?”.

O prefeito de nossa cidade já informara que, em todos os bairros, os eventos carnavalescos teriam o seu fim à meia-noite de terça para a quarta-feira. Após esse horário, os mascarados deveriam se revelar. Caso contrário, a polícia teria carta branca para agir.

- Mas eu não uso máscara – dizia ela.

- Eu sei, mas essa maquiagem é um tipo de máscara.

- O máximo que tirarei será o nariz. Apenas o nariz.

- Mas por quê? Hoje já é terça de Carnaval e não sei sequer o seu nome. Eu preciso dizer que...

- Diga.

- Dizer que eu acho que estou te amando!

- Não me amas. Amas uma fantasia.

- Não! Amo você! Amo a mulher que conversa comigo após a folia!

- Mas quem conversa contigo não sou eu, mas minha fantasia.

- Então, quer me dizer que mentes?

- Não exatamente.

- Quero lhe ver na quarta-feira! Sem fantasia! Aqui, em frente a este poste, às seis da tarde!

- Como quiser.

Após tal frase, ela corria em direção à multidão. Eu a perdia de vista.

Na quarta-feira de cinzas, como combinado, às seis da tarde, em frente aquele poste, eu a esperava. Pontualmente, ela aparecia. Demorava a aceitar que era a mesma mulher que durante todo o Carnaval se vestia de palhaço. Com um semblante sério, tão sério que me assustava, ela:

- Oi.

- Oi. É você mesmo?

- Claro que sim. Marcamos, não foi?

- Mas é que me parece tão...

- Tão?

- Diferente. Tão séria.

- Eu disse... Você está apaixonado por uma fantasia. Eu não sou aquilo. Eu aproveito o Carnaval para incorporar uma pessoa que eu não sou.

- Sim, mas foi capaz de me causar sentimento tão profundo que...

- Que o quê?

- Que eu sugiro que seja palhaço todo o tempo.

- Que piada.

- Não precisa de um nariz e de uma maquiagem para dar um sorriso.

- Preciso. E preciso até mais do que isso.

- Então, precisa de quê?

- De alguém que me ame como eu realmente sou.

- Mostre-me quem realmente você é e eu lhe direciono o meu amor. Que tal?

Nosso romance não deu certo. Ela era uma mulher cheia de manias, paranóias... Era pessimista, rancorosa. O extremo oposto daquela figura circense que encontrei nos dias de Carnaval. Nós nos afastamos naturalmente. Porém, decidimos que namoraríamos seriamente nos próximos Carnavais.

Há mais de uma década, quatro dias por ano, a gente vive um amor inesquecível.

* * *
Foto da Capa: Fabiana Romeo.

8 comentários:

Nathalia Costa disse...

ooowwnnn que fofo!!!
poxa que pena que ela se mostrou tão diferente...


Sabe o que é curioso?
Eu nunca tive um amor de carnaval, nem um beijo de carnaval e nem nada de carnaval!

bom...
beijos que eu vou pra terapia!
hahahahahahahaha

Luciano Freitas disse...

HUAUHAHUAUHAHUAUHAHUA

J. Besouro disse...

Fantastico esse conto, realmente muito bom...muito bom mesmo.
Vc esta cada vez melhor.

Nossa, dizer que tá bem 'a vida como ela é' foi o melhor elogio que alguém possa ter feito a respeito dos meus contos.
Fico realmente lisongeado, até pq Nelson Rodrigues é um grande ídolo que tenho...Brigadão mesmo!

www.casadobesouro.blogspot.com

Dayanna Louback; disse...

' Há mais de uma década, quatro dias por ano, eu vivo um amor inesquecível. '

quee namooro PERFEITO! ficar só quatro dias namorando é maara; oeioeieoie'

adorei o coonto luuh
;*

Lucas Moratelli disse...

"Vc esta cada vez melhor" [2]

Adorei!
O fim foi bastante inusitado, maravilhoso!

E a capa está perfeita!

Abraço Luciano.

Anônimo disse...

Você captou de forma bastante sensível a "fantasia" do carnaval. Sábio narrador que é capaz de discernir a fantasia e a realidade...
Parabéns!

Denilson Botelho

Rα i sα ~ disse...

Nosso romance não deu certo.

Vocês dão certo ... quatro dias todos os anos há mais de uma década. Pra sempre não precisa ser necessariamente todos os dias. Não é?

Vanessa Sagossi disse...

Isso é que é romance de carnaval! :)