quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

TEMPERO

- Quero essa mulher pra mim!

Foi a primeira coisa que disse a mim mesmo, assim que avistei meu amigo Lucas e sua namorada Fabrícia. Inveja! Cobiça! Senti os pecados capitais correrem ferozes por minhas veias. Devo dizer que me senti um pouco estranho diante do fato, mas preciso confessar que meu desejo de dar um soco no Lucas, tomar a Fabrícia pelos braços e fugir para o horizonte foi bem maior que o desconforto.

Lá vinham eles caminhando pelo calçadão, curtindo aquele verão sob tecidos de tons claros. O que o Lucas vestia eu não me lembro muito bem, mas o conjunto branco que Fabrícia usava naquele dia não me sai da cabeça até hoje. Acho que dei bandeira, porque lembro de somente ter olhos para a namorada de Lucas. Ele me falava sobre coisas que hoje não saberia reproduzir – não prestei a mínima atenção.

E a Fabrícia? Ela tinha uma estatura mediana e um corpo muito bem distribuído. Seus cabelos, na altura da cintura – eu babava –, eram lisos e tinham a cor daquele sol que nos dourava. O rosto de Fabrícia expressava, a princípio, certa seriedade; seus poucos sorrisos, não sei por que, não faziam dela uma mulher fechada, mas comprometida. Nos olhos de Fabrícia, a cor do mar, ou melhor: do céu, porque pude notar em outras ocasiões a mudança de cores conforme o dia. Enfim, Fabrícia era uma mulher bela, não a ponto de paralisar a praia, mas de fazê-la mais bonita.

Naquele dia nós conversamos, quer dizer, Lucas falou por alguns minutos, nos despedimos e pronto. O que me impressiona é como alguns poucos minutos podem mudar a nossa vida em tantos dias, semanas e até meses ou anos. É que depois daquele dia a minha amizade com o Lucas passou a ter uma segunda intenção da minha parte. Todos os almoços, jantares, passeios e noitadas que fizemos juntos tiveram como objetivo apenas um: o de ver Fabrícia. Eu não conseguia tirar aquela mulher da minha cabeça. Não conseguia. Não adiantava o que eu fizesse. E o quanto que eu pedi a Deus para que os separassem? Até à igreja eu fui!

Quando Lucas me ligava e dizendo que precisava desabafar um pouco, eu pensava: “É hoje que ele me diz que o namoro dele já era”. Mas que nada. Era sempre sobre alguma insatisfação boba daquela vida de playboy que ele levava. A verdade é que o namoro dos dois era mais firme que uma rocha. Isso sem contar que durante todas esses programas que fizemos juntos a Fabrícia e eu sequer trocamos um olhar que pudesse me dizer algo. Ela era muito simpática nessas horas. Nós conversávamos um pouco, mas ela estava sempre pendurada no pescoço do Lucas. Cheguei a pensar que o que me atrapalhava era a questão dele ser um cara bem de vida e eu não. Mas isso não me desanimou.

Cada gesto, cada palavra que eu dizia, tudo era pensando na reação de Fabrícia em relação à minha pessoa. Mas ela, com sua seriedade e comprometimento visível, como já disse, não demonstrava nenhuma brecha para uma aproximação maior. A minha frustração de toda noite se transformava quase sempre num choro mudo ao chegar em casa. Se já não bastasse um anjinho do meu lado direito me dizendo “ele é seu melhor amigo” e um diabinho a me cochichar “viu como ela é gostosinha?”, eu ainda sentia que já não era mais desejo, mas amor o que eu sentia.

Depois de muito tentar e me frustrar, resolvi correr atrás de alguém que valesse o esforço. Não que Fabrícia não valesse, mas ela era do Lucas, isso era um fato.

Foi quando conheci a Mariana, uma garota bacana que cursava o segundo ano de Letras numa das mais concorridas universidades do estado. Ela era uma gracinha, mas não vou me deter às suas características físicas. Digo é que, apesar de ser um pouco mais nova que nós, Mariana passou a colaborar com um conteúdo muito mais interessante às nossas rodas de papo. Inteligentíssima e talvez mais culta que os pais de nós três ali juntos, Mariana nos dava até umas sugestões mais proveitosas de programas. Museu, cinema, salas de debates... A gente embarcou na dela legal.

Depois de umas duas semanas saindo juntos, passei a notar que os olhares de Fabrícia tinham novas direções. Ela não mais me passava aquele comprometimento todo para com o Lucas. Longe das vistas do Lucas e da Mariana, Fabrícia e eu já trocávamos alguns olhares dos quais, sim, sabíamos bem o que representavam.

Não pude deixar de notar também a boca aberta de Lucas quando a Mariana danava a falar sobre a vida e a obra de alguns dos nossos grandes escritores – nessas horas Fabrícia também se mantinha encantada pelo falar de Mariana. A verdade é que o conteúdo de Mariana pegou aquele playboy de surpresa. Nesse ponto Fabrícia deixava muito a desejar, já que tudo o que sabia dialogar era sobre a TV, a moda e o comportamento contemporâneos.

Com o tempo a situação ficou insustentável. Não disfarçávamos mais os nossos olhares. Se os dois casais estavam numa mesa, era Lucas a conversar com Mariana, e Fabrícia a conversar, veja você, comigo. Na hora de ir embora, depois de muito bebermos, faltava pouco para que saíssemos trocados na hora de dar as mãos.

Certo dia, depois de mais um exagero no álcool, eu, coberto de uma coragem artificial, propus o que parecia inevitável.

- Vamos trocar! – eu disse.

- Do que está falando, Tadeu? – disse-me Lucas.

- Trocar, ora! Ficam você e a Mariana... Ficamos Fabrícia e eu! O que acha?

- Eu... – pensava um pouco Lucas – topo!

Mariana e Fabrícia ficaram um pouco assustadas no início, mas já sentia o sorriso das duas querendo sair do canto daqueles lábios ardentes.

- Vocês topam também? – disse eu às mulheres.

Elas sorriram. Mariana colocou as mãos sobre a testa enquanto Fabrícia mordia os lábios como que num tesão incontrolável. As duas se olharam como se pensassem no que fazer.

- Eu topo! – disse Fabrícia.

- Meu Deus... Está bem! Eu também topo! – disse Mariana.

Eu já podia sentir aqueles lábios tão desejados de Fabrícia colarem nos meus. Eu não podia imaginar que a Mariana traria frutos tão valiosos a um desejo já antigo mas não adormecido. Eu estava a ponto de explodir de paixão, de tesão, de amor.

- Mas eu tenho uma ideia melhor! – disse Fabrícia – E eu acho que Mariana também concorda.

- Eu? – disse Mariana, a princípio, sem entender.

- É! Você, Mariana! – continuou Fabrícia – Eu proponho que troquemos, sim, mas fico eu com a Mariana e fica o Lucas com o Tadeu.

- Você só pode estar brincando... – eu disse.

- É? Pois falo muito sério!

Fabrícia dava a volta na mesa e chegava até Mariana, que por sua vez já a esperava de pé e com os olhos e boca numa sincronizada espera pelo beijo, que se fez diante de nossas vistas desprovidas de compreensão.

10 comentários:

FYC disse...

ai meu deus! que isso?
hahahaha

ah, vc chegou a ver o primeiro capítlo da nova novela das 19h, "tempos modernos"? O in´´icio me lembrou demaaaais aquele conto (não lembro o nome) que o mundo para, sabe?
se puder, dá uma olhada no youtube...lembra mesmo! rsrs

beijos

Luciano Freitas disse...

Não, não vi... Mas vc deve estar se referindo àquela série "MÓVEL", de 5 capítulos, né? rs

Vou ver no YouTube para ver se ouve plágio uhauhahuhua rs

Bjoks!

FYC disse...

é, essa mesmo! =)
rsrsrs

vê sim! rsrs

Fabiana disse...

"vou ver no YouTube para ver se ouve plágio uhauhahuhua"

hahahahahahah SENSACIONAL!

bjo

Vanessa Sagossi disse...

Meu Pai amado!
Hauhhuaua..
O pior é que acaba sendo engraçado!
Imagina a cara dos dois idiotas!

Aninha disse...

hahaha, esses amores estão todos trocados rs

Luciano Freitas disse...

ops! HOUVE*

Lucas Moratelli disse...

Hehehehehe!
Muito bom.

Puxa, por um instante pareceu que ia dar certo, mas esses rumos cruzados que a vida toma...

Abraço Luciano.

ALIMAC disse...

Tem épocas que gosto de desenhar, outras nem tenho paciencia.

WWWWWWWOW! Acertou! Adorei! Amei o fim. Eu bem que percebi que ia rolar algo entre elas e;

também adorei essa frase: "O que me impressiona é como alguns poucos minutos podem mudar a nossa vida em tantos dias, semanas e até meses ou anos."

Simplesmente fabuloso, entrou para os meus favoritos seus.

E ainda espero a continuação do da Caroline hein

Livia Queiroz disse...

Uaaaaaaaau!
Adorei...

Bem feito...Bem Feito pro dois! rsrsrsrs