segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

OCÊ

Éramos duas crianças, é verdade. Eu tinha meus dez e Ana Alice seus nove anos, talvez, quando nos conhecemos. Quando estávamos juntos, brincávamos de muita coisa, e melhor: sem precisar de nenhum daqueles meus brinquedos sofisticados que na capital deixava. Ana Alice era vizinha de meus avós maternos, que moravam no interior do estado. Por causa da distância, somente nos víamos nas férias de janeiro, quando eu – por ordens severas de meus avós –, tinha de passar pelo menos uma semana por lá. O que eu adorava, é claro.

O fato é que os mimos que eu recebia de meus avós não eram o que de melhor aquele lugar possuía. É bem verdade que a maior motivação vinha da ideia de estar com Ana Alice, porque ela era a amiga mais diferente que eu tinha. Eu ria de seu sotaque e achava muito interessante a forma como ela, mesmo no meio do mato e sem muitas crianças para brincar, se mostrava uma pessoa tão feliz, tão para cima.

Lembro de quando eu chegava à casa dos meus avós, geralmente na segunda semana de janeiro. Meus pais me deixavam por lá logo pela manhã. Vovô Charles, Vovó Jacira e Ana Alice me esperavam naquele portão ranheta de madeira – Ana Alice era sempre avisada por meus avós quando eu estava de chegada. Ana Alice, com um sorriso imenso no rosto, era a primeira a me abraçar, para nítida comoção dos adultos.

Ana Alice tinha os cabelinhos em cachos tão loirinhos que se confundiam perto das flores amarelas do quintal. Seus vestidos floridos, feitos com muito bom gosto por sua mãe, ajudavam muito na beleza daquela criança. Ana Alice tinha os olhinhos levemente puxados e verdes, como o lago ali de perto. As manchinhas que ela tinha pelo rosto e um pouco abaixo do pescoço se davam por causa das frutas que consumia, já que muitas das poupas ou dos caldos reagiam na pele sob o sol. Com os dentes sempre muito branquinhos, Ana Alice sorrindo era de encher qualquer peito da mais pura esperança, seja lá em quê.

Um abraço. Era um abraço apertado que Ana Alice me dava sempre que eu chegava à casa de meus avós – e sempre que me despedia também. “Que saudade de ocê, Anderson”, ela dizia com o sotaque engraçadinho de sempre e com a sinceridade a lhe escorrer dos poros. Eu recebia então um abraço menos caloroso mas não menos sincero de meus avós, enquanto Ana Alice falava com meus pais. “Tudo bom com ocês?”. Meus pais a beijavam e a cumprimentavam. Era como se Ana Alice já fosse da família.

Enquanto eu estava por lá, as refeições de Ana Alice eram todas feitas na casa de meus avós, que faziam questão disso, diante daquela amizade tão forte entre ela e eu. Era bonito de se ver.

Aquela sagrada semana era sempre regada a muitas brincadeiras, como eu já disse, mas também a muita conversa. Á tardinha, enquanto minha avó preparava o jantar, Ana Alice e eu, ambos cansados de tanto brincar e já de banho tomado, sentávamos num banquinho de madeira nos fundos da casa e conversávamos por horas. Ela costumava a me perguntar muito sobre a vida na capital.

- Lá tem aqueles prédios compridos igual se vê na novela? – ela me perguntava.

- Sim. São enormes. Meu pai trabalha em um que tem trinta e cinco andares!

- Nossa mãe! E ocê já foi lá no altão?

- Já. O andar do meu pai é o último.

- E ocê num tem medo de cair de lá de cima não?

Eu ria sempre quando tinha de explicar alguma coisa desse tipo à Ana Alice. Talvez porque a inocência dela e as risadas que ela dava de seu próprio desconhecimento me cativavam muito. Era um grande barato conversar com ela.

Mas não era apenas Ana Alice que tinha perguntas por ali. Eu não sabia quase nada sobre o campo. E confesso que as descobertas feitas por mim eram muito mais valiosas que as dela. A vida na cidade, por mais recursos que tivéssemos, me parecia chata quando estava perto dela, perto das experiências de vida dela.

Todos os dias, depois do café da manhã, quando o sol já mostrava um pouco do seu poder, Ana Alice costumava me chamar para tomar banho no rio ou no lago. Em meio às recomendações de meus avós, uma era bem interessante: “Anderson, não fique longe de Ana Alice, hein”. Parecia um pedido para que eu tomasse conta dela, mas era exatamente o contrário. Meus avós sabiam o quanto Ana Alice nadava e conhecia cada corrente daquelas águas.

Chegando no rio, Ana Alice tirava o vestido e, somente de calcinha, mergulhava. Embora fôssemos apenas duas crianças, eu me encabulava em ter de tirar a roupa. Ana Alice não ligava, não via mal algum em tomar banho no rio apenas de calcinha. Mas na certa eu estava impregnado de todos aqueles valores da capital; tomava banho de bermuda mesmo.

O tempo foi passando e nossa amizade só aumentou. Todo ano era a mesma coisa. A chegada, o café da manhã com Ana Alice, o banho de rio, as brincadeiras que ela me apresentava, os longos papos e questionamentos nos fundos da casa até altas horas...

Mas uma coisa havia mudado. Eu, já com meus quatorze anos, passei a enxergar em Ana Alice uma boca a ser beijada. Já havia notado naquele ano que Ana Alice não mais tomava banho no rio apenas de calcinha. O que era lógico, já que no lugar daquele corpo de criança havia a formação de um pequeno par de seios. Os vestidos floridos de Ana Alice já mostravam curvas antes inexistentes.

Na minha classe todos os meninos já haviam beijado, menos eu. Não sei por que, mas sentia que seria nos lábios de Ana Alice que constataria o verdadeiro sabor daquilo que tanto treinara frente ao espelho.

Numa tarde, nos fundos da casa de meus avós, como sempre, conversávamos. Isso! Eu já tinha os meus quatorze e Ana Alice os seus treze anos. Então, num daqueles questionamentos de Ana Alice:

- Ocê tem muitos amigos lá, num é? – ela me perguntava.

- Sim, tenho bastante. E você por aqui?

- Alguns. Mas eles moram longe daqui. Só vejo no colégio.

- Entendi.

- Ocê tem amigas também?

- Sim, claro que tenho.

- Elas são bonitas?

- Sim, algumas.

- Eu sou bonita, Anderson?

- Claro que é! Muito bonita até!

- Ninguém nunca me chamou de bonita.

- Eu estou chamando. Você é muito bonita. Sempre foi.

- Brigada – ela dizia sem graça.

Eu poderia dar o assunto por encerrado naquele momento, mas a minha vontade incontrolável de beijar, ou melhor: de ter o que contar aos meus amigos na volta às aulas fez com que eu a convidasse para um banho no rio.

- Mas agora, Anderson? – ela questionava.

- O que tem? Ainda está claro. Vamos?

- Ai, num sei, Anderson.

Foi quando, tomado por uma coragem inédita, a puxei pelo braço em direção ao rio.

Não sei o que deu em mim, mas, ao chegar sob o imenso pé de manga – onde costumávamos trocar de roupa –, puxei-a pela cintura indo de encontro com seus lábios. Ali se dava o nosso primeiro beijo – Ana Alice, logo após o “transe”, me confessava jamais ter beijado alguém antes.

Tomados por aquela sensação inexplicável do primeiro beijo, Ana Alice e eu resolvíamos dar um mergulho. “Seus avós num vão gostar de nos ver molhados a essa hora, Anderson”, ela dizia.

- Besteira, Ana! Vamos! Só um mergulho!

- Tá bão! Só um mergulho e voltamos!

Ana Alice, como já fizera outras vezes, não tirou o sutiã. Mas não tinha problema para mim. Mergulhamos, nadamos e nos beijamos várias vezes. Esquecemos da hora. Já estava escuro quando resolvi que daríamos um último mergulho. “Vamu embora, Anderson”, ela insistia, mas consegui convencê-la a dar mais um mergulho.

Eu mergulhei primeiro e a chamei. Ela então mergulhava, mas eu, completamente errado, mudei minha posição no rio em relação à Ana Alice. Foi quando senti sua cabeça acertando em cheio o meu joelho, que se encontrava levemente erguido. A corrente levou o corpo desmaiado de Ana Alice até que não mais a vi. Ainda tentei nadar em direção à Ana Alice, mas a força da corrente me assustou muito e resolvi não mais buscá-la.

Com muito medo das consequencias, não contei a história real a ninguém, nem aos meus avós e nem aos meus pais. O corpo inchado de Ana Alice foi encontrado somente dois dias depois e a quilômetros dali.

Somente voltei à casa de meus avós quando tinha meus vinte e dois anos. Foi estranho como tudo naquele lugar me lembrava Ana Alice. Senti que tudo ali perdera o sentido depois daquela tragédia.

Fui então até o rio onde o primeiro beijo e a perda eterna ocorrera num só instante. Ao chegar sob o mesmo pé de manga, tudo veio à tona. O cheiro do mato e o barulho das águas daquele rio faziam com que Ana Alice se materializasse bem à minha frente, só que crescida – uma mulher linda vestida em flores, como sempre.

Com saudades e lágrimas, eu beijava o vento.

8 comentários:

Nathalia Costa disse...

aaaaaaaaaaaaaaaaaaah, que tragédia!
gostei do cotno mas n do final - culpa das novelas da globo!

Livia Queiroz disse...

Aaaaaaaaaaaaaff ki triste!!!!
Que final hein??
Mas nem tudo termina bem mesmo!

Bjaum

Fabi Romeo disse...

oxi que ocê fez um conto pra la de bom, sô!
só o final que podia de ser um cadin mais feliz, né?!

parabéns, lu
grande beijo procê!

Kayo Medeiros disse...

Finalmente, SAAAAAAAANGUEEEEEEEEEEE!!!!!! =)

Muito bom!

Isso aí, essas meninas tão muito mal acostumadas! XP

Luciano Freitas disse...

Poxa, a galera só quer final de Sessão da Tarde? rs

Vanessa Sagossi disse...

Que triste!
Não é final de sessão da tarde que quermos. É que todas as vezes que o personagem é legal e inocente. Buft: morre!!! Isso é tristee!
Quando eles são uns bobões eles ficam bem.

Luciano Freitas disse...

OK! Então, espero que curtam o conto de quinta-feira, pois, a pedido de uma amiga aqui do blog, fiz a continuação de um antiiiiiiigo conto, "Conflitos de Caroline".

O final desse é... ah, vocês vão ler! rs

Se quiserem refrescar a memória: http://bit.ly/7FTG9I

Aninha disse...

Poxa, tava tudo indo tão bem, que trágico isso :(