quarta-feira, 28 de maio de 2008

AQUELA PELE

Foi daquele ponto de ônibus que eu via uma única vez entrar na condução aquela que talvez tenha mexido em meu peito de forma que nenhuma outra havia mexido, pelo menos à primeira vista. Os fios negros e molhados do banho matinal deixavam aqueles cachos mais longos. Sua pele branca e nitidamente bem cuidada ficava agora bem perto de mim. É que com a mão direita ela se apoiava na alça do meu assento fazendo seu braço ficar bem próximo ao meu rosto. Ela viajava de pé, pois não havia mais lugar para sentados. Sua pasta cheia de cadernos eu fiz questão logo de alcançar.
- Quer que eu segure?
- Sim. Obrigada.
Dava um breve sorriso e voltava ao seu estado normal. Séria. Seus olhos se perdiam nas imagens que passavam depressa na janela. Ela nem se dava conta de que eu não tirava os olhos de sua boca. Sem batom ou qualquer outro tipo de maquiagem, aquela menina me fez parar no tempo daquela viagem. Seu abdômen ficava à altura de meus olhos. Uma pinta um pouco acima da cintura também me chamava bastante atenção. A vontade era de abraçá-la e sentir aquela pele fresca de quem acaba de sair de um bom banho.

O seu telefone tocava. “Só falta agora ela ter uma voz linda”, pensei.
- Alô.
Que voz linda. A mais linda.
- Sim. Eu estou no ônibus já. Logo estarei aí. Beijos.
Pronto. A perfeição visual acabava de se completar. Ela era linda e sua voz não era diferente. Vontade de abraçá-la veio de novo. Controlava-me. O telefone dela tocava novamente.
- Alô. Oi amor. Não. Estou indo para a faculdade. Por que?
Aquilo me broxava. Um namorado?
- Está bem. Eu também te amo. Beijo.
Finalizava.
Desligava o telefone e mordia os lábios sorrindo por dentro com uma cara de quem estava muito a fim.

Desviava meu olhar. Afinal, eu estava num ônibus e diante de uma menina comprometida. Que chance teria? Tentava me distrair ao som do rádio da condução, mas não dava. Toda vez que ela movia o braço me chagava uma fragrância quase que alucinógena. Era delicioso demais o cheiro que vinha daquele corpo.

Ela coçava então a cintura na altura da barra da calça com um dos dedos e sem querer assume uma calcinha branca de elástico azul claro. Já a imaginava nua. O lance foi rápido, mas minha mente parecia congelar aquela cena. Ela voltava a coçar e a calcinha voltava a aparecer, dessa vez o elástico se dobrava e exibia uma pele ainda mais alva e atraente. Algum mosquito muito meu amigo parecia me ajudar naquele ônibus.

Naquela altura, eu já não sabia se rezava para que uma freada brusca a lançasse sobre meu colo ou para que chegássemos logo ao centro da cidade. Ela dava o sinal.
- Minha pasta. Vou descer.
Eu entregava a pasta. Via que a menina desceria uns cinco pontos antes do meu. Descia atrás dela.
- Eu também vou descer.
Ela ria, por educação, provavelmente.

Pelo ponto em que ela desceu, eu já podia saber em qual faculdade ela estudava. Na verdade eu nem sabia o que eu estava pretendendo ao segui-la. Talvez eu quisesse sentir um pouco mais daquele cheiro. Que pele. Mas para minha surpresa ela passou direto pela instituição. E eu continuava a seguir. Não havia outra faculdade num raio de quilômetros dali. Não fazia sentido ela saltar naquele ponto e continuar a pé o restante enorme do possível percurso. Continuava seguindo-a.

Depois de uns trezentos metros após a faculdade, um homem digno de suspeita a aborda.
- Trouxe?
Ele dizia.
- Trouxe. Espere.
Eu escutava o início do diálogo, mas não podia parar ali. Seguia em frente. Virava a próxima esquina e me posicionava de forma estratégica. O que eu fazia ali? Parecia agora um investigador. Talvez eu fosse bom nisso. Via a menina tirando uma boa quantia em dinheiro da carteira e entregando àquele cara. “Viciada”, pensei.
- Agora me deixe em paz!
- Em paz? Você é quem me procura, garota.
- Não vou mais procurar. Não tenho mais grana e preciso parar com essa porra.
- Largar você não larga e você sabe que não é só com grana que se paga as contas, Larissa.
Descobria da pior forma o nome dela.
- Deus me livre. Nunca mais faço aquilo.
- Nunca diga nunca. Agora vai pra sua aula.
Ela mordia os lábios novamente, mas de maneira aflita. Até que pergunta:
- Você tem aí?
- Mas você não acabou de dizer que não queria mais saber disso?
- Anda logo. Tem ou não, Gustavo?
Descobria agora o nome dele. O que eu estava fazendo ali? Meu Deus.
- Sabe que sempre tenho, mas, dinheiro na mão, neném.
Ela sacava uma nota de dez e pegava de maneira louca um saco de pó.
- NÃO SE META COM ESSAS PORCARIAS!
Gritava eu. Definitivamente, o que estava fazendo ali?
- Quem é esse cara, Larissa?
- Não sei. Não conheço.
O olhar de Larissa se lançava ao meu. Ela parecia lembrar de mim. Omitia.

O tal Gustavo colocava a mão na cintura e eu não ficava para conferir o que viria dali. Corria depressa pela transversal. Ele dobrava a esquina e aproveitava a rua ainda deserta para largar uns tiros. Três deles atingiram minhas costas e um em cheio o meu crânio. Eu morria ali sem chances. Nunca mais veria Larissa. Nunca mais sentiria o cheiro de sua pele. Uma lona negra me cobria minutos depois. O que eu estava fazendo ali?

Aquela pele.

3 comentários:

Fabi disse...

nossa... achei o conto mais diferente de todos! mesmo com as mortes e sempre uma bela menina... muito diferente!

gostei!




bjinhos.

Priscila disse...

mt bom esse conto!
o final foi massa...adorei msm!

bjão

Aline Ramos disse...

Nossa! :0
A Larissa depois deve ter chorado e ter usado mais drogas.
Tenho mais dó dela.

Muito bom ein!
;)