terça-feira, 15 de abril de 2008

SOFIA DE SÃO JORGE

À noite as tapas ressoavam por toda a vila. No dia seguinte, pela manhã, os vizinhos se acomodavam em seus muros cobertos de limo para receberem o silêncio de Sofia que passava coberta de hematomas. Os comentários em voz baixa eram conseqüentes daquela cena repetida tantas vezes. Durante as agressões que duravam bons minutos não se ouvia uma palavra, apenas gemidos de aspectos diferentes. Os de Sofia eram sofridos. Os de Antônio eram frutos de um prazer. Todos sabiam da situação, porém, ninguém era capaz de lhe oferecer ajuda ou mesmo chamar a polícia. Antônio espancava a introspectiva Sofia quase todas as noites.

Sofia saía de casa por volta das sete da manhã. Quando eram seis e meia, os despertadores de toda a vila tocavam juntos. Era hora de se preparar para ver o estrago feito por Antônio dessa vez. Sofia não procurava ajuda. Tentava maquiar os círculos roxos que predominavam seu rosto maltratado em vão. Era nítida a força com que o marido lhe surrava só de olhar para Sofia. O casal era bastante calado. Ambos não falavam com ninguém da vizinhança e a figura de Antônio era praticamente desconhecida, já que o brutamonte não trabalhava e não colocava o rosto para fora de casa um só minuto. Eram nas costas de Sofia que caíam todas as responsabilidades do lar e também a vergonha de sofrer tamanha violência.

No trabalho, as desculpas de Sofia não surtiam mais efeitos. Era de conhecimento de todos que a mulher sofria agressões em casa. Mas Sofia negava sempre e ainda fazia questão de elogiar Antônio aos sete ventos. De sua boca saíam qualidades que de forma alguma poderiam pertencer ao marido. Companheiro, carinhoso e trabalhador eram os mais repetidos. Fato. Sofia possuía um problema grave, porém, de tanto negar ajudas – se dizendo não precisar delas – a empresa onde trabalhava unanimemente resolveu deixar que ela mesma tomasse suas próprias providências no momento que as achasse necessárias.

À noite, chegava à casa e uma longa lista de tarefas a esperava antes mesmo de se alimentar. Uma casa imunda da preguiça de Antônio para limpar, janta para preparar e, a mais dolorosa de todas, satisfazer um doente que há dois anos aceitava sobre o altar e sob os olhos de São Jorge como seu legítimo esposo. Sofia era devota assumida do santo guerreiro e por isso sempre esperavam dela uma postura à altura. Mas despir-se para Antônio era um ato de coragem. Era entregar-se ao mais obscuro e duvidoso destino. A vergonha lhe batia a face ainda mais forte que o terror em forma de homem. Mas um dia, Sofia se enxergava de forma diferente.

Nesse dia, Sofia chegava à casa com os braços ainda doídos da noite anterior. Estava cansada dos olhares vindos dos vizinhos que pareciam condená-la como culpada de toda aquela vida dolorosa. Aquela mulher estava disposta a acabar com a rotina de maus tratos em que se via obrigada a viver. Antônio tinha um poder sobre Sofia que não a deixava tomar nenhuma atitude contra os fatos. Ela se sentia acuada pelo marido e envergonhada de ser vítima de tal truculência. Mas naquele dia, o corpo de Sofia pedia misericórdia e a fim de obter uma vida normal, os braços anteriormente acorrentados para a satisfação sexual de Antônio desejavam matar o sujeito.

O caixa do supermercado devia até ter estranhado a compra feita por uma enlouquecida Sofia. Uma bisnaga e um espeto de churrasco era o que aquele rosto marcado estava disposto a comprar. Chegando a casa, como de costume, Antônio, num ato violento, toma a bisnaga da mão de Sofia, que por sua vez segura aquele pão com força e empurra contra a barriga do marido. Dentro da bisnaga, Sofia havia escondido o espeto que comprara, fincando assim o pontiagudo e vazando o corpo forte de Antônio com uma força excomunal. O berro de Antônio fez a vizinhança toda sair de seus casulos e cercarem a casa do casal.

Antes que entrassem para julgar aquele cenário, Sofia aparecia na porta com os braços vermelhos de sangue e em forma de grito responde a todas as perguntas ocultas daquela gente:
- Matei de uma vez aquele que me matava aos poucos!
Todos saíam correndo. Um deles finalmente chamava a polícia, que chegava e encontrava Sofia ainda degolando o corpo de Antônio. Sem resistir, deixava ser algemada e permanecia muda até à delegacia. Devido à raiva que lhe tomava, Sofia só entenderia o que tinha cometido no dia seguinte, já em cárcere, onde permaneceria por longos anos.

Na vila onde morava com Antônio, a sua história ficaria eternizada na lembrança dos moradores, porém, sempre tendo o crime como fato único e não como desfecho de uma revolta motivada. Onde antes havia uma atração matinal, poderia a partir dali haver uma ameaça. A voz da vizinhança somente fez-se ativa a partir do momento em que o perigo ultrapassou o limite da porta de Sofia.

3 comentários:

Fabi disse...

conto violento, né?!
confesso que me "embrulhou" o estômago do início ao fim.
muito bem escrito. parabéns, luciano!





bjs

Clarissa Marinho disse...

A dor pela dor, a justiça com as próprias mãos..
Eu fugiria, mas se não tivesse como, acho que também chegaria nesse mesmo limite que a Sofia: Um ultimato inconsciente :P
Beijo!

Vanessa Sagossi disse...

É isso aí.
Acho que não chegaria a tal ponto, mas com toda a certeza ele não iria encostar uma mão em mim.