quinta-feira, 22 de maio de 2008

SOL E CHUVA

A fila do banco era enorme. Já passava das 16h quando Sérgio, último da fila, preferiu sentar-se numa cadeira. Com o banco já fechado, não haveria mais ninguém para ser atendido depois dele. Era de fato o último. Rodando para lá e para cá naquela cadeira de rodinhas, onde só sentavam os clientes importantes, aqueles que tinham algo a discutir com o gerente. Sérgio achava atraente a frase “vou consultar ao gerente da minha conta”, mas como não possuía conta alguma, restava-lhe apenas repeti-la ao vento enquanto andava pela rua com uma enorme quantidade de serviços bancários sob as axilas.

Olhando para a mesa à sua frente, reparava que se tratava de uma gerente. Talita Vasconcelos Nunes Corrêa era o nome dela. Estava escrito sobre a mesa. Uma bela mesa. Sérgio ficava tentando imaginar a cara da baranga. “Talita – pensou – é nome de baranga”. Continuava rodando com a cadeira. A fila permanecia do mesmo tamanho. Voltava a olhar para o nome da gerente. Contava quantas letras tinha o nome dela. Vinte e oito letras. Depois tentava ler de trás para frente o nome dela. “Aêrroc Senun Solecnocsav Atilat”. Ria.

Sérgio ouvia um assobio de volume crescente, assim como um barulho de salto alto no piso elevado do banco. Via-se diante da mais bela dama que já tinha visto. Num terno azul marinho, aquele pedaço se aproximava de Sérgio.
- Boa tarde.
- Boa.
Respondia Sérgio àquela escultura.
Ela se sentava de maneira elegante e jogava os cabelos ondulados castanhos como se fosse tudo pensado para deixar quem estivesse por perto louco de paixão.
- Você é a gerente?
Perguntou Sérgio.
- Sim. Em que posso ajudar?
- Acho que em nada. Eu só estou aguardando a fila. Eu não possuo conta.
- Tudo bem. Pode ficar aí. Ninguém usará essa cadeira mais por hoje.
- OK.
Sérgio pensou.
- Você é a Talita?
- Sim. Por quê?
- Nada. Vi seu nome.
- Ah.

Sérgio não conseguia parar de olhar para aqueles vinte e poucos anos de aparência à sua frente. Tentava manter ela falando para reparar a pinta que ela possuía no canto dos lábios. E os olhos? Duas bolas verdes. Mas ela respondia a Sérgio olhando para uns papéis que assinava. Parecia apressada.
- Quantos anos você tem?
- 28.
- Nem parece.
- Obrigada.
- Eu tenho 18.
- Ah.
- Gosta de ser gerente?
- Gosto.
- Gosta desse banco?
- Gosto.
- Sempre cheio não é?
- É.
- O tempo escureceu lá fora. Acho que chove.
Sérgio não poderia ser menos previsível.
- É. Eu vi. Vim lá de fora. E nem trouxe guarda-chuva hoje.
- Eu trouxe.
- Que bom.
- Quer emprestado?
Isso aí, Sérgio! Grande!
- Como?
- Perguntei se não quer meu guarda-chuva emprestado.
Talita achava a pergunta um tanto quanto estranha, mas respondia.
- Não. Obrigada.
- OK.
- Mora onde?
- Olha aqui, menino. Você está me atrapalhando. Preciso acabar com esses papéis aqui e você não pára de me fazer perguntas. Pode ficar na cadeira se quiser, mas quietinho, por favor.
- Está bem.
- Obrigada.
Sérgio não se contentava. “Ela me responde olhando para os papéis”.

Sérgio estava cansado de observar cada traço do rosto de Talita, que por sua vez, não olhou sequer para o rosto de Sérgio.
- Você pode olhar para mim? Só uma vez.
Talita pára de escrever, respira fundo, solta o ar, larga a caneta na mesa, joga mais uma vez os cabelos para o lado e finalmente olha para Sérgio. Gosta do que vê. Sérgio era um rapaz de traços finos e de uma feição bastante simpática. Solta um sorriso lindo, embora sem graça, e diz:
- Desculpe. Fui grossa?
- Não. Não foi não. Só que observei que você não tirou os olhos dessa papelada um instante sequer. É assim sempre?
- De vez em quando sim. É estressante às vezes.
- Mas me disse que gostava daqui.
- Disse?
- Disse. E que gostava de ser gerente também.
- Disse?
- Disse.
- Eu realmente gosto, mas confesso que respondi automaticamente. Desculpe. Preciso de férias sabia?
- É a primeira vez que falou comigo querendo.
- Sim. Desculpe novamente.
- Tudo bem. Eu é que tenho que perder essa mania de perguntar tudo aos outros.
- Você de certa forma me fez bem.
- É? Por quê?
- Porque me fez parar o que estava fazendo e só agora me dei conta de que precisava respirar e conversar algo que não fosse sobre esses papéis.

Naquele momento um estrondo do lado de fora do banco anunciava uma tremenda chuva.
- Vai aceitar o meu guarda-chuva agora?
- Você chegou a me oferecer?
- Sim. E você negou.
- Mas onde está ele?
- No escritório. Posso passar aqui e lhe dar uma carona sob ele.
- Na verdade eu precisaria dele sim, mas só até o estacionamento do outro lado da rua. E não acho que será necessário se abalar por isso. Alguém aqui nesse banco terá um guarda-chuva também. Mesmo assim, agradeço.
- OK. Ah. Chegou a minha vez.
- Sua vez?
- Na fila.
- Ah. Sim. Então vai lá.
- Foi um prazer.
- O prazer foi meu.

Sérgio levantava se achando o mais imbecil do mundo. “Onde já se viu? Oferecer carona de guarda-chuva. Você foi demais hoje, Sérgio”, pensou.
- Menino!
Chamava-o Talita.
- Oi.
- Acho que aceitarei a sua carona. Pode ser?
- Claro. Até o estacionamento?
- É.
- Que horas passo aqui?
- Às 18h.
- Fechado.
Às 18h Sérgio estava lá, na porta do banco. A chuva já havia terminado.
- Menino! Você veio? Mas a chuva já se foi.
- Eu não trouxe o guarda-chuva. É que no meio da chuva eu vi um sol nascer para nós. Vamos?
Sem saber o que dizer e tentando disfarçar o sorriso, Talita deu a mão a Sérgio e ambos atravessavam a rua.

2 comentários:

fabi disse...

que gentil!
gostei muito muito. prabéns!
beijinhos.

janu disse...

O acaso é essencial à vida!