quinta-feira, 27 de agosto de 2009

OPUS 1 - Final



No dia seguinte, a casa de Luana era tomada pelo mais mórbido silêncio. A menina, que não dormira, permanecia na cama. “Não há motivos para me levantar daqui”, dizia a si mesma. Da cozinha, no andar de baixo, vinha o barulho dos talheres. Era Celeste servindo o café de Marcos e Patrícia. Já se passavam das dez horas, mas quem “acordaria” Luana?

- Marcos, por que você não sobe? Vá ver se está tudo bem com Luana – dizia Patrícia.
- Eu posso imaginar o estado de minha filha, Patrícia. Melhor não incomodá-la.
- Não se trata de incomodar, Marcos, mas de acolher. Ela precisa de nós nesse momento. Afinal, foi por conta disso que não fomos trabalhar hoje!
- Você tem razão. Vou até lá.

Marcos subia as escadas pensando no que dizer à Luana. Um “Está tudo bem, filha?” não seria nada acolhedor. Era lógico que não estava nada bem!

Bateu na porta:

- Luana?
- Oi.
- Não vai tomar café? – dizia Marcos achando ser a melhor frase.
- Não. Estou sem fome, papai.
- Eu posso entrar, filha?

Marcos esperava por um “um minuto” ou um “não”, já que a menina, fazia alguns meses, não mais trajava roupas de dormir na sua frente. “Minha menina mal cresceu e já vive experiência tão brutal”, pensava ele.

- Pode, papai.

Marcos estranhou, mas, ao abrir a porta, entendeu a resposta positiva de Luana; a menina ainda estava com a mesma roupa da noite anterior.

- Minha filha! Passou a noite em claro? Estás com a mesma roupa!
- Passei, papai!

Os olhos puxados da menina se mostravam ainda menores de tão inchados. O tórax, ainda úmido, dava sinais de um pranto longo e de término recente. Marcos concluía que a filha chorara por toda a noite passada.

- Papai, parece que estou começando a cair na real, sabe? O Rômulo se foi...
- Acalme-se, Luana.

Marcos sentava-se à beira da cama da filha e:

- Deixe-me lhe contar uma coisa, Luana: Rômulo foi um rapaz maravilhoso para você. Eu, como pai, vi o quão mais feliz você se tornou após a chegada dele. Patrícia e eu, em nossas conversas, imaginávamos vocês dois juntinhos para sempre. Sei que eram muito jovens, mas, não sei, tudo em vocês era muito sincero; muito inocente também, mas muito real. Foi uma experiência muito linda a que viveu com ele, não foi?
- Foi... Foi inesquecível, papai.
- Então! Tente guardar contigo, Luana, as lembranças boas que esse namoro lhe rendeu. Pense que o romance de vocês foi tão perfeito, digamos assim, que sequer deu chance para que o tempo o desgastasse.
- O sorriso dele não me sai da cabeça.
- Isso é bom, Luana. Lembre-se sempre desse sorriso.
- Sabe a que horas exatamente será o enterro, papai?
- Sim. Jânio me ligou mais cedo para dizer que o velório terá início às duas.
- Não sei se quero ir.
- Eu também prefiro que não vá, Luana. Mas é você quem decide, OK?
- Tudo bem.

* * *
Por volta de uma da tarde, Marcos e Patrícia terminavam de almoçar. Luana aparecia no pé da escada; vestia uma calça jeans escura, e um casaco xadrez. A menina não comera nada desde a noite anterior.

- Vou com vocês – dizia Luana.
- Tem certeza, Luana? – perguntava Marcos.
- Tenho, papai.
- OK. Patrícia e eu vamos nos aprontar.

* * *
Conforme combinado, lá estavam Marcos, Patrícia, Celeste – que fizera questão de comparecer, afinal gostava muito do rapaz – e Luana no velório de Rômulo.

Luana estava abatida e sem palavras. Parecia tudo ser uma grande brincadeira, um pesadelo, ou, talvez, um enterro mesmo, mas de uma outra pessoa, não de Rômulo. Ao avistar a urna, coberta por uma quantidade enorme de flores, Luana aperta com força o braço do pai. Naquele instante, sentiu-se fraca diante do fato. Marcos e Patrícia procuravam os pais do menino em meio aos outros familiares.

“Fora de órbita”, a menina sentia um toque nas costas e, ao virar lentamente o rosto, recebia os cumprimentos de Gisele, também prima de Rômulo, com quem tivera, havia cerca de um ano, diversas guerras. [vide O Natal de Luana, Gisele e Verdades de Luana].

- Eu sinto muito, Luana! Muito! – dizia Gisele.

As duas se abraçavam e, num misto de tristeza e perdão, choravam. Gisele se apresentava completamente curada de suas obsessões e problemas psicológicos. Mais calma, foi quem durante todo o velório se manteve abraçada com Luana. Uma cena quase impossível anteriormente.

A urna de Rômulo não permitia uma visão do rosto ou do corpo por parte dos presentes. Jânio explicava que o acidente tornara irreconhecível a face do rapaz. “...queremos ficar com a lembrança de um Rômulo feliz, alegre e sorridente, como ele sempre foi...”, dizia aquele pai choroso pouco antes de seguirem todos para o enterro.

- Você vem, Luana? – perguntava Marcos.
- Não. Não quero vê-lo sendo enterrado.
- OK. Patrícia ficará aqui com você, está bem?
- Não precisa. Eu queria ficar sozinha.
- Luana?
- Por favor, papai. Por favor, Patrícia.
- Está bem, filha. Não demoramos.

Luana se sentava no mesmo banco de concreto onde, anos atrás, sentara-se com Rômulo, no enterro de sua prima Arlete. Tudo vinha à tona. Chegou a sentir a presença de Rômulo ao seu lado. Lembrava-se das palavras trocadas naquele dia também chuvoso:

- Posso te dizer uma coisa? - perguntava Rômulo.
- Diga.
- Há muito não sinto vontade de ter alguém como sinto agora.
- O quê?
- Luana envergonhava-se, porém, demonstrava agrado ao ouvi-lo em tal afirmação.
- É sério. Luana, isso pode parecer esquisito, por conta de toda essa situação, mas eu já estou com saudades de você só de pensar que amanhã não lhe verei.
- Poxa, Rômulo. Não sei o que dizer. Eu...
- Não precisa dizer nada. Apenas contribua para o cessar dessa saudade.


Ela abaixava a cabeça quando:

- Luana? – dizia um senhor de voz mansa.

- Oi, senhor. Como sabe meu nome?
- Eu estava no velório, meu anjo. Eu me chamo Vicente.
- S. Vicente? O professor de piano de Rômulo?
- Exatamente.
- Ele me falava muito no senhor. O tinha como um ídolo.
- O Rômulo era um menino muito bom. Talentosíssimo.
- É...
- Bem. Eu tenho uma coisa aqui que eu acho que lhe pertence.
- O que é?
- Isto!

Vicente lhe entregava um CD.

- O que tem nesse CD?
- Poucos minutos antes de falecer, Luana, Rômulo esteve lá em casa.
- Sim, eu soube.
- Então! Lá, ele me mostrou uma peça para piano que fora composta inspirada em ti. E – como faço sempre que meus alunos me mostram uma composição original – eu gravei sua execução numa fita cassete sem que Rômulo soubesse; a fim de mostrá-lo mais tarde, quando a composição já se mostrasse pronta.
- Não me diga que...
- Sim! Nesse CD está registrado três dos quatro movimentos do que seria “Luana - Op.1”.
- Meu Deus, S. Vicente! Não sei o que dizer! Muito obrigada!
- A gravação não está das melhores, por conta do cassete, mas...

* * *
À noite, em seu quarto, Luana colocava o CD para tocar. A peça começava exatamente como Rômulo a mostrara na noite do sequestro; uma melodia linda e alegre. O segundo movimento trazia notas fortes e tensas, que faziam Luana lembrar justamente da ação dos sequestradores. O terceiro movimento voltava, de maneira mais sutil, à melodia do primeiro. Dessa vez, era a união do casal chegando ao ponto mais extremo daquele amor o que vinha à mente da menina.

Antes de começar o quarto movimento, ouve-se na gravação a voz de Rômulo dizendo “esse movimento eu ainda não terminei, S. Vicente, mas será mais ou menos assim...”.

O que sucedia era uma melodia ainda mais rica e feliz, porém, logo interrompida pela voz do rapaz, que dizia “...é isso. Ainda falta terminar esse último movimento. O que achou, S. Vicente?”.

Com os olhos em lágrimas, Luana prendia o cabelo num elástico e abria a janela de seu quarto. Num pensamento saudoso e ao mesmo tempo reflexivo, a menina comparava aquela obra inacabada à própria vida de Rômulo; à sua própria vida ao lado dele: ambas interrompidas, talvez, em seus melhores momentos.

O vento forte, então, fazia com que adentrasse ao quarto de Luana, pela janela, uma folha avermelhada, que logo tratou de pousar entre a gola do casaco e a nuca da menina. Um prazeroso arrepio se fez presente; sucessivamente, um suspiro:

- Rômulo...

[Fim]

* * *
Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo.
Trilha Sonora: The Great Gate Of Kiev – Modest Mussorgsky.
Mais histórias sobre Luana em:
LUANA, DUAS, O NATAL DE LUANA, GISELE, JANEIRO MEU, VERDADES DE LUANA e MINHA PRIMA LUANA.

12 comentários:

FNORD! disse...

Que legal esta história! Me pergunto como vc tem tempo de escrever tanto assim, sem ficar sem ideias nem perder a qualidade!
.
Parabéns!

Aninha disse...

Que final lindo, apesar de triste.
Creio que depois dessas experiências todas Luana amadurecerá ainda mais. Que ela se recupere logo e siga sua vida. A história deles foi tão linda, ainda é meio estranho pensar que acabou. Mas as lembranças todas ficarão com ela..
E a música ficou perfeita :)

Pâmella disse...

Lu adorei..

é triste né.. nao creio q ele morreu.. pois é, nao existe homem perfeito assim nao... nem na ficção, vc matou ele....auhauhauahuahaua!

terá mais contos de Luana?

Livia Queiroz disse...

volto a dizer o q vc ja sabe: NÃO GOSTEI DE ROMULO TER MORRIDO!!!

"Tente guardar contigo, Luana, as lembranças boas que esse namoro lhe rendeu."

Assim como Luana, nós leitores guardaremos isso tbm.
Mto triste essa história!
Fico com uma sensação esquisita, um choro preso... aff

Nathalia disse...

pelo menos n tive q atender telefonemas...
to triste, mas foi lindo!
parabéns!!!

jαnα ¦D disse...

Adorei o final, muito lindo! A música ficou perfeita também :D
Sei que todo mundo ficou incomodado com a morte do Rômulo, mas eu ainda acho que não há final que combine mais com a história do que este.
Muito bom mesmo!

Abraços.
='-'=

Kayo Medeiros disse...

é... sei lá, sem comentários. se a história desses dois realmente necessitava de um final, esse foi mais que perfeito. Longe daquele finalzinho piegas de sessão da tarde (nas raras vezes em que todo mundo não sai casado e feliz da vida), foi um final honesto e comprometido com a beleza da história dos dois.

Joinha!

Vanessa Sagossi disse...

Aii, fim!
Tadiinha da Luana..
Bonm, vamos pensar pelo lado positivo, como sempre diz um anjinho que conheço, pelo menos eles não terminaram e isso, assim pode durar pra sempre..
Eu gosto de Romeu e Julieta por isso. Também gostei do fim de era uma vez (quando todo mundo disse que era triste, mas é um triste que no final do fim é feliz ;P - coisa de maluco, né?)
Sério, fiquei triste junto com a Luana e tals.
Mas como disse a Pam, poxa, Luciano, você matou o único homem perfeito que poderia existir (já que não existe mesmo)...
Mas com toda a certeza! Tem mais Luana em breve, né, Luciano? ;D

Beiijo!!

Fabiana disse...

triste e lindo.
parabéns!

Janu disse...

Certa vez Carpinejar disse: "O poema dever ser forte e rápido como um desaforo."
...só depois do golpe que você consegue refletir.

Janu disse...

P.S.: Tô trabalhando acompanhada da trilha de Opus 1! Chique, né? rsrs

jiancarlo disse...

Show!