sexta-feira, 2 de maio de 2008

AS ESCADAS DO NEW TOWER

Num movimentado edifício comercial do centro da cidade, era comum ver elementos dos mais desconfiáveis subirem e descerem as escadas. Os mesmos iam atrás dos diversos prazeres que aquelas saídas de emergência proporcionavam. Uns eram atraídos pelo descarado tráfico de tóxicos. Já outros, iam pelos números de telefones escritos nos corrimões e nas portas corta-fogo, que prometiam “barba, cabelo e bigode” entre quatro paredes e sob uma mínima quantia em reais ou até mesmo em drogas.

A segurança do prédio era falha demais. Faziam rondas com pouca freqüência e em horários já conhecidos pelos participantes daquela “feira”. Quando soavam os passos de um dos vigias por volta das 22h, traficantes, usuários e prostitutas viravam meros freqüentadores do edifício, disfarçando no hall de elevadores de cada andar. Não havia controle em relação àquela desordem. Durante o dia o movimento era menor, mas o movimento de médicos e comerciantes do prédio não intimidava aquele comércio ilegal.

Thiago era freqüentador assíduo das escadas do Edifico New Tower, que de novo não tinha absolutamente nada. Uma edificação corroída pelo descaso de seus responsáveis tinha Thiago como um dos personagens mais vistos dentro dele. 25 anos, Bissexual, viciado em cocaína, o rapaz ainda carregava uma fortuna dos pais no bolso. Quem lhe fornecia tudo o que queria era Gilson, o traficante e cafetão mais antigo da escadaria. Ele ficava sempre no 17º andar. Local privilegiado. Ali, Gilson tinha acesso aos elevadores da zona alta e da zona baixa para qualquer eventualidade; a fuga, por exemplo.
- Fala Thiago.
- Fala. Beleza?
- Beleza. Vai de que hoje?
- Estou a fim de arreganhar um desses seus travestis aí.
- Sobe lá no 19º. Os meus estão todos lá. Você sabe. É só escolher.
- Está bem.
- Só num vai bater na cara delas. Ouviu? Uma delas já se queixou de você.
- Gilson. Quem manda é quem paga. Sacou?!
Brincava Thiago, que na mesma hora é surpreendido com o cano prateado de Gilson no meio do queixo.
- Olha aqui o playboy, se você tentar algo contra uma delas de novo eu acabo com tua raça. Ouviu?
- Que isso Gilson, guarda essa coisa aí. Foi só uma brincadeira.
- Acho bom
- Vou lá.
- Vai. E não esquece de pagar. Playboy. Vai cheirar nada não?
- Já estou cheirado, Gilson.

Thiago subia correndo para o local indicado por Gilson para escolher com quem ele ia passar a noite. Chegava lá e se deparava com o torcer de nariz das meninas e dos travestis.
- Chegou! Estava demorando.
- É isso mesmo. Cheguei. Deixa-me escolher quem é que vai ser meu franguinho assado hoje.
A repulsa por Thiago era visível nos rostos daquele bando de mini-saias.
- Você.
Apontava Thiago para Regiane, um dos travestis.
- Eu vou. Mas se meter a mão na minha cara eu nem espero pelo Gilson e lhe meto a faca nessa seu focinho horroroso.
As palavras de Regiane faziam as outras se agitarem numa gozação tremenda.

Thiago ficou calado e seguiu até o hall para descer junto à Regiane. Na calçada do prédio, Thiago abre a porta de seu carro importado e carrega a mercadoria para um motel luxuoso que ficava bem próximo. Aquela rota feita por Thiago era conhecidíssima pelos viinhos do New Tower. Era conhecida como “caminho do abate”.

Seguiam sem uma palavra. O silêncio imperava dentro do veículo. Até que Regiane resolvia abrir a boca. Para que?
- Está podendo! Carrão, motel caro.
- Regiane. Do jeito que vocês são tratadas, até um pão com mortadela a faria deslumbrar. Cala essa sua boca suja de porra e limite-se a abrir as pernas quando eu mandar. Sacou?
Regiane se cala enfurecida.

Já no quarto do motel, Thiago resolvia fazer o que de fato mais lhe satisfazia numa cama. Bater. Aproveitava-se da estatura mediana de Regiane e já lhe aplicava uma tapa no rosto.
- Eu lhe avisei Thiago. Você quer que eu faça um escândalo aqui nesse lugar? Você vai preso seu animal.
- Esse motel é do meu pai, Regiane. Aqui são todos meus empregados também, sua bicha ridícula.
Regiane se sentia acuada para sacar sua navalha. No meio daquela situação ela é que poderia se danar. Achava melhor esperar as atitudes de Thiago e depois se queixar com Gilson.

Faziam de tudo naquela noite. Trocavam de papéis e se entupiam da cocaína que Regiane levava na bolsa. Várias vezes o ato era interrompido por tapas e até queimaduras com o cigarro que Thiago freneticamente conduzia da boca para o cinzeiro e vice-versa. Regiane agüentava calada guardando dentro de si o ódio que aos poucos se acumulavam.

Depois de tudo, Thiago pagava o travesti e o deixava na calçada do New Tower.
- Opa. E a coca? Não vai pagar?
- Você também é traficante. Regiane? Depois eu acerto com o Gilson.
- Não. Gilson me mata se eu chegar lá sem a grana, playboy. Paga, vamos. Cinqüenta reais. Vamos.
- Eu não vou pagar nada a você. Paguei pela sua bunda. A droga eu pago ao Gilson. E saia do meu carro. Anda.
Empurrava Regiane com violência para fora do carro arrancava.

Regiane chegava ao 17º e ainda encontrava o Gilson por lá.
- Gilson. O Thiago.
- O que tem ele?
- Me agrediu. Não fiz nada porque estávamos no motel do pai dele. E não pagou a coca que eu levava.
- Deixa. Ele volta.
Como previsto, dois dias depois, Thiago retornava ao 17º do New Tower.
- Fala Gilson.
- Fala é o caralho, playboy. Cadê a minha grana?
Ameaçava Gilson com a pistola no peito de Thiago.
- Calma cara, eu vim aqui para pagar.
- E aquelas marcas de cigarro na Regiane? Eu te avisei!
- Ela quis!
- Quis? É? Então você vai querer também. Desce comigo.
- Como assim?
- Desce comigo, playboy!

Gilson colocava Thiago no porta-malas de seu Opala e o levava para um local já bem conhecido. Um matagal já bem distante do centro. Lá, Gilson encontrava um Thiago encolhido e fedendo a urina.
- Você mijou no meu Opala? Pirou?
- Vamos conversar.
- Fica tranqüilo.

Gilson começava a amarrar Thiago com uma corda que dava medo só de olhar. A mesma era completamente manchada de sangue, dando assim total idéia do que ele pretendia com ela. Thiago chorava como um bebê.
- Pode berrar. Seu pai não vai te ouvir daqui.
Gilson começava a queimá-lo com seu cigarro, assim como Thiago fez com Regiane. Tapas. Socos. Chutes.
- Escuta aqui. Entenda porque vou explicar uma vez só. Eu não tenho você como cliente exclusivo. Sacou? Se você morre, o meu negócio continua rendendo e muito. Não admito que estrague minhas peças. Entendeu?
Dizia Gilson com o bafo na direção do nariz de Thiago, que por sua vez suava frio e continuava a chorar.
- Eu entendi. Eu entendi.
- É?
- É! Não me mate. Por favor.
Gilson levava o cano prateado à testa de Thiago na velocidade de uma tartaruga. Naquele momento, pensava no que ele perderia se acabasse com a vida daquele idiota.
- Não perco nada!
Assim, disparava três tiros na cabeça de Thiago. Deixava a corda para apodrecer junto àquele corpo inútil.

No dia seguinte, tudo continuava normal no New Tower. Pessoas eram alugadas, drogas eram vendidas e consumidas, Gilson continuava dominando o 17º andar e suas prostitutas continuavam vivendo sob as violências de um chefe que as protegiam da violência alheia. Assim caminhavam aquelas vidas.

Um comentário:

Fabi disse...

escadas xexelentas, né?!
thiago morreu...
o prédio continuou...
e o resto do comentário faço no fotolog...

beijo.