terça-feira, 29 de abril de 2008

URUBUS

Aquele cheiro forte já incomoda um raio de trezentos metros daquela vizinhança. A casa fechada a alguns dias causa o estranhamento de todos que ali residem.
- Aconteceu alguma coisa.
- Isso é cheiro de gente morta.
- Vamos chamar os bombeiros.
Dizem os vizinhos com a curiosidade mórbida e comum.
- Será que foi seu Oswaldo que morreu? Só morava ele na casa.
- Só pode ter sido. Deve estar podre já. Pelo tempo.
- Nossa. Será que foi o coração?
- Pode ter sido suicídio. O homem era tão sozinho. Tão triste isso, meu Deus.
- Já chamaram o bombeiro?
- Já!

Aos poucos vai se acumulando uma enorme quantidade de vizinhos da casa de Oswaldo e conseqüentemente de vizinhos dos vizinhos também. Um conhecido carro de reportagem chega ainda antes dos bombeiros. O jornalista, Sales, mais conhecido como “Sales do Sangue”, por sua capacidade de “farejar” tragédias antes mesmo que elas acontecessem, salta do carro como que fosse resolver a situação.
- Merda. Os bombeiros ainda não chegaram?
Pergunta no ar, Sales.
- Nada. O presunto já ta fedendo que dói. Você num pode arrombar a porta não?
Sugere D. Yolanda.
- Não. Eu faço a reportagem. Colocar mão em defunto não é comigo não, D. Yolanda.

A multidão já dá vários palpites sobre a morte de Oswaldo. Infarto, suicídio, assassinato etc. Sales colhe informações dos vizinhos enquanto aguarda o corpo de bombeiros.
- Puta que pariu. Acho que estou perdendo tempo aqui com essa ralé.
Reclama Sales.
- Que nada, Sales. Agüenta aí. Do jeito que a coisa está, já estou até vendo: Amanhã de manhã estará a foto do tal Oswaldo aí em decomposição, logo na primeira página. Foto de quem? De quem? Foto minha, claro!
Sugere Juan, o fotógrafo do jornal.
- É. Você tem razão. Vai vender que nem água. Se essa galera que se encontra aqui comprar o jornal já será uma vitória para aquela espelunca na qual trabalhamos.

O lembrete de Juan faz Sales permanecer debaixo daquele sol quente e em meio aquele odor insuportável que se misturava agora ao do suor daquele povo que permanecia no local fazendo suas apostas.Uma sirene é ouvida ao longe.
- É os bombêro, é os bombêro!
Berra D. Silvia com seu português errado que pouco importava naquele momento. O aviso é logo seguido de um grito organizado originado da desorganização, da curiosidade da euforia de verem aquele carro vermelho cheio de homens fardados em cima. Aquela cena parece dizer-lhes sempre que “hoje tem assunto na rua”.

Um bombeiro desce do veículo com as ferramentas apropriadas para um arrombamento. Ele toma todas as medidas previstas em casos como esse. Verifica se realmente não há ninguém em casa e se o arrombamento é a única alternativa. Faz um sinal ao seu superior de patente e começa.

O povo inicia um falatório incontrolável. Àquela altura, as mães se esqueceram até de aprontarem suas crianças para o colégio. Toda aquela comunidade se encontrava curiosa para saber o que de fato haveria ocorrido com Oswaldo.
- Sargento. Sou do jornal A Língua do Povo. O senhor deixaria eu fotografar o corpo logo assim que arrombar a porta?
Pergunta Juan sob os olhares de Sales.
- Vai depender. Se estiver muito ruim eu acho melhor que não fotografe.
- Por que?
- Tenham mais respeito com o defunto. Estampar aquilo que vocês chamam de jornal com um homem em total podridão. Ora vejam.
- É o nosso trabalho, sargento.
Responde Sales.
- Deixe-me trabalhar, seus urubus. Depois vocês caem de bico na carniça.
Espanta-os assim o sargento.

Por fim, a porta da casa de Oswaldo vai ao chão. Os outros bombeiros fazem uma corrente para evitar a invasão dos moradores que mal respeitaram o cordão de isolamento. O odor, ao contrário do que se esperava, não afasta a multidão, que com as mãos nas narinas arregalam os olhos para verem de perto o estado deplorável em que se encontrava o corpo de Oswaldo. Juan passa por baixo do cordão e se posiciona precisamente na porta da casa para disparar seu clique. Tinha de ser rápido. Os bombeiros logo embalariam o defunto.
- Calma urubu. Pode fotografar.
Diz o sargento.
- Obrigado.

Juan e Sales adentram a casa e se deparam com a cena mais bizarra que já tinham visto em todos os seus anos de jornalismo, que eram muitos. O corpo é de Oswaldo, como a vizinhança já previa. O estado do corpo é que foge totalmente de qualquer previsão. Além do ápice de sua decomposição, Oswaldo encontra-se fatiado, deixando reconhecível apenas alguns membros, como as mãos e a cabeça. Todo o resto do corpo são pedaços de carne podre e interpretável. Juan fica paralisado diante da cena. Os bombeiros ficam rindo da cara do fotógrafo.
- Porra. Desaprendeu? Tira logo essas fotos!
Grita Sales já em tom de verde.

Juan sua frio e permanece estático com a máquina em posição. Tosse e logo depois vomita todo o café com leite e as roscas que comera num boteco pouco antes de se dirigir ao local.
- Porra! Vai sujar ainda mais o local? Já não basta o sangue, a carne podre e agora o suco gástrico desse urubu?
Pergunta o sargento bombeiro em tom de deboche.

Sales não agüenta e põe para fora tudo que tinha naquela pança. Logo depois, a polícia chega para tomar também as suas providências diante do caso. Os dois jornalistas são postos para fora da casa lavados de bílis para a rejeição total do povo que insistiam em avistar Oswaldo. Mas não viram nada. As instituições ali presentes só saíram com os restos mortais de Oswaldo coberto, acabando assim com todo o prazer da comunidade.

No dia seguinte, no A Língua do Povo, apenas uma pequena nota sobre o fato, para total chateação dos vizinhos de Oswaldo, já que não havia nenhuma foto do crime. A nota sequer foi lida. O autor da barbaridade, assim como a causa, a polícia nunca conseguiu descobrir. E, sendo Oswaldo um homem sozinho, morador de periferia e usuário de drogas, quem estaria interessado nisso?

3 comentários:

Fabi disse...

povo curioso!
enfim... eca!

beijos.

Aline Ramos disse...

HusahuUSAAUHUaa.
Todo mundo se fudeu.
Pensei que o corpo estaria numa bizarrice tipica de O Código da Vinci!
Mas seria muito para a periferia, e como você disse, para um usuário de drogas.

Esse Sales aí deve ter um acordo com os traficantes, criminosos em geral pra avisarem ele quando e onde o crime irá acontecer.


HuhuashuHAUhua

Vanessa Sagossi disse...

Gostei muito do final.
"E, sendo Oswaldo um homem sozinho, morador de periferia e usuário de drogas, quem estaria interessado nisso?"
No fim, quem se importa? Se ele fosse outra pessoa, talvez.