sábado, 17 de maio de 2008

POR QUE ELE?

Teve vontade de sumir quando ouviu a resposta negativa. Giovanna, uma menina tímida, manteve-se por muito tempo firme diante da idéia de que uma mulher jamais deve se atirar em um homem. Naquele dia, a menina se desprendia de tal bloqueio e se declararia de corpo e alma para Marcelo. Mas ela tinha seus motivos. E que motivos.

Giovanna, apesar de quase nunca abrir a boca, quando falava, era certeira. Suas frases inteligentes provocavam o silêncio da dúvida ou a boca aberta da concordância por parte de seus receptores. Conquistava a amizade de todos com o seu jeito contido de ser. Seu sorriso era um colírio para os dotados de uma sensibilidade aguçada, pois através dele se podia entender muito pouco do conteúdo emocional de Giovanna, que era a musa dos mais estudiosos e ao mesmo tempo “aquela quatro olhos” dos mais populares.

A menina podia ter se apaixonado por qualquer um naquela escola enorme, mas não, foi se encontrar perdida por um dos mais populares dali, o tal Marcelo. Ela mesma não entendia o porquê de não conseguir tirar aquele rapaz da cabeça. Encontrava-se em estado de dormência toda vez que ele cruzava o portão da escola montado em sua bicicleta de último modelo. O cabelo liso que parecia incomodar os olhos e o forçava a fazer movimentos repetitivos com a cabeça era fatal para o coração de Giovanna, que por sua vez, usava roupas sem o mínimo de intenção de atrair o sexo oposto, como faziam a grande maioria das meninas.

Marcelo para Giovanna era tudo. Giovanna para Marcelo era nada. A presença de Giovanna nunca era notada por Marcelo. Marcelo se fazia presente para Giovanna vinte e quatro horas por dia. Giovanna tinha conteúdo para conquistar alguns meninos, mas buscava Marcelo, que tinha todas as meninas o buscando e não precisava buscar por ninguém. O fato de Marcelo estar de braço dado com uma menina diferente a cada semana, só fazia a pobre Giovanna imaginar que um dia chegaria a vez dela.

Em momentos mais lúcidos, Giovanna se irritava consigo mesma por parecer tão idiota diante daquele sentimento tão inesperado. “O que ele vai querer comigo?”, pensava a menina. “Ele é mulherengo, gazeia as aulas, se mete em brigas, fala errado... Por que ele?”, continuava pensando.
- Giovanna?
Chamava Lorena, uma amiga de Marcelo.
- Oi.
- Queria falar com você.
- Pode falar.
- Faz tempo que eu vejo que está amarradona no Marcelo.
- Eu? Imagina!
Mentia Giovanna.
- Não precisa mentir. Eu vejo como fica quando o Marcelo passa a poucos metros de você.
- Bem.
- Olha. Por que você não diz isso a ele?
- Dizer o quê?
- O que sente por ele.
- Mas não sinto nada.
- Se você ficar aí pensando que um dia ele falará com você, morrerá esperando.
- Mas se ele nunca falará comigo, sinal de que não me merece.
- Pronto. Acabou de me confessar que gosta dele.
- Está bem. Mas não conte a ninguém, por favor.
- Tudo bem. Procurei você para lhe ajudar.
- OK. O que devo fazer?
- Primeiramente, arrumar-se melhor. Com essas roupas, ele jamais vai te enxergar.
- Mas gosto das minhas roupas.
- Esse é o problema.
- O quê?
- Esquece. Está vendo como estou vestida? Anote e se vista assim. Se ele não te der ao menos um “oi”, você pode me surrar.

Não estava nos planos de Giovanna mudar a forma como se vestia para ganhar um simples cumprimento de Marcelo. Mas pensando bem Giovanna topava.

Vestia aquela saia curta que lhe fizera depilar toda a perna, coisa que raramente fazia. A blusa do uniforme recebia ajustes que a deixava mais justa, o que realçava aqueles seios eretos e antes escondidos por aquele monte de malha sobrando. Pulseiras, brincos, batom, sandália, tudo era modificado no visual de Giovanna. Aos poucos, Giovanna percebia que não era mais ela ali diante do espelho. Aquele visual não pertencia a sua real personalidade. Crítica, passava a analisar se Marcelo realmente merecia tanto esforço. Mas pensando bem concluía que merecia.
- Giovanna!
Grita uma abismada Lorena.
- O que foi? Fiz algo errado?
- Imagina. Você está linda, garota!
- Obrigada. Tiro os óculos?
- Não. É o seu diferencial, menina.
- OK. Mas responda-me. Por que está fazendo isso por mim?
- Porque acho que tem chance com ele.
- Ora, só por isso? Você nunca falou comigo antes, Lorena.
- Para tudo há uma primeira vez.
Essa frase batida fazia Giovanna pensar se realmente estava fazendo a coisa certa.
- E agora o que eu faço?
- Vá até ele e chame-o para conversar.
- Assim? Ele nunca sequer falou comigo.
- Para tudo há uma primeira vez.
De novo. Ela repetia essa frase e Giovanna se controlava para não jogar todo o plano para o alto.
- Eu sei me doar desse jeito.
- Não está se doando, apenas irá dizer que o acha um gato e que estaria disponível para o churrasco da Pâmela.
- Mas eu nem fui convidada.
- Mas com ele do lado? Quem precisa de convite.
- Nunca fui tão dada.
- Para tudo há uma primeira vez.
Ódio. Era o que sentia agora Giovanna pela mente opaca de Lorena, mas mesmo assim, seguiu até Marcelo.

- Oi.
- Oi. O que houve com você...
- Giovanna. Meu nome é Giovanna.
- O que houve Giovanna. Está diferente.
Isso era sinal de que Marcelo a notava antes de mudar radicalmente de visual. Tomou coragem:
- E prefere de que jeito?
- Assim. Antes parecia uma velha.
“Que grosso!” Pensava.
- Então fiz bem?
- Fez sim. Mas diga. O que você quer?
Depois de gaguejar:
- Ir ao churrasco da Pâmela com você. Digo, estou disponível para ir...
- OK. Já entendi.
- E?
- NÃO!
Naquele momento, além da já citada vontade sumir, Giovanna passava a sentir um nojo incontrolável da roupa que vestia, dos cosméticos que usava e mais ainda de Marcelo, que permanecia em sua frente mascando um chiclete e rindo pelo canto da boca. Não segurou. Vomitou sobre ele.
- FICOU MALUCA, GAROTA?

Todos olhavam para aquela cena esquisita, onde Marcelo se encontrava com a roupa lavada pelo almoço de Giovanna. O pátio se transformava numa verdadeira platéia de circo. Giovanna tonteava de tanta vergonha e caia sobre os braços de Lorena que vinha correndo para acudi-la.
- PORRA MARCELO. PRECISAVA DISSO?
Gritava Lorena.
- OLHA O QUE ELA FEZ EM MIM, LORENA!
- Mereceu. Ela só queria lhe dizer o quanto gostava de você.
Nesse momento, Giovanna abria os olhos e:
- EU NUNCA GOSTEI DE VOCÊ, NUNCA GOSTEI DA LORENA, NUNCA VOLTAREI A USAR ESSA MERDA DE ROUPA E GOSTARIA QUE VOCÊS NUNCA MAIS CRUZASSEM O MEU CAMINHO.
O pátio era agora velório. O silêncio reinava.

Giovanna erguia-se e seguia cambaleando sobre aquelas sandálias pela calçada do colégio até desaparecer entre as amendoeiras. Seguia com seu emocional ferido e precisando de cuidados. Pagava ali um preço alto por querer ser o que nunca havia sido. Por se apoderar de valores menores do que os presentes em sua alma. Porém, percebia que a imagem de Marcelo ia sumindo de seu pensamento na mesma proporção em que as gotas enormes de suas lágrimas evaporavam pelo caminho.

3 comentários:

Aline Ramos disse...

Nossa, me fez chorar!

Amei.

janu disse...

....
sem coments dessa vez...


...não precisa!
^^

Fabi disse...

"Não estava nos planos de Giovanna mudar a forma como se vestia para ganhar um simples cumprimento de Marcelo. Mas pensando bem Giovanna topava"

aff. ela errou justamente aí!



BEIJO.

adorei!