segunda-feira, 17 de agosto de 2009

OPUS 1 - Parte 6



A segunda-feira amanhecia sob nuvens ainda mais negras que o dia anterior. A chuva continuava a cair, ora forte, ora fraca. Ninguém naquela noite dormira na casa de Rômulo. Embora todos ali estivessem vivos, aquela família ainda se mantinha bastante assustada. Os outros familiares ficaram por lá até o dia amanhecer.

Rômulo ligara para Marcos pelo menos umas dez vezes, a fim de saber notícias de Luana. E por mais que ouvisse do pai da menina que estava tudo bem, Rômulo ligava de novo e de novo e de novo...

- Rômulo – dizia Marcos na última ligação –, fique tranquilo, por favor. Luana logo acordará e em breve estará liberada pelos médicos. Está tudo bem! Acredite rapaz!
- Quero ir até aí! Quero vê-la!
- Não é aconselhável, Rômulo. Não agora. Ela precisa descansar. Logo vocês se verão, OK?
- Tudo bem, primo Marcos.

Por volta de onze da manhã, Luana recebia alta do Dr. Fernando. Marcos e Patrícia, que mais pareciam um casal de zumbis, sorriam aliviados ao saber que levariam a menina para casa. Luana, já mais esperta, abraçava Marcos e Patrícia com força no corredor do hospital.

- Está tudo bem agora, Luana – dizia Marcos – Vamos para casa, tomar um bom banho e descansar!
- Onde está Rômulo?
- Eu achei melhor ele não vir, filha.
- Mas queria tanto vê-lo!
- Posso imaginar o quanto, Luana, mas terá todo o tempo do mundo para vê-lo.
- Sim...

Pelo caminho, mas uma ligação de Rômulo para Marcos.

- Diga, Rômulo!
- Ela já recebeu alta, primo?
- Já. Estamos indo para casa.
- Eu encontro vocês lá, pode ser?
- Pode sim, mas me prometa que vai deixá-la dormir, OK?
- Prometo.

Celeste, a empregada da família de Luana esperava por eles no portão sem saber o que ocorrera, mas ao ver Luana com a cabeça enfaixada, aquela senhora, tomada por um sentimento quase que materno, largava o guarda-chuva no chão e corria para os braços da menina. “Meu anjinho! O que aconteceu, meu Deus?”, dizia Celeste.

- É uma longa história, Celeste – dizia Marcos – Mas está tudo bem, graças a Deus. Não tive como te contar antes, me desculpe essa espera toda.
- Não tem problema, mas me conte o que houve, homem de Deus!
- Assim que pudermos. No momento precisamos é de um bom banho e de uma boa comida.

Luana entrava em casa e ia direto abraçar Mimi, que miava alto de tanta saudade. Passava os olhos pela casa e, repentinamente, Luana tinha a noção de que por muito pouco não perdera a oportunidade de viver a alegria que era estar em casa, com sua família. Lembrava-se da voz de “Um”. Sentia-se como se nascesse novamente; suspirava aliviada.

* * *
Patrícia adiantava o ocorrido e ajudava Celeste com a comida e a mesa enquanto Marcos telefonava a fim de passar as ordens do dia aos seus funcionários dos supermercados.

Luana, no andar de cima, tomava um longo banho. Com cuidado para não molhar o curativo na testa, Luana ensaboava todo o corpo lentamente. Pensava muito em tudo o que ocorrera na noite anterior, mas sem tirar da cabeça uma melodia agora muito familiar: o primeiro movimento da obra que Rômulo compunha e mostrara a ela momentos antes do sequestro. Era uma melodia linda. Embalava aquele banho repleto de lembranças boas e ruins daquele domingo.

Luana se lembrava dos beijos de Rômulo em sua nuca, porém, lembrava-se também da violência com que teve seus cabelos puxados por aquele seqüestrador. Lembrava-se da chuva que levemente umedecia os sentimentos tão à flor da pele daquele frio fim de tarde. Deixava-se banhar pelas águas quentes do chuveiro, que se misturavam com as lágrimas que nasciam mudas de seus olhinhos puxados.

A melodia do piano de Rômulo tornava-se mais presente na mente de Luana à medida que lembrança lhe presenteava com mais alguns compassos. “Rômulo...”, sussurrava Luana ao sentir o corpo arder com o calor daquelas águas. Tudo o que mais queria era sentir novamente aquele beijo interrompido por armas e agressões. Luana sentia como se parte dela estivesse ausente, porém, a caminho.

Luana vestia um conjunto de moletom azul claro, calçava sua sandália e descia para o almoço.

Já na metade da escada, Luana pôde ver à mesa Patrícia, Marcos e, para sua inquietante e silenciosa loucura, Rômulo.

- Você está aí! Nem o ouvi chegar, meu... – dizia Luana, que tinha seu corpo abraçado por um Rômulo quase que doente de saudade, logo ao fim da escada.
- Como você está, meu amor?
- Bem! Muito melhor agora, Rômulo! Ai, me abraça forte!

O jovem casal evitava o beijo frente aos pais de ambos, sempre. Mas o abraço já dizia por si só. Marcos ficava sem graça diante da cena e, talvez, até um pouco enciumado. Patrícia e Celeste sorriam comovidas.

Durante o almoço, Luana se mostrou bem animada e, embora Marcos e Patrícia quisessem evitar, ela mesma puxava assunto sobre o sequestro – para alívio de todos, na verdade, já que morriam de curiosidade para saber o que de fato ocorrera naquele banheiro.

- ...foi quando aquele homem me pegou pelo cabelo e me levou para o banheiro. Ele abriu a porta e me jogou com força no chão. Eu bati com a testa no vaso sanitário e comecei a sangrar. Fiquei meio zonza e vi tudo “escurecendo”. Então ele falou alguma coisa comigo, levantou a minha cabeça e bateu de leve no meu rosto para ver se eu acordava. Eu fechei um pouco os olhos, mas cheguei a ver que ele ainda checou a minha pulsação, me deitou sobre uma toalha de banho e, com uma outra toalha, me cobriu. Com papel higiênico, ele enrolou a minha cabeça, acho que para estancar o sangue, não sei. Depois disso, não me lembro de mais de nada. Tudo foi apagando aos poucos. Pensei que estava morrendo.

Todos à mesa pareciam pensar na mesma coisa: aquele sequestrador, apesar de tudo, ainda tivera certo cuidado com Luana. A menina continuava:

- Tenho medo que eles voltem, Rômulo.
- Não vão voltar, Luana.
- Como tem tanta certeza?
- Porque eles estão mortos. Todos eles. A Polícia os matou.
- Meu Deus!
- Vamos mudar de assunto, gente? – pedia Marcos.

O silêncio tomava conta da refeição.

Luana abaixava seu garfo ainda com comida e, boquiaberta, olhava para o nada. Um fio de lágrima corria seu rosto até cair sobre o arroz de seu prato.

Chorava porque dentro de si um conflito enorme entre a felicidade de ter saído viva e as imagens de que sua própria mente criava em relação à morte daqueles sequestradores se fazia presente de modo assustador. O piso, o piano, o sofá e tudo aquilo que testemunhara o amor pleno e inocente de Rômulo e Luana fora também um cenário sangrento.

[Continua]

* * *
Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo.
Trilha Sonora: Piano Sonata N.º 15 (2nd Movement)
– Mozart.
Mais histórias sobre Luana em:
LUANA, DUAS, O NATAL DE LUANA, GISELE, JANEIRO MEU, VERDADES DE LUANA e MINHA PRIMA LUANA.

8 comentários:

Vanessa Sagossi disse...

Primeiiiiraa!! Uruul!!!
Aiaiaiii, Luanaa!
Ela continua fofa como sempre!
E o Luciano fazendo o maior suspensee!
Quero mais!

continuua...
bjuh!

Livia Queiroz disse...

Eita...

Quanta confusão na cabeça da Luaninhaaaa!

Aninha disse...

depois de um trauma desse é normal que ela demore um pouco pra se recuperar.
mas ainda bem que as coisas estão voltando a normalidade.. :)

bjos

janu disse...

....Vim pela música...rsrs

Bjokas

Nathalia disse...

eu ia dar pulos de alegria por saber da morte deles...

sim, eu n presto.

Certas Coisas!|! disse...

100sacional.......

Bom, o negocio é ir devagar e sempre.... Que tudo se ajeita...

Gostei do estilo do blog......

esta expetacular!

Se puder visite o meu

http://euvoustar.blogspot.com

Camis disse...

Eu ia ficar feliz de ter saído viva e saber que os sequestradores nunca mais voltariam...

www.teoria-do-playmobil.blogspot.com

Camis disse...

Luciano, parabens por mais uma serie sobre a Luana maravilhosa e pelo dia de hj.