quarta-feira, 30 de abril de 2008

O ENGANO

A curiosidade daqueles alunos em conhecer o tal mestre substituto tomava conta dos assuntos. As mulheres esperavam por um professor alto e musculoso. Os homens esperavam que fosse uma professora típica de um comercial de cerveja. O conteúdo intelectual pouco importava para ambas as partes da classe. Era uma turma de supletivo. Ali, alunos entre 20 e 35 anos tentavam concluir o ensino médio em apenas um ano. Todos naquela sala de aula faziam parte da base da pirâmide social. Moradores de locais abandonados pelo Estado, estavam ali em busca do diploma. Afinal, era isso que o “mundo lá fora” os exigia todos os dias.

Segunda-feira. Finalmente, aqueles alunos conheceriam a pessoa que pela quarta vez em seis meses os assumiria como substituta. Pontualmente às 19h, entrava a professora Lígia. Uma mulher de estatura média, porém, com as partes do corpo que mais interessavam à parcela masculina da classe em seus devidos lugares e em tamanho mais do que proporcionais. Lígia fazia o tipo “mignonzinha”. Tinha apenas 24 anos de idade, mas uma capacidade profissional absurda. Não era bem aquilo que os marmanjos esperavam, mas aquela beleza inesperada os pegava de surpresa.
- Boa noite!
Desejava Lígia com imenso bom humor tendo o silêncio como resposta.

Os rapazes calavam-se por estarem extremamente ocupados focalizando o decote comportado de Lígia, que mesmo assim acabava por aumentar-lhes a curiosidade sobre seus seios firmes e médios. As mulheres já tinham outro motivo para o silêncio. Observavam com ciúme e inveja os olhares de desejo que os homens direcionavam à professora.
- Eu disse boa noite, gente!
Repetia Lígia.
- Boa noite!
Respondia um e outro.
- Bem, vocês sofreram várias mudanças de professores nos últimos meses e com isso o conteúdo de vocês encontra-se bastante atrasado. Então, vamos ao que interessa. Abram seus cadernos e mãos à obra!
- Professora!
Chamava Wellington.
- Pois não.
- Você não vai querer que a gente se apresentamos?
- Para início de conversa, “se apresente” seria a forma correta! – Corrige a professora de Português – E não. Não farei questão disso agora. O tempo corre. Conhecerei vocês ao longo do ano letivo. OK?

Wellington na verdade estava inquieto. Estava boquiaberto com a beleza tratada e singela de Lígia e mal podia esperar para conhecê-la melhor e para lhe demonstrar os seus talentos; Era mecânico de uma oficina ao lado da escola.

No dia seguinte, Lígia chegava mais cedo à escola para lecionar para o turno da tarde. Passando pela oficina, avistou Wellington.
- Oi. Você é meu aluno à noite, não?
- Sim professora! Sou sim!
Respondia um maravilhado Wellington diante do ato raro do cumprimento.
- Então, trabalha aqui durante o dia e à noite ainda se esforça na sala de aula? Muito bem! Continue assim! Espero que consiga conciliar.
- A gente tenta, não é?
- Acertou o tempo verbal dessa vez! Fico feliz! Bom, até mais tarde. Um abraço.
- Até mais.
Respondia um Wellington negro de graxa dos pés à cabeça. Aquele breve cumprimento não saiu da cabeça do rapaz. Em seus 29 anos de idade, nunca havia sido tratado como o fez a professora Lígia. Não parava de pensar na moça.

Os dias passavam, as aulas tomavam os seus rumos e Wellington mantinha em si um desejo de uma aproximação mais íntima com Lígia, que por sua vez, tratava toda a classe com um carinho jamais visto pela mesma. O que fazia o coração de Wellington bater ainda mais forte durante suas aulas.

Um dia, Lígia levava seu carro para a oficina em que Wellington trabalhava, porém, acompanhada de um rapaz vistoso e de terno e gravata que fugia do conhecimento do mecânico. Ambos saltavam do carro. Cada um posicionado de um lado do veículo, ambos mandava beijo um para o outro e se despediam:

- Vai lá meu anjo. O carro ficando pronto hoje passo no seu trabalho e lhe busco. Não dou aula hoje à noite não. OK?
Despedia-se Lígia.
- Tudo bem, Liginha. Eu te ligo. Beijo!
Respondia o rapaz e seguia para o ponto de ônibus em frente à oficina.
- Oi Wellington. Trouxe meu carro para você dar uma olhada. Está com um barulho estranho. Vamos ver se é tão bom na mecânica quanto vem se mostrando nas aulas de português?
Brincava Lígia.
- Verá que sim.
Respondia Wellington, de cara amarrada.
- Acha que apronta isso para hoje?
- Com certeza, já sei do que se trata.
- Senti firmeza, Wellington! Então, passo aqui depois da aula do turno da tarde.
- Passa sim.

Wellington via suas esperanças irem para o ralo como a água que usava para lavar as mãos sujas de mais um dia de trabalho. Olhava-se no espelho e se sentia pequeno diante da companhia que Lígia exibia pela manhã na oficina. “Olhe para você mesmo. É um simples mecânico. Nunca terá Lígia”, dizia para si ao olhar-se no espelho quebrado da oficina. Trocava o macacão e espirrava forte o desodorante barato sobre as axilas, enquanto calculava que em breve a professora passaria por ali para apanhar o seu carro. Feito.
- Oi Wellington. Desculpe a demora.
- Que isso? Tudo bem.
- Quanto eu lhe devo?
- A notinha está lá no caixa. É só passar lá e pagar.
- OK!

Naquele dia, Lígia estava mais linda do que em todos os outros. A calça justa exibia o formato delicado de seu corpo. Wellington imaginava sua única mão tomando conta das duas nádegas de Lígia ao mesmo tempo. Imaginava aquela cintura de espessura jamais tocada pelas suas mãos. Aquele cabelo liso e até mesmo os fios suados que insistiam em colar no rosto da jovem ele imaginava puxar durante um ato selvagem que misturava o desejo sexual a tantos dias repreendido e a raiva de saber que Lígia já era de alguém.
- Muito obrigado Wellington! Você está indo para a escola agora?
- (Pausa) Não. Vou para casa.
- Não tens aula hoje?
- Tenho, mas preciso resolver umas coisas em casa.
- Eu vou para o centro da cidade. Serve-lhe uma carona?
Na verdade não servia, mas Wellington não recusaria jamais.
- Serve sim.
Wellington entrava no carro e os dois seguiam.
- Onde lhe deixo?
Perguntava Lígia já próxima ao centro.
- (Pausa) Entre na próxima à direita. É a minha rua.
- OK.
A professora entrava na determinada rua e seguia já por mais de quinhentos metros.
- Está próximo?
Perguntava Lígia com certo medo da escuridão que tomava aquele percurso.
- É aqui.
Respondia Wellington.

Lígia pára o carro. O rapaz não salta. Fica parado e calado. Quando Lígia se preparava para se despedir, era surpreendida pelas mãos enormes de Wellington em seu pescoço. Descontrolado, o mecânico asfixia a jovem em pouco tempo. Seguro de que estava em um local deserto, Wellington começava a saciar-se de todas aquelas imaginações que tanto lhe atordoavam.

Aproveitava-se ali, dentro do carro, do corpo morto Lígia. Rasgava as roupas com a fúria de na verdade estar esmurrando a cara daquele que a possuía. Sentia o prazer de estar sendo não o primeiro, mas o último a saborear das curvas de Lígia. Gozava ao mesmo tempo em que ria ao imaginar a cara do homem que naquele momento a esperava na porta do prédio onde trabalhava.

Satisfeito, Wellington deixava para trás o corpo de Lígia dentro de seu carro no meio daquele breu. Caminhava calmamente até a via principal a fim de tomar um ônibus para casa.

Dias depois, com o corpo já encontrado e a família da professora sedenta por justiça, a polícia aparecia na oficina para fazer algumas perguntas aos seus funcionários na intenção de encontrarem o assassino de Lígia. Não foi difícil traçar todo o trajeto da professora no dia de sua morte. Carla, a moça que trabalhava no caixa da oficina, dizia a um policial quem havia concertado o carro de Lígia e ainda apontava Wellington como a pessoa que melhor poderia informá-los sobre o assunto, já que havia pegado carona com a vítima momentos antes de sua morte.

Depois disso, ficava fácil para a polícia por as mãos em Wellington que logo confessava o crime. No dia em que era preso, Wellington viu-se frente à frente com aquele que naquela manhã acompanhava Lígia em seu carro.
- Como você teve coragem?
Wellington permanecia calado diante do homem de óculos escuros.
- Responda. Como teve coragem?
- Quis ter o que você tinha. Lígia. Fiquei desesperado em saber que ela era de alguém. Então a matei para que enfim a tivesse.
- Como assim? Lígia era minha irmã!

Aquela frase batia no peito de Wellington como uma marreta. Aquela que fazia agora suas frases soarem entendíveis na verdade era solteira. Nesse momento, algemado, Wellington avistava o ralo – o mesmo em que as águas sujas de suas mãos desciam – fazer um sentido inverso, dando um breve retorno daquelas águas que logo depois desciam novamente. Eram as chances de Wellington que o reapareciam, mas que ele mesmo as acabava de matar.

4 comentários:

Fabi disse...

aai. tadinha dela.
e muito bem feito p ele, viu?!
HUMPF!







beijinhos.

Aline Ramos disse...

Nossa! :O:O:O
Uau. Cara, uma das melhores coisas que já li.
Sério mesmo, muito bom.
Deve ser estranho pra você imaginar a cabeça de um psicopata né? aaan... nossa, ou você é um???
medo³

hHUSAHUhauhauHUAHUaa
Por isso mamãe sempre ensinou, não fale com estranhos, mas agora você renova dizendo que não devemos dar carona para semi-conhecidos, pode ser até pior.

PArabéns.

Vanessa Sagossi disse...

O que mais eu posso dizer?

Muiiito bom!

Anônimo disse...

Aprendi muito