quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

VALIOSO INSTANTE

Abriu a janela com a vontade equivalente a um verão inteiro. Esperava vê-lo de pé, sob aquele sol escaldante, a pele morena daquele rapaz. Mas tudo o que via era um amontoado de nuvens que tratava de dar um tom acinzentado àquele ponto de ônibus frente a sua casa. Sônia desfazia então o sorriso ao se colocar na dúvida. Teria o moreno já seguido seu destino? Recostou os pequenos seios sobre o peitoril e resolveu esperar.

O cheiro era o da chuva que se aproximava. Um forte vento levantava a franja negra da jovem, que, com o queixo apoiado sobre as mãos, sonhava com os olhos do rapaz. Sônia se mantinha à espera porque sabia que o horário da condução era cumprida diariamente com pontualidade. Mas, diferente dos outros dias, aquele ônibus passava sem frear nem nada.

Sônia daria tudo para ver aquele sorriso, que, entre outros sinais, parecia ser a porta para a felicidade. Os dois trocavam olhares havia duas semanas. O jeito encabulado da jovem parecia atrair cada vez mais as atitudes daquele moreno em demonstrar certo interesse. Entre os dois, apenas uma rua de mão única, mas que mais parecia o Mar Vermelho – tamanha era a vontade mútua de uma aproximação.

Naquele dia tudo indicava que o flerte daria uma pequena pausa. Sônia, sem entender muito bem o porquê, sentia uma pontinha de preocupação. O que causara a ausência daquele moreno? Uma doença, talvez? Mas depois de alguns minutos Sônia preferiu não pensar mais em possíveis motivos. Fechou a janela e tratou de ligar a TV.

As férias de Sônia na escola ocasionavam sempre em boas sensações. Jogada no sofá, a jovem se lembrava de seu primeiro beijo em pleno 3 de janeiro, um ano antes. Lembrava também do curso de teatro que fizera num fevereiro distante, no qual sonhava ensaiar beijos calorosos em uma de suas paixonites da época.

- Tola – dizia a si mesma. Talvez por pensar que nenhum beijo, nem mesmo o primeiro, seria melhor que aquele que já pressentia receber.

No dia seguinte, como vinha fazendo, Sônia abria a janela; dessa vez ainda com mais vontade que no dia anterior. Para sua surpresa, o rapaz trazia ao seu lado, de mãos dadas, uma moça muito bonita.

- Ah!? – assustava-se Sônia.

Sônia não conseguia assimilar o que seus olhos lhe mostravam. Chegou a fechar a janela e abri-la novamente, a fim de constatar um possível pesadelo, ou uma ilusão de ótica. Mas lá estava o par na mesma posição a esperar o ônibus.

- Mas que pilantra! E quem é aquela vagabunda? – dizia Sônia em pensamento.

O rapaz sequer notara a presença de Sônia na janela, estava ocupado demais em meio aos sorrisos e mimos que enlaçavam o casal. A ira foi tomando conta de Sônia, que, mesmo sabendo que entre sua pessoa e o moreno nada havia além de simples olhares, sentia vontades cada vez maiores de ir até eles.

E foi.

Sônia, sem ligar para a transparência de seu traje de dormir, pulou a janela com a raiva acumulada de longos segundos. Atravessou a estreita rua de paralelepípedos em direção ao casal. A cena, de tão estranha, chamou os olhares da fila no ponto de ônibus, menos os daquele casal.

Bem próximo aos dois, Sônia berrava:

- QUEM É ESTA VAGABUNDA?

Assustado, o rapaz protegia seu par em suas costas largas e:

- Quem é você?

- Quem sou eu? – dizia Sônia – Durante semanas você me direciona sorrisos e simpatias mil! E agora não sabe quem eu sou? Quem é ela?

- Você é doida? Jamais te vi na vida!

- Não se faça de idiota!

- E quando mandaria sorrisos para uma fedelha como você? Se enxergue!

Os dezessete anos de Sônia podiam, sim, ser empecilhos para os trinta e dois daquele rapaz, que ainda trazia na mão direita uma robusta aliança dourada. Mas os pequenos seios rijos de Sônia, pelo menos por poucos segundos, prenderam o foco do rapaz.

- Amor – dizia a moça atrás do rapaz –, não estaria ela a te confundir com o Breno?

Naquele instante um estalo se fez na cabeça daquele homem.

- Ah sim! Olha, menina – dizia o rapaz –, eu possuo um irmão gêmeo. Não seria ele a pessoa que...?

- Irmão? Gêmeo? – dizia Sônia como se levasse um banho das águas mais gélidas da noção – Mas... Qual o nome dele? Eu não sei.

- O nome dele é Breno. E sei que ele pega o ônibus nesse ponto todos os dias. Mas ontem ele viajou a trabalho. Deve voltar na semana que vem. Eu...

- Sim! Meu Deus... Eu te peço desculpas. Mas é que...

- Está tudo bem, menina. Agora vá para casa. Não está adequadamente vestida...

- Ai, meu Deus! – dizia Sônia ao notar tamanha indiscrição nas suas nádegas quase nuas.

Sônia corria encabulada até a sua janela. Preocupava-se com o pudor, mas se alegrava ao constatar a inocência de seu amado naquela situação. O rapaz então, como se a menina estivesse em câmera lenta, observava aquele trajeto juvenil e até mesmo o pulo sobre o peitoril. Sônia precisou de uma boa abertura das pernas, o que acabou desvendando uma pequenina calcinha rosa.

O rapaz afrouxou a gola de seu terno, secou o suor de seu rosto e, no fundo de sua alma, desejou ser Breno por alguns instantes.


[Continua]

* * *
Foto da Capa: Pâmella Gomide.

9 comentários:

Nathalia disse...

ai que lindoooo, Pamella na fotooooo! eeeeeeeeeeee!
que poder, caraaaan! rsrs

luciano, ADOREI de verdade!
que conto gostoso de ler!

causa vergonha alheia, mas é legal! rsrs

Vanessa Sagossi disse...

Huauhauh!!
Que adoro contos engraçados!!
Ficou linda na capa, Pam!

Beijos!

Luciano Freitas disse...

Não sei de onde me vem essas ideias...rs

Livia Queiroz disse...

kkkkkkkkkkkk

ki situação!
to rindo até agora imaginando a cena!
srsrsrsrssrrs

Não vai ter continuação????

Fabiana disse...

eita!
parabéns!

vai ter parte II?

bj

Nathalia disse...

alguém disse CONTINUAÇÃO?

apoiado!

Luciano Freitas disse...

ai ai ai....
continuação? rs

vou pensar, prometo! rs

Pâmella disse...

continuação simmmm...=)

eu adorei o conto tbm e adorei minha foto nele...=D

Aninha disse...

UAHUHAUHAUHAU

mto bom, bem divertido! :)