quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A SOLUÇÃO

“Daqui eu não passo”, disse a si mesmo com os pés no peitoril do vigésimo oitavo andar, no prédio onde morava. Ventava muito lá em cima, o que fazia com que o corpo de Vanderlei balançasse levemente para frente e para trás. Com a camisa de botão aberta e o peito a receber o beijo convidativo à morte, Vanderlei evitava olhar para baixo, mas conseguia avistar o grande movimento da praia ali próximo.

O amontoado de gente sobre aquela areia brilhosa comemorava o auge da estação mais esperada do ano, mas não tinha a noção de que, logo ali, no alto de um luxuoso edifício, havia um homem mergulhado num total desespero, numa espécie de lama pegajosa, que o impedia de emergir.

“Espero me esfacelar durante a queda”, pensava Vanderlei. O jovem esperava que o vento o fizesse em pedaços antes mesmo que seu corpo já inútil tocasse o asfalto quente. Seus pés tentavam encontrar posição mais confortável, de equilíbrio, mas o vento parecia querer encerrar de vez aquela história – soprava mais forte ainda.

As lágrimas de Vanderlei corriam pelo ar e caíam sabe Deus onde, mas o fato é que elas se faziam presentes em quantidades cada vez maiores. As cores que vinham da areia da praia, do mar e dos edifícios vizinhos começavam a se misturar na visão amedrontada de Vanderlei. Por um segundo se viu arrependido de estar ali, de estar prestes a cometer um suicídio estúpido. Mas Vanderlei fechou os olhos e sua visão então voltava ao normal.

Foi quando Vitória, sua irmã adotiva, abriu a porta do apartamento e avistou Vanderlei sobre o peitoril.

- VANDERLEI, SAIA DAÍ, PELO AMOR DE DEUS!

Vitória correu até a janela sem sequer prever que tal atitude pudesse assustá-lo e derrubá-lo de vez. Mas, magrinha e leve como uma pena, a menina conseguiu chegar aos pés Do irmão a tempo.

- O que está acontecendo, meu irmão? – perguntava Vitória tentando acalmá-lo; não tinha a menor noção do que ocorria.

- Deixe-me ir, Vitória!

- Desça daí, meu irmão, e vamos conversar.

Se havia alguém capaz de convencê-lo de qualquer coisa, esse alguém era Vitória. Com um pouco mais de cinco anos entre os dois – Vanderlei tinha vinte e cinco e Vitória completaria vinte naquele ano –, aqueles irmãos de pais diferentes se amavam muito.

Vanderlei tinha apenas doze anos quando Vitória fora adotada por seus pais. Nos primeiros dias a convivência fora difícil, já que Vitória, por ser menina, arrancava carinhos excessivos de sua mãe, o que lhe causava um pouco de ciúme. Mas com o passar do tempo Vanderlei aprendeu a amá-la. E a amou como jamais amou seus próprios pais, inclusive.

Andar com Vitória para cima e para baixo se tornava para Vanderlei praticamente uma obrigação. E quem não gostaria de exibir por aí uma irmã tão linda e graciosa como Vitória, que sempre foi uma criança linda, mas foi no desabrochar da juventude que sua beleza se mostrou de forma rara.

Vitória tinha os olhos da esperança, grandes e amendoados. A pele morena fazia de Vitória um exemplo vivo do poder do verão carioca. Os seus cabelos longos, cacheados e volumosos deixavam das costas à mostra apenas a cintura, que, sozinha, de tão fina e delicada, era um convite à paixão – à perdição, melhor dizendo.

- O que foi que houve, meu irmão? – dizia Vitória ao colocá-lo sobre o sofá.

- Você não entenderia, Vitória. É algo que, de tão complexo, não merece explicação alguma.

- Você ia se matar, Vanderlei! Isso me preocupa! Quero saber, sim, o que está acontecendo! Que fique entre nós, papai e mamãe jamais saberão disso, mas se abra comigo, por favor, meu irmão!

- Contar a você não ajudará em nada, Vitória, acredite, só vai piorar as coisas.

- Então não confia mais em mim como antes? Sempre contou tudo a mim, Vanderlei, sempre! Por que isso agora? Vou começar a achar que tenho algo a ver com tudo isso que presenciei!

- E tem!

Vitória gelou. O fato é que jamais imaginou estar envolvida numa tentativa de suicídio, muito menos a do próprio irmão. De tão nervosa que ficou, diante da afirmação de Vanderlei, a menina sequer pensou no que poderia ser.

- Agora, mais do que nunca, tenho o direito de saber, Vanderlei! Vamos! Conte o que está havendo? Foi algo que eu fiz?

- Não... Na verdade você não fez nada demais... Eu fiz!

- Não estou entendendo, Vanderlei. Seja mais claro, por favor.

Vanderlei emudeceu por longos dois minutos. Até que:

- É difícil dizer isso, mas... Eu estou apaixonado por você, Vitória!

- Não acredito... – dizia Vitória a levantar e a zanzar frente ao irmão, que tentava se explicar.

- Isso começou faz alguns meses, Vitória, e eu não consigo me perdoar por isso, entende? É como se eu quisesse me livrar de uma droga que todo instante estivesse bem próxima a mim. É claro que eu não queria que fosse assim, mas não estou sabendo conviver com isso!

- Você é meu irmão, Vanderlei! Pelo menos deveríamos considerar assim.

- E eu considero, Vitória, sempre considerei! É exatamente pelo fato de não aceitar essa paixão que resolvi não viver mais... Acha que é fácil? Eu não escolhi isso, Vitória!

- OK... Acho que entendo... – dizia Vitória bastante atordoada – Eu vou tomar um banho e... – continuava a passar a mão sobre a cabeça, sem saber para onde olhar – É isso... vou tomar um banho... E você... Fique aí quietinho, OK? Não vá para a janela. Promete?

- Prometo – dizia um Vanderlei mais calmo e, talvez, mais aliviado.

Enquanto a água lhe caía sobre o corpo virgem, Vitória pensava sem parar nas palavras de Vanderlei. Simultaneamente as lembranças de uma infância e adolescência cobertas pelo carinho quase paterno de Vanderlei lhe tomavam a mente. Passava então a analisar friamente o fato. “Sairei deste banho com uma solução”, objetivava Vitória, apesar de sua verdadeira vontade ser a de jamais sair daquele box.

Longos minutos depois, Vitória aparecia na sala e se deparava com Vanderlei na mesma posição que o deixara: cabisbaixo.

- Vanderlei. Acho que tenho uma solução para esse caso.

- Esse caso não tem solução, Vitória, mas de qualquer forma... No que pensou?

Vitória então, com seus cachos ainda molhados do demorado banho, lhe apresenta o resultado dos intermináveis minutos de análise. Levantava o rosto de Vanderlei e lhe alcançava os lábios num misto de timidez e medo.

- Por que me beijou, Vitória? – dizia Vanderlei a disfarçar um tesão que há muito fugira de seu controle.

- Vamos ver no que dá, Vanderlei. Não será fácil mudar a essência do meu amor por ti. Mas, nesse caso, antes viver um amor “proibido” a vê-lo morto.

8 comentários:

Kayo Medeiros disse...

Suicídio, belas mulheres, QUASE incesto, virgindade e uma alta possibilidade de SAAAAAANGUEEEEEEEEEEEEEE. Coloca umas armas e carros em alta velocidade que você ganha um filme de ação. ;)

Moito bom! Como sempre. ^^

Nathalia disse...

vitória danadinha! haha
por um minuto pensei q ela fosse se suicidar...

mto fofo!
adorei!

Fabiana disse...

ótimo conto! parabéns!

Luciano Freitas disse...

A Nath sempre tem o "por um minuto pensei que..." dela!

Obrigado pela leitura, pessoal!

Aninha disse...

Nossa, que solução que ela arranjou hein..

bjo

ALIMAC disse...

Pois é... Quem nunca pensou em se matar, por um motivo passional?

Vanessa Sagossi disse...

Ah, meniniha fofa?? Não. Ela também devia estar apaixonada...

Vanessa Sagossi disse...

Ah, meniniha fofa?? Não. Ela também devia estar apaixonada...