quinta-feira, 20 de agosto de 2009

OPUS 1 - Parte 8



Na tarde do dia seguinte, Rômulo chegava à casa de seu professor de piano; um velhinho chamado Vicente. O rapaz tinha enorme orgulho de poder estudar com um dos mais competentes pianistas do país. Vicente já se apresentara nos mais importantes teatros do mundo, mas com o peso de seus oitenta e cinco anos, se dedicava então apenas ao ofício de mestre.

Vicente era um senhor de estatura baixa, cabelos brancos como algodão, olhos verdes e de fala bem mansa. Era mundialmente conhecido como Vicente Lago. Quando se sentava ao piano, não havia quem não se emocionasse com suas composições e interpretações. Usava sempre um número mínimo de notas, que, cuidadosamente pensadas, valiam mais do que milhares delas em outras mãos.

- Olá, Rômulo. Entre. – dizia Vicente.
- Tudo bom, S. Vicente?
- Tudo sim. Fiquei sabendo da confusão em sua casa, meu filho.
- Pois é.
- Li no jornal. O mundo anda muito violento, meu Deus...
- É, mas, graças a Deus, tudo acabou bem.
- Nem tudo, não é, meu filho? Aqueles sequestradores perderam a vida...
- É... Eu também lamento por eles, apesar de tudo, mas eram eles ou todos ali. A situação estava bem complicada.
- Eu posso imaginar. Bom, acredito que não tenha tido cabeça para estudar, não é?
- Para estudar não, mas compus algumas coisas, S. Vicente.
- Que maravilha! Até que enfim, Rômulo!

Vicente sempre incentivou o aluno a compor, já que sentia naquele rapaz um grandioso talento. Porém, Rômulo, quando compunha algo, ou não mostrava a Vicente, ou simplesmente rasgava as partituras após algumas semanas.

- Bem – continuava Vicente –, mostre-me primeiro o que você compôs. Depois eu lhe dou uma boa notícia.
- Ah? OK! – respondia um Rômulo curioso.

* * *
Luana conversava na cozinha com Celeste, que preparava um delicioso bolo de chocolate para o lanche. As duas papeavam sobre coisas sem importância. É que Celeste, a pedido de Marcos e Patrícia, evitava tocar no assunto do sequestro. Aquele episódio de terror, segundo eles, deveria ser esquecido por Luana o mais breve possível. Mas a menina, após alguns segundos de silêncio de ambas, perguntava:

- Celeste, o que você achou daquilo tudo?
- Daquilo tudo o quê?
- Do sequestro!
- Ah, Luana, já passou. Vamos mudar de assunto, pode ser?
- Mas é que...
- Você precisa esquecer isso, meu anjo. Sei que ainda está impressionada com tudo aquilo, mas a vida segue! Afinal, você correu sérios riscos ali, mas está aqui, vivinha!
- Sim, mas... Os policiais precisavam mesmo ter executado aqueles bandidos?
- A Polícia sabe o que faz, minha filha. Isso é um problema deles. Você não tem culpa alguma na morte daqueles rapazes.
- Eu sei, mas me sinto como tivesse.
- Mas não tem! E vamos mudar de assunto? Rômulo! Fale sobre o seu namoro, meu anjo! Nunca mais me contou sobre. Eu gosto de saber. – dizia Celeste a sorrir, a fim de quebrar o clima.
- Está bem, Celeste! Está bem! O Rômulo... Ai, o Rômulo, Celeste! Eu estou completamente entregue, entende? Estou nas mãos desse garoto!
- Ah!? Vá com calma, Luana! Com calma!
- Como assim? Estou apaixonada, Celeste! Quando digo que estou “entregue”, quero dizer...
- Quer dizer “entregue”, ora! Foi o que disse! E o foi o que quis dizer, Luana! Só que você precisa entender que, na sua idade, as coisas, às vezes, fogem de nosso controle. Está me entendendo onde quero chegar?
- Entendo. Fora de controle. É como eu me sinto quando...
- Quando?
- Quando ele me beija a nuca, Celeste! – dizia Luana ligeiramente encabulada.
- Ih... Já vi tudo... Vá com calma, minha filha! Com calma!

* * *
Vicente ouvia com atenção a composição inacabada de Rômulo. Foram ao todo três movimentos completos e um quarto por terminar. O professor ficava maravilhado com a carga sentimental presente naquelas melodias. Por diversas vezes sorriu silenciosamente a fim de não atrapalhar a execução do aluno.

- ...e é isso – dizia Rômulo – Ainda falta terminar esse último movimento. O que achou, S. Vicente?
- Estou muito emocionado, Rômulo! Sabia que era capaz de compor, mas não fazia ideia do quanto! Essa obra está linda, meu filho!
- Obrigado, S. Vicente!
- Trata-se de sua primeira obra, pelo visto!
- Mais ou menos. Eu já compus algumas valsas, mas não registrei nenhuma delas. Eram horríveis, para falar a verdade – Rômulo ria de si.
- E essa maravilha que acabou de me mostrar já tem nome?
- Tem sim. “Luana”.
- Hum... Sua namorada?
- Sim.
- Muito bom. Na sua idade, eu também compus algumas coisas inspiradas em uma namoradinha que tive.

Eles riam.

- Mas, S. Vicente, que boa notícia era aquela que tinhas para mim?
- Ah, sim, ia me esquecendo! É que, na semana passada, recebi esta carta! Trata-se de um convite para o XXI Concurso de Piano Clássico Johann Sebastian Bach, no qual há várias categorias; entre elas, “composições originais”. Que tal?
- Nossa! Acha que tenho chance?
- Lógico! Por que estaria lhe contando isso?
- Mas minha obra ainda não está pronta...
- Ainda não está! Mas estará! Você tem até o início do mês que vem para inscrevê-la! O que acha?
- S. Vicente – dizia Rômulo a catar suas partituras –, preciso ir!
- Que pressa é essa, meu filho!
- Preciso terminar essa composição já!
- Isso é um “sim”, então?
- É um “claro que sim”, S. Vicente!
- Fico feliz!

Rômulo saía da casa de Vicente a passos largos, que logo davam lugar a uma ansiosa corrida. O rapaz, em alta velocidade, sorria, pois, em sua mente, logo surgiam algumas melodias que concluiriam o movimento inacabado de sua obra. Rômulo era um misto de alegrias; tudo vinha como um emaranhado de sentimentos e lembranças. Luana, o concurso, as novas melodias, as folhas que voavam lhe abrindo caminho para sua corrida.

Ao dobrar uma esquina, pendurava-se com a mão desocupada em uma placa de trânsito e, antes de completar a curva, dava umas duas voltas ao redor do poste. Algumas partituras se soltavam da outra mão, mas Rômulo apenas sorria diante da bagunça que provocara. Sem parar de sorrir, catava pela calçada e pela rua as suas pautas. Uma menina que passava resolvia ajudá-lo e:

- Menino – dizia a jovem a catar as partituras –, o que te faz tão feliz? Suas folhas estão todas voando!
- Tudo! Nesse momento, tudo me faz feliz! – respondia Rômulo num sorriso que encantava a menina.

Foi quando um dos seus escritos voou para o meio da rua. Rômulo, num êxtase musical, corria até lá. O sorriso encantado da menina que o ajudava dava lugar a um grito agudo que rasgava a tarde fria:

- CUIDADO!

Era tarde. Um ônibus que vinha em alta velocidade acertava Rômulo em cheio. Seu corpo, já sem vida, voava por metros até rolar por vezes sobre aquele asfalto. Findavam ali um sonho, um amor, uma felicidade e uma obra que resumiria tudo isso.

[Continua]

* * *
Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo.
Trilha Sonora:
Dance Of The Adolescents – Stravinsky.
Mais histórias sobre Luana em:
LUANA, DUAS, O NATAL DE LUANA, GISELE, JANEIRO MEU, VERDADES DE LUANA e MINHA PRIMA LUANA.

8 comentários:

Livia Queiroz disse...

Decepcionei-me!

Como assim?
Rômulo morreu?
E Luana? Como vai ser agora?
Ah não!
Não!
Não!

Poxaaaaaaaaaaaaaaaaa

Anônimo disse...

Aii, meu Pai Amadoo!!!
A Luana lá todaaa, sabe como...
E o Rômulo morre??
"já sem vida". Como assim?!!!
Tadiinha da meninaaa!
Agora fiquei deprimida. Desconfiava dele e vou desconfiar sempre.. Será que agora que ele morreu tudo vem a tona? Ou nunca vamos saber??
Que triste!
://

(continua..)
bjuh

Vanessa Sagossi disse...

Iii, esse anonimo ai em cima é meu.. esqueci de logar, com a morte do rômulo tb..

janu disse...

oO

Sem mais!

Nathalia disse...

"Koéh", luciano? hahahahahaha
como assim "já sem vida"?

não acredito...

jαnα ¦D disse...

Devo dizer que agora sim, adorei! Não querendo ser contra o romantismo, mas esse conto pedia algo assim. Ah, e claro, eu nunca gostei do Rômulo. Isso podia virar um filme :D

Aninha disse...

Não estou acreditando!
É sério, estou chocada :O
nem sei o que comentar..









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C. disse...

Ahh, fala sério... Você matou o Rômulo?!?!?! O.o