quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

LEMBRETE

Eu olhava pela janela. Tudo lá fora estava normal, como em toda manhã de domingo. As senhoras com suas bolsas de feira, os senhores lavando ou polindo seus automóveis e nem sinal da juventude local, que devia estar dormindo por ter chegado em casa lá pelas tantas da madrugada.

Bem, tudo lá fora podia estar na mais perfeita normalidade, mas aqui em casa não. O dia amanhecia diferente. Era um dia especial. Era o meu aniversário! Tudo bem, vai, aniversário no domingo eu nunca gostei, mas pelo menos era fim de semana.

Eu estava disposto. Sentia-me um jovem de quinze anos, mesmo completando trinta e seis. Eu passava uma flanela no telefone. Estava meio empoeirado. Tudo indicava que eu o atenderia várias vezes durante todo o dia.

Eu separava cinquenta cascos de cerveja e, indo até o depósito de bebidas, pensava em trazer também uns vinte litros de refrigerante. Achava ser o suficiente para a turma que eu esperava.

Os CDs! Separava também os CDs para tocar durante a festa. Para impressionar a Débora, escolhia os de Jazz para tocar primeiro. Isso me daria um ar de intelectual, apesar de não conhecer nenhum daqueles artistas – aqueles álbuns eram todos dos meus falecidos pais.

Cinco da tarde. Bebidas no freezer, salgados encomendados e uma camisa nova. Não avisara a ninguém, mas tinha dentro de mim a idéia de que meus amigos me ligariam e apareceriam. O sol ainda estava quente lá fora, o que me fazia crer que somente mais tarde os primeiros toques à campainha seriam dados. O primeiro CD já rodava. Um tal de Herbie Hancock. Até que me soava bem.

Eu abria as cortinas da sala a fim de ver o movimento na rua. Já não havia mais ninguém. Deviam estar vendo algum jogo do campeonato estadual de futebol ou um daqueles programas dominicais de auditório. Eu aumentava o Herbie e já bebia a primeira cerveja.

Eu sentava no sofá e ficava me olhando naquele grande espelho da minha sala. Perguntava-me “será que estou bem com essa camisa?” Tudo para causar uma boa impressão em Débora. Ela chegaria logo, eu pensava.

A campainha tocava. “Opa!” Eu ia atender. Com um sorriso no rosto eu abria a porta rapidamente.
- Os seus salgados, senhor.
Dizia-me o entregador, para a minha decepção..
- Ah! Sim! Claro!
- São 500 salgados. São setenta e cinco reais.
- Sim. Vou pegar.

Seis e meia da tarde. Os salgados ainda estavam bem quentinhos. Aquelas caixas de papelão forradas de papel alumínio funcionavam mesmo. Eu comia. E bebia mais cerveja.

Impaciente com o Herbie e seu piano, eu trocava o CD por um dos Ramones. Eu sei, uma mudança radical, mas é que a demora de meus amigos começava a me deixar aflito e com vontade de ouvir algo mais energético.

A tarde caiu, a noite chegou e o telefone não tocou sequer uma vez. A campainha, sim, tocou, quando os salgados chegaram. Pensava na normalidade que eu presenciara na rua, pela manhã, e constatava que dentro de minha casa a coisa estava ainda mais mórbida. A geladeira, o aparelho de som e eu, preparados para tudo e envolvidos pelo nada. Nem mesmo Débora foi capaz de me telefonar.

A cerveja já descia mal. Dez e quarenta e cinco da noite e eu, desolado, já assistia TV. Aquela música de encerramento do Fantástico já me causava calafrios. Naquele dia, me causou pânico.

O teste fora feito. Era fato. Ninguém lembrou de meu aniversário. Ninguém! Os salgados foram a minha janta por longas semanas.

Na segunda-feira, chegando no escritório, eu avistava uma foto minha, junto com as de mais uns sete funcionários. Acima delas, uma tipografia – já batida e sem graça – em fontes coloridas dizia: “Aniversariantes do Mês”. Aquilo me gerou saudades. Saudades do domingo, pois aquele quadro de fotos conseguia ser ainda mais deprimente que meu dia anterior. Eu não recebi nenhum “feliz aniversário”, apesar daquele lembrete tão... autêntico.

3 comentários:

Fabi disse...

feliz aniversário, moço!
tudo de bom visse?!


falando sério agora...
aing!

Nathalia disse...

poxa... tadinho!
=/

mas e o salgadinhos, estavam gostosos? haha

FELIZ ANIVERSÁRIO!!!

hahaha

Aninha disse...

coitado do moço, fiquei triste por ele.

muito belo conto.