quinta-feira, 13 de agosto de 2009

OPUS 1 - Parte 4



Marcos e Patrícia não conseguiam sequer pensar na perigosa situação em que Rômulo e seus pais se encontravam. A incerteza do real estado de Luana tomava todos os pensamentos do casal. Marcos tinha vontade de invadir aquele banheiro e trazer sua filha em braços seguros, mas, infelizmente, pelo menos naquele momento, a dolorosa espera era a sua única alternativa.

O comandante da operação caminhava para lá e para cá. Sabendo que se tratava de quatro loucos e que a situação poderia trazer um fim trágico àquela família, ele instruía os atiradores de elite nos fundos do quarteirão ao lado – a fim de que aquela ação não chegasse ao conhecimento dos sequestradores e muito menos da imprensa. Aquele policial tinha plena confiança naqueles atiradores. Muito experiente, tinha “carta branca” para agir nesses casos.

Enquanto isso, numa tentativa de acalmar a situação dentro da casa, o negociador, já encharcado de tanta chuva, conversava com “Um”.

Depois de muito conversar, o negociador conseguia convencer “Um” a entregar Luana. Conforme pedido do bandido, ele colocava sua arma no chão e retirava o casaco e a camisa; levantava então a barra da calça para que “Um” tivesse a certeza de que estava desarmado.

- Estou com as melhores das intenções, “Um”! Posso entrar agora? – perguntava o negociador.

Com muita cautela, o policial caminhava da varanda até a sala. “Um” lhe jogava as chaves da porta do banheiro pelo chão e pedia que a ação fosse rápida.

O policial chega até o banheiro. Por dentro carregava o medo enorme de encontrar uma jovem já sem vida. Ao abrir a porta, ele encontra Luana deitada sobre uma toalha de banho e coberta por outra. Na testa da menina, como adiantara “Um”, um corte que lhe ensopava de sangue o semblante e boa parte da toalha de baixo.

Com Luana já ao colo, o policial passava apressado pela sala.

- A nossa garantia, verme! Vou lhe dar dez minutos! – dizia “Um” ao negociador.
- Terá sua garantia!

O comandante só recebia a notícia de que seu negociador resgatara Luana minutos depois – voltando das últimas instruções aos atiradores, ele avistava seu policial com a menina no colo.

- Está viva? – perguntava o comandante.
- Sim! Mas precisa ir logo a um hospital. Ela perdeu bastante sangue. Tem um corte profundo na testa, senhor.
- Bom trabalho, rapaz!

Marcos e Patrícia, ao verem Luana naquele estado, correram até lá com os corações apertados.

- Como ela está? O que fizeram com minha filha, meu Deus? – perguntava um Marcos aflito.
- Calma, senhor – dizia o negociador –, ela está viva! Está ferida, mas viva!
- Luana! Meu amor! – dizia Patrícia a acariciar o rosto ensanguentado da desacordada –
O que fizeram com você?
- Não pude demorar muito no local, senhora, mas tudo indica que ela, por algum motivo, bateu com a cabeça em algum lugar naquele banheiro. O que temos que fazer agora é levá-la imediatamente a cuidados médicos!

Uma ambulância do Corpo de Bombeiros que estava de plantão levava Luana e seus pais para o hospital.

Outros familiares de Rômulo já estavam no local, o que deixava Marcos mais à vontade na hora de dar as costas àquela situação ainda muito assustadora.

- Gente – dizia Marcos –, me mantenha informado sobre a situação, OK? Eu preciso levar Luana e...
- Claro, Marcos, vá! Deus está conosco e vai ficar tudo bem! Melhoras para Luana! – diziam alguns familiares.

Rômulo ainda não sabia que Luana fora liberta. Com duas armas apontadas para sua cabeça, o rapaz sentia como se tudo ali silenciasse. Em sua mente, um filme lhe mostrava toda a trajetória daquele romance entre primos. Tentava anular os pensamentos ruins sobre o estado de Luana lembrando de todos aqueles beijos e sorrisos.

Fixando o olhar na chuva que caía sobre uma árvore atrás de sua casa, Rômulo enxergava a movimentação de dois atiradores. A esperança de sair ileso dali renascia, mas se misturava com o medo dos sequestradores terem a mesma descoberta que ele: aqueles policiais se preparavam para matá-los.

O comandante da operação tinha ciência de que os quatro tiros tinham de ser certeiros e no mesmo instante. Quatro atiradores – cada um com o seu alvo – teriam de atirar juntos e sob sua ordem.

Um documento de garantia falso foi providenciado e levado pelo negociador até “Um”, a fim de manter os sequestradores sob uma espécie de controle emocional.

Nos fundos da casa, “Dois” e “Quatro” já eram alvos fáceis; permaneciam imóveis com Rômulo. Os atiradores já estavam prontos para a ordem do comandante.

- Senhor – dizia um dos atiradores pelo rádio –, estamos prontos! Câmbio!
- OK! – dizia o comandante – Mantenham seus alvos! Aqui na frente estamos quase no ponto! Câmbio!

Na frente da casa, “Um” resolvia pedir para que o negociador lesse o documento. “Isso! Espero que eles fiquem quietos no momento da leitura”, pensava o comandante.

No momento da leitura, “Um” e “Três” mantiveram-se parados; prestavam atenção em cada palavra lida pelo negociador.

Também sobre uma árvore, ao lado dos atiradores da frente, o comandante se preparava para uma das ordens mais difíceis de sua carreira.

- Atenção! – dizia o comandante aos quatro atiradores pelo rádio – no “fogo”, como combinamos, um tiro só, na cabeça! Prontos?

O comandante recebia o “pronto” dos quatro atiradores. Respirava fundo, pedia perdão a Deus – como sempre fazia diante de decisões como esta – e então:

- Um, dois, três, fogo!

Os atiradores certeiramente atingiam as cabeças dos sequestradores, que, sem chance de qualquer tipo de reação motora, caiam atrás de seus reféns.

- Os dois estão no chão, senhor! Câmbio! – informava um dos atiradores dos fundos.
- Aqui na frente também, rapazes! Bom trabalho! Câmbio! – dizia aliviado o comandante.

- Acabou, gente! Acabou! Está todo mundo bem! – diziam os policiais a Rômulo e seus pais.

Rômulo ia de encontro a seus pais. A família se abraçava ainda muito apavorada com os corpos sobre o piso da sala e no quintal dos fundos.

- Onde está Luana, pai? Onde ela está? – perguntava Rômulo.
- Calma! Ela já foi liberta!
- Mas onde ela está?
- Não sei, meu filho! Vamos saber logo!

Rômulo ia até o negociador:

- Onde está Luana?
- No hospital. Ela está ferida, mas saiu daqui com vida. Os pais dela estão com ela.

Rômulo chorava; era um misto dos sentimentos mais assustadores que um ser humano pode ter. Ao passar a vista à sua volta, notava aquele cenário trágico, mas não conseguia tirar da mente a saúde de Luana. Seus pais estavam vivos, mas o jovem sentia que parte dele ainda corria sério perigo: o coração.

[Continua]

* * *
Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo.
Trilha Sonora:
Allegro Non Troppo (Concert No.1 In A Minor For Violin and Orchestra, Op. 99II, Scherzo) - Dmitri Shostakovich.
Mais histórias sobre Luana em:
LUANA, DUAS, O NATAL DE LUANA, GISELE, JANEIRO MEU, VERDADES DE LUANA e MINHA PRIMA LUANA.

4 comentários:

Aninha disse...

nossa, tava achando que algum dos atiradores iria errar.
mas e Luana? estou torcendo pra que ela fique bem e tudo volte a ser como era antes de todo esse terror, pra que ela e Rômulo, e a família de ambos, tenham paz!


bjos.

Sr.F disse...

Demorei pra comentar pois não havia lido os posts anteriores ainda. Tá muito bom mas sei que foi uma opção sua noemar os sequestadores com números mas isso me deixou um tanto confuso as vezes. De qualquer jeito o suspense está mantido! Voltarei pra ver o desfecho e parabéns pela escolha da trilha sonora, excelente

Yuri disse...

Massa hein!

Vanessa Sagossi disse...

Concordo com a Aninha, achei que pelo menos 1 ia errar e ia dar uma confusão!!!!
Mas e a Luaana??

bjuh..
continua